Vittorio Medioli

São Lourenço

Publicado em: Dom, 09/08/20 - 03h00
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No começo da década de 50, a Itália ainda se recuperava da destruição da Segunda Guerra Mundial. Nasci em maio de 1951, e os primeiros eventos de que me lembro são do início do inverno de 1953. Tenho vívida memória da primeira neve que deixou branco o jardim, do gélido inverno em que dormia entre meu pai e minha mãe, em lençóis de linho e cobertores de lã. Depois disso, lembro-me de minha mãe grávida, que vi caindo das escadas numa tarde ensolarada do verão de 1954, dos banhos que tomava num tonel de água quente colocado na mesa da enorme cozinha. 

Em seguida, no final de 1954, a mudança do sítio para um apartamento em Parma. Daí em diante, a memória tem pouco vazio. Continua lúcida e marcada pelo nascimento de meu irmão na noite de Santa Lucia, que tradicionalmente é festejada com presentes às crianças na cidade. A lenda dizia que a santa deixava na janela do quarto da criança, na madrugada, um presente. 

Naquele dezembro de 1954, passei a noite na casa do meu avô, na cama com minhas tias Lucilla e Laura, que me levaram de tarde para ver o “presente” da santa: um irmãozinho, terceiro homem, “decepcionando” meu pai, que sonhava com uma menina. 

Depois do ano de 1954, a época de verão e férias escolares, de junho a setembro, transcorríamos invariavelmente no sítio. Pode soar supérfluo dizer “saudade daqueles tempos”, mas esta ainda hoje é saudade que me enche os olhos, que me leva ao meu pai, a um mundo que não tinha problemas, em que os adultos eram considerados perfeitos. Não existiam a televisão, o computador, havia carros ainda com partida a manivela. 

Meu pai lia contos depois do jantar, os meninos o seguiam admirados. E gostavam quando ele fechava o livro e contava as suas aventuras nos bastidores da Segunda Guerra Mundial, obviamente poupando as tristezas, e sempre dizia que precisávamos ficar preparados para uma terceira guerra. Era justificável essa previsão para quem, nascido em 1908, não acreditava que as “grandes guerras” findariam em 1945. 

A cada verão, nas noites da primeira quinzena de agosto, quando o tórrido calor assolava a Itália, era regra nos sentarmos no lado nordeste da casa, o melhor para ver a estrela polar e algumas constelações. Justamente por essa banda do céu a terra entra, a cada ano, no meio de um “pó de estrelas”, pequenos meteoros que, atingindo a atmosfera, se incineram, riscando com luzes coloridas a tela escura daquele cinema paraíso sem molduras. 

Amanhã, dia 10 de agosto, noite de São Lourenço, será o ápice do fenômeno.   

Meu pai gostava de poesias, como a maioria das pessoas de uma época desprovida de smartphone, internet e telas mostrando de tudo. Sobrava tempo para leituras e para declamar poemas, era tão contagiante como assistir a um seriado da Netflix, ou mais, com direito a nó na garganta e lágrimas das mulheres. 

Invariavelmente, naquela noite aguardada, ele declamava de cor a poesia de Giovanni Pascoli “10 de Agosto”, dia de São Lourenço. O poema foi composto pelo autor em lembrança do próprio pai, atingido num atentado quando voltava, ao entardecer, para sua casa. 

Soava assim: São Lourenço é: eu sei, porque um tanto/ de estrelas na noite tranquila/ brilha e cai e porque um grande pranto/ no côncavo do céu cintila./ Voltava a andorinha ao seu teto,/ mataram-na, caiu entre espinhos,/ levava no bico um inseto,/ a ceia de seus filhotinhos./ Lá, como em cruz, a mostrar o alimento a um céu silencioso;/ e no ninho, sombrio um piar,/ sempre e sempre menos queixoso./ Volta ao ninho um homem, também:/ mataram-no: Perdoo, falou,/ o olho aberto, um grito retém,/ e nas mãos um presente apertou.../ Duas bonecas para a casa trazia,/ a casa que espera em vão:/ ele, atônito, imóvel, confia as bonecas ao céu, à amplidão./ E você, céu, no mundo infinito, lá no alto, eterno, imortal,/ chove um pranto de estrelas, aflito,/ neste átomo opaco do mal! 

Passaram-se sete décadas, e a noite de São Lourenço terá outro espetáculo amanhã no Hemisfério Norte, desta vez para chorar a ausência de pais, parentes e amigos do mundo inteiro que a pandemia levou. E nesse “átomo opaco do mal” precisamos parar de explorar politicamente o que fugiu do controle, provavelmente por ser inevitável.

Meu pai passou pela pandemia da gripe espanhola, de 1918 a 1920, que matou na Itália 400 mil pessoas, 1.100/100 mil (a Covid-19 deixou, em 2020, 58/100 mil), e pelo surto da febre tifoide de 1917, com óbitos de 175/100 mil. Este levou sua irmã Vittorina, de 17 anos, da qual herdei, in memoriam, o nome.

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