Falta de ar constante, tosse, inchaço, dor torácica e desmaios podem ser indícios de uma doença pouco conhecida pelos mineiros: a hipertensão pulmonar. Trata-se de uma síndrome caracterizada por um aumento progressivo na resistência vascular pulmonar levando à sobrecarga do ventrículo direito.
“A câmara esquerda do coração, que bombeia o sangue que vai para o corpo, é forte. Já a câmara direita, que bombeia o sangue que vai para o pulmão, é fraca. Quando a pressão do pulmão sobe, a câmara direita não consegue lidar com esse aumento da pressão, e o paciente começa a ter uma insuficiência cardiorrespiratória”, explica Caio Júlio César dos Santos Fernandes, pneumologista do grupo de circulação pulmonar do Incor-Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
De acordo com uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Amigos e Familiares de Portadores de Hipertensão Pulmonar (Abraf), 88% dos entrevistados em Minas Gerais afirmaram desconhecer a doença. No Brasil, essa média é de 76%.
O médico diz que a falta de conhecimento da população em relação a doença está ligada à baixa incidência da patologia. “A doença é rara, então está dentro do esperado que haja desconhecimento da população. E, provavelmente, os dados devem se repetir na classe médica. Como o paciente não conhece a doença, ele não cobra esse diagnóstico do médico. Quando o médico não conhece, o diagnóstico não é identificado”, comenta.
A hipertensão pulmonar pode ser um sintoma da esquistossomose (doença parasitária comum no Brasil) ou pode ser resultante de um problema em uma membrana que recobre os vasos do pulmão, chamada endotélio. As células do endotélio começam a se proliferar e passam a entupir o pulmão, o que faz com que a pressão daquele órgão suba.
A hipertensão também pode ter origem genética, estar relacionada ao lúpus e HIV positivo, ou ainda ser resultado de uma embolia pulmonar, em que um coágulo se forma, migra e entope o vaso sanguíneo, o que é chamado de hipertensão pulmonar tromboembólica.
Tratamento. A doença não tem cura. No entanto, pode ser tratada. “No caso da hipertensão tromboembólica, conseguimos operar o paciente e remover cirurgicamente esse coágulo. Em 50% dos pacientes, a hipertensão tromboembólica é curada. No restante, ela é tratável e controlável”, explica Fernandes.
O médico ressalta que, antes de surgir tratamento, a taxa de sobrevida de pacientes com a doença era de dois anos e meio. Com o avanço das medicações, esse número melhorou. Porém, a taxa de mortalidade ainda é considerável. “Dados estrangeiros estimam uma sobrevida de três, em cerca de 50% a 70% dos casos. Mas o diagnóstico não é uma sentença. Temos pacientes vivos há muito tempo”, conta.
Para diagnosticar a doença, o médico estima a pressão com um ecocardiograma. Caso o resultado seja positivo, o paciente deve se submeter a um cateterismo de coração. Uma vez diagnosticada, a doença passa a ser irreversível, a menos que seja operável.
“É uma doença crônica, progressiva e incurável. O diagnóstico precoce é fundamental para um prognóstico melhor”, alerta o pneumologista.
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‘Eu não imaginava a gravidade’
Há um ano, a secretária executiva, Mariana Oliveira, 30, foi diagnosticada com hipertensão pulmonar. Ela conta que a doença foi descoberta devido a um embolia pulmonar. Na ocasião, os médicos disseram que a hipertensão regrediria, mas não foi isso que aconteceu.
Em março do ano passado, Mariana teve outra embolia e descobriu que a hipertensão havia avançado rapidamente. “Até então, eu nunca tinha ouvido falar sobre a doença. Quando os médicos me disseram que eu estava com hipertensão pulmonar, achei que era algo normal, não imaginava a gravidade dela”, conta.
Apesar de estar relacionada a uma embolia pulmonar, a hipertensão, no caso de Mariana, não é operável, e o tratamento é feito por meio de medicamentos.
“Há seis meses, após a realização de vários exames para saber o nível da doença, passei a fazer uso de medicamentos. Agora vou repetir os exames para saber se ela regrediu ou estabilizou”, explica a secretária executiva, confiante.
De acordo com a pesquisa realizada pela Abraf, 75% dos entrevistados consideram que uma pessoa portadora de hipertensão pulmonar tem uma vida parcialmente limitada pela doença.
Mas esse não é o caso de Mariana. Ela afirma que, apesar de algumas atividades serem executadas com dificuldade, ela não deixa de fazer nada. “A pior parte é o cansaço. Às vezes é difícil andar ou subir escadas sem ficar ofegante, mas eu não deixo que a doença limite as minhas ações. Faço de tudo, mas respeito os meus limites”. (RS e MA)