A frequência e a performance sexual costumam frequentar as mais diversas rodinhas de conversa, embalando desde piadinhas entre amigos e amigas até discussões mais tensas entre quatro paredes. Não é por acaso que o assunto seja tão popular. Ocorre que, geralmente, entendemos que a quantidade de transas semanais e o tempo de duração desses encontros são as principais evidências de uma melhor ou pior qualidade do sexo. 

Em consultas médicas e psicológicas, os temas “frequência” e “performance” também costumam aparecer – e de forma reiterada. Nesses espaços, na maioria das vezes, pacientes manifestam um certo desconforto, pois sentem que deveriam se esforçar mais para conseguir um “desempenho melhor”. Evidentemente, por trás dessas manifestações, está a crença de que, no sexo, quanto mais, melhor.  

Quanto a falar sobre desejos e expectativas, nada mais natural e saudável para uma relação. “É possível ter um diálogo sobre essas questões de forma respeitosa. Para muitos, o tema é importante, uma vez que pode ser usado como mais um termômetro para o casal”, situa a psicóloga e sexóloga Enylda Motta.  

O problema é que, quando desmedida, essa busca por mais prazer pode, na verdade, se revelar um obstáculo para uma vida sexual plena e satisfatória. É o que adverte a profissional, lembrando que cobranças excessivas sobre si e sobre sua parceria podem repercutir em um desgaste da relação.  

“O sexo deve ser algo natural”, diz, defendendo que a tentativa de suprir padrões irreais, muitas vezes reforçados pela indústria da pornografia, por exemplo, chega a provocar disfunções sexuais. 

Enylda adverte não existir um parâmetro para dizer se o casal está transando muito ou se está transando pouco. “Se as pessoas envolvidas no enlace amoroso fazem sexo todos os dias e sentem prazer, se isso as deixa satisfeitas, não há nenhum problema. O que não é saudável é pensar no ato como algo obrigatório e até forçado”, avalia. Neste ponto, é importante lembrar que muitas pessoas, sobretudo mulheres, acabam vivenciando situações de abuso e até de estupro matrimonial, quando uma das partes tem relações forçadas ou sofre outras coerções sexuais praticadas por sua parceria.  

Outro problema que comumente aparece nos consultórios diz respeito à tentativa, na maior parte das vezes frustrada, de recorrer ao sexo como uma tábua de salvação de uma relação que vai mal. O sexólogo Eduardo Siqueira Fernandes lembra que muitos casais, no afã de ter um volume de atividade sexual maior, pode acabar negligenciando a qualidade da transa.

Ele também lembra que diversos fatores, como problemas de saúde ou financeiros e ambientes estressores, podem minar o desejo erótico. 
Além disso, não parece verdade que uma frequência maior signifique um relacionamento melhor: uma pesquisa de 2015 da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, indica que, para casais heterossexuais de 35 a 65 anos, o esforço em aumentar o volume de sexo não implicou em melhores níveis de percepção de felicidade das pessoas envolvidas. 

E um tempo de duração da transa mais dilatado, aparentemente, está longe de ser o mais desejado pela maioria das pessoas. Pelo menos é isso que se pode inferir a partir de um estudo realizado pela Universidade de New Brunswick, no Canadá. Ouvindo 152 casais com idades de 21 a 77 anos, os pesquisadores concluíram que a duração média de uma relação sexual é de cinco a dez minutos e que, para a maioria dos entrevistados, a atividade sexual passa a ser considerada indesejável quando excede 20 minutos de duração. 

Enylda observa que estudos como os citados nesta reportagem podem ajudar as pessoas a se libertarem de expectativas fantasiosas sobre o sexo. Contudo, é importante lembrar que o desejo é sempre individualizado. Daí a importância de se ater menos aos números. “A medida certa para uma boa transa passa por perceber como está o relacionamento. O que o casal tem feito? Existem momentos prazerosos juntos? O que um tem feito para seduzir o outro e ser seduzido por ele? A partir de alguns questionamentos, que podemos fazer para nós mesmos, vamos melhor avaliar a nossa própria vida sexual”, aconselha.