Brasileiro morto em Israel, Ranani enfrentou terroristas, devolvendo granadas

 
Leo Costa

Leo Costa

Redator do Jornal O Tempo

GUERRA NO ORIENTE MÉDIO

Brasileiro morto em Israel, Ranani enfrentou terroristas, devolvendo granadas

Um dos brasileiros que estavam na festa rave atacada pelo Hamas, Ranani Nidejelski Glazer morreu lutando

Por Leo Costa
Publicado em 05 de dezembro de 2023 | 13:49
 
 
 

Um dos brasileiros que estavam na festa rave atacada pelo Hamas em Israel no sábado, Ranani Nidejelski Glazer, 24 de anos, morreu como um herói, lutando. Ele chegou a enfrentar terroristas. Fez o possível para proteger as demais pessoas que estavam no bunker com ele, que virou alvo do grupo armado. Devolveu granadas lançadas. Mas, atingido, não resistiu. É o primeiro brasileiro oficialmente morto no conflito no Oriente Médio. Duas cariocas que estavam no mesmo evento estavam desaparecidas até a manhã desta terça-feira (10).   

Em entrevistas e publicações nas redes sociais, amigos de Ranani contaram detalhes dos últimos momentos dele vivo. Entre elas, Rafaela Treistman sua namorada. Eles estavam juntos no festival de música eletrônica. O casal e um amigo, Rafael Zimerman, buscaram abrigo juntos no bunker, depois bombardeado pelo Hamas. Rafael publicou uma mensagem no Instagram, na manhã desta terça, após a confirmação da morte de Ranani.

“Meu anjo, eu te agradeço tanto pelo carinho, por me fazer sentir feliz, por cuidar de mim, por me proteger, até quando estávamos prestes a morrer você não falhou em me acolher, em me acalmar. Eu devo a você a minha vida, você salvou a minha. Se tem um herói nessa história toda, esse herói é você meu amor”, diz trecho do post.

Em entrevista ao Jornal Nacional, Rafaela contou que situação ficou tão desesperadora, que teve que se fingir de morto para continuar vivo. “Eu lembro do Ranani me falando para eu não olhar, porque tinham pessoas mortas em cima da gente e que estávamos usando o corpo delas para não tomarmos tiros”, relatou.

Ranani chegou a fazer um vídeo, também no Instagram, dentro do bunker, antes da entrada de terroristas. O vídeo mostra a fumaça e é possível ouvir o som dos foguetes. 

“Cara, eu juro que essa situação não tem como inventar. No meio da rave, a gente parou num bunker, começou uma guerra em Israel, pelo menos a gente tá num bunker agora, seguro. Vamos esperar dar uma baixada nisso, mas, cara, foi cena de filme agora, gente correndo, quilômetros, para achar um lugar pra se esconder, velho”, narrou.

No momento em que as militares israelenses chegaram ao bunker, no entanto, Glazer havia desaparecido. Rafaela Treistman e Rafel Zimerman foram resgatados Desacordado e ferido por estilhaços de granada, Zimerman foi hospitalizado e teve alta no último domingo. Já em na casa onde mora com amigos em Herzylia, próximo a Tel Aviv, ele contou em entrevista o que passou no bunker.

“O bunker em que nos escondemos foi metralhado por integrantes do Hamas e depois jogaram gás para todo mundo morrer asfixiado, e foi quando comecei a pedir a Deus para sobreviver. Eu me senti em Auschwitz (mais conhecido campo de concentração construído pelos nazista para exterminar judeus e outros povos). Eu só me senti seguro quando cheguei no hospital.”

Ranani Glazer era brasileiro-israelense. Nascido em Porto Alegre (RS), ele morava em Israel havia sete anos. Seu corpo foi encontrado na segunda-feira (9). Militares israelense foram à casa do pai dele, que mora em Tel Aviv – a mãe do jovem mora em Porto Alegre –, e comunicaram a morte do filho. O Ministérios das Relações Exteriores do Brasil confirmou a informação na manhã desta terça. Até a mais recente atualização desta reportagem, não havia mais detalhes.

Com cidadania israelense, Ranani prestou serviço militar em Israel. Vivia em Tel Aviv com amigos e trabalhava como entregador. Ele era amigo íntimo de Rafael Zimerman, o brasileiro ferido pelo Hamas. Eles costumavam ir a festas de música eletrônica juntos. “Fácil me encontrar numa rave”, escreveu Ranani, em inglês, com uma foto tirada em Israel enquanto dançava com a bandeira do Brasil nos ombros, em post de abril.

O evento em que estavam os brasileiros no sábado era uma edição local do Universo Paralello, criado em Goiás pela família do mundialmente famoso DJ Alok e realizado anualmente em uma praia da Bahia. O pai dele, Juarez Petrillo, estava no local. Com o nome artístico de  DJ Swarup, havia sido contratado para se apresentar – o festival foi organizado por uma empresa isralense, que pagou para usar o nome e o modelo do festival brasileiro.

Duas brasileiras que estavam no mesmo festival de música eletrônica continuavam desaparecidas até a manhã desta terça-feira. Elas são as cariocas Bruna Valeanu, 24 anos, e Karla Stelzer, 41.

Em entrevistas, amigos de Bruna e Karla contaram que elas mandaram mensagens por aplicativo para parentes e amigos, na manhã de sábado (horário local). No entanto, depois que as notícias do ataque à rave se espalharam elas não enviaram nem responderam mensagens nem telefonemas.

Familiares dos três brasileiros foram orientados por autoridades israelenses a se dirigirem a alguma delegacia de polícia do país para colher amostras de DNA, por causa da quantidade de vítimas encontradas na área da festa. 

Autoridades do governo isralense foram informadas no domingo que haviam sido localizados cerca de 260 corpos na área do festival de música eletrônica, no distrito sul do país. Até a manhã desta terça-feira não haviam sido identificadas todas as vítimas. Também era incerta a quantidade de desaparecidos.

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