Recorde

Designer brasileiro vai para Guinness Book após fazer 1ª prótese para jabuti

Animal atualmente vive em um sítio em Brasília e o casco implantado recebeu pintura

Sex, 24/09/21 - 14h55

O designer 3D Cícero Moraes, 38 anos, da cidade de Sinop, no norte de Mato Grosso sempre ouviu falar ‘Guinness Book’, chegou a pegar em um desses anuários na infância, mas não imaginava que seu nome iria parar neste livro de recordes mundiais. Nesta quinta-feira (23), no entanto o designer recebeu em sua própria casa o ‘Guinness Book 2022’ com o nome dele em lugar de destaque no anuário, após ele ter reconstruído o casco de um jabuti, que ficou sem a proteção após um incêndio, em 2015. A invenção de Cícero foi a primeira prótese de casco de jabuti desenvolvida com impressora 3D no mundo.

“Eu sempre ouvi falar no livro dos recordes e a uma vez cheguei a pegar em um ‘Guinness Book’, na biblioteca da escola que estudava no ensino fundamental. O que eu não poderia imaginar é que meu nome estaria um dia nesse livro”.

Além do nome impresso nas páginas do ‘Guinness’, o designer revela outra surpresa ao receber o livro em casa. “Comecei a folear o livro e procurava meu nome em um espaço pequeno, mas não: estava em lugar privilegiado. Fiquei muito emocionado e dedico este reconhecimento à minha mãe, que lutou muito para me educar”, relata o designer.

Trabalho desafiador

A prótese que rendeu a Cícero o reconhecimento mundial foi construída para a jabuti Fred, em 2015, após o animal ter perdido a proteção em um incêndio em Brasília. Quando resgatada, Fred tinha larvas pelo corpo, estava bem machucada, além de ter perdido o casco. O designer conta que ele realizou o trabalho para a reabilitação do animal junto com o grupo “Animal Avengers”, formado também pelos veterinários Roberto Fecchio, Rodrigo Rabello, Matheus Rabello e pelo cirurgião dentista Paulo Miamoto.

O designer diz que o grupo estudava desde 2013 a construção de próteses em 3D para animais e que eles chegaram a construir peças menores para o bico de um tucano. Pelo tamanho da peça que deveria ser construída no caso de Fred, o profissional diz que o trabalho foi desafiador. “O casco do Jabuti era muito grande e foi um desafio. Ficamos com muito medo de fazer a peça inteira, ela dar problema e acabarmos perdendo o trabalho. Por isso, optamos por dividi-la em quatro partes. Na época em que fizemos a prótese, a cirurgia do animal já estava marcada e não poderíamos errar.”, conta.

Para a elaboração do novo casco, inicialmente Cícero precisou de várias fotos da jabuti ferida. Após reconstruir a volumetria do animal, o designer diz que também usou como parâmetro o casco de outro jabuti saudável. A impressão em 3D do casco da Fred, conforme explica o profissional, durou cerca de 50 horas nas peças maiores. As peças menores duraram entre 28 a 35 horas de impressão.  A cirurgia de Fred foi realizada em Brasília e o designer viajou até o local para levar o novo casco para o animal.

Outro ponto que o recordista Cícero destaca é que a prótese foi encaixada no jabuti sem a necessidade de parafusá-la no corpo do animal. “A peça se encaixou perfeitamente de forma que não precisamos parafusar. Seria um sofrimento para o animal, já que para fazer a manutenção, ele precisaria ser sedado. Dessa forma quando precisar de qualquer ajuste, o jabuti não vai passar por mais situações de estresse”, explica.

Em Brasília

Após ter recebido a prótese, a jabuti Fred tem total autonomia e vive em um sítio em Brasília. O animal não pôde retornar ao seu habitat natural, pois há risco de entrada de parasitas na estrutura e é necessário fazer manutenções periódicas na peça.

O grupo que fez o resgate e tratamento do animal não soube informar a idade do jabuti, mas, o designer que faz parte do coletivo garante que o animal viverá por muitos anos. 

O casco de Fred passou por uma pintura, em 2016, feita pelo artista plástico de Brasília Igor Caldeira. A prótese ficou com cor semelhante ao casco natural dos jabutis.

Legado

Para além de um recorde, Cícero diz que a prótese da Fred foi desenvolvida com baixo custo e o projeto é acessível. “A técnica que criamos pode ser replicada em qualquer lugar que tenha especialista que saiba colocar essa prótese. Tudo foi baseado em software livre, fotografia e em impressora 3D. O que torna mais importante nesta metodologia foi a acessibilidade e baixo custo”, conta.

O projeto, do novo casco para Fred também passa a servir como referência no meio acadêmico, explica o designer. “Depois que desenvolvemos o projeto, publicamos em revistas científicas, e nosso material tem servido de base para quem estuda o assunto”.

Cícero relatou à reportagem que mesmo sem imaginar anteriormente que estaria nas páginas dos Guinners, sabe bem o motivo pelo qual seu nome e do grupo ao qual ele atuou no caso Fred foi impresso no anuário. “Fizemos aquele trabalho inicialmente com o único objetivo de ajudar o animal, com um propósito maior de salvar uma vida, e não pelo reconhecimento. Tivemos sucesso não por sorte, mas, porque tínhamos conhecimento no assunto”.

Outros trabalhos

O grupo “Animal Avengers”, já preparou próteses para pelo menos outros 10 animais, além da Fred. Um desses trabalhos foi da prótese para substituir o bico da gansa Vitória, resgatada em Praia Grande, São Paulo, em 2017. Depois de receber um novo bico, Cícero conta que o animal conseguiu retomar a vida normal, chegando até a ter três filhotes.

Eles também desenvolveram a prótese do bico do Tucano Zequinha, em São Paulo, em 2015. 

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