política

Argentina inicia campanha presidencial com incerteza econômica

Javier Milei, da extrema direita, sacudiu o tabuleiro político ao se tornar o candidato mais votado das primárias de domingo

Por Agências
Publicado em 14 de agosto de 2023 | 18:17
 
 
 

A Argentina iniciou, nesta segunda-feira (14), a campanha para as eleições presidenciais de outubro, em meio à incerteza econômica, com uma desvalorização de sua moeda, o peso, e dúvidas sobre o acordo com o FMI, após o avanço contundente nas primárias do candidato ultraliberal antissistema Javier Milei.

Milei, um economista de 52 anos, da extrema direita, sacudiu o tabuleiro político ao se tornar o candidato mais votado das primárias de domingo, sua primeira eleição nacional, com 30% dos votos.

Com o resultado, ele se posicionou um pouco à frente das coalizões tradicionais: a da oposição de direita Juntos por el Cambio (Juntos pela Mudança, com 28,3%), pela qual a ex-ministra da Segurança Patricia Bullrich será candidata, e a do peronismo governista Unión por la Patria (União pela Pátria, com 27,3%), que terá como candidato o ministro da Economia, Sergio Massa.

Com o panorama eleitoral dividido em proporções antagônicas, mas de pesos quase equivalentes, também abriu-se a via da incerteza política. "Conseguimos construir esta alternativa competitiva, que porá fim à casta política parasitária, ladra, inútil", disse Milei, em seu discurso da vitória, na noite de domingo, "Estamos em condições de vencer a casta no primeiro turno", em 22 de outubro, assegurou.

Entre as principais propostas de Milei estão eliminar o Banco Central e dolarizar a economia. Ele também quer voltar a proibir o aborto e autorizar o porte livre de armas.

"Uma pessoa que ganhou quebrando tantas regras pré-estabelecidas é alguém que pode não ter um teto fácil. A Juntos por el Cambio tem algum teto, mas claramente mais possibilidades que o governo. O governo é, definitivamente, o ator mais complicado", afirmou à AFP o consultor político Carlos Fara.

Desvalorização

Nesta segunda, em uma primeira reação, o Banco Central desvalorizou o peso em cerca de 20% e elevou em 21 pontos percentuais a taxa básica de juros a 118% ao ano.

Em um comunicado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aplaudiu as medidas e anunciou que sua direção se reunirá em 23 de agosto "para aprovar os pagamentos acordados" com a Argentina.

"Valorizamos as ações de políticas recentes das autoridades e o compromisso de salvaguardar a estabilidade, reconstruir as reservas e fortalecer a ordem fiscal", acrescentou o FMI.

A Argentina tem um acordo com o FMI, assinado em 2018, de 44 bilhões de dólares (cerca de R$ 155 bilhões, em cotação da época). O pacto foi assinado pelo ex-presidente Mauricio Macri e renegociado em 2022 pelo presidente Alberto Fernández.

No fim de julho, o FMI acordou a flexibilização da meta de acúmulo de reservas internacionais da Argentina, uma decisão que precisa da aprovação da direção do Fundo, e da qual depende para que o país receba 7,5 bilhões de dólares (R$ 37 bilhões, na cotação atual).

Mas "com estes resultados, surge uma interrogação, não pelas condições técnicas do acordo ou porque o Fundo Monetário não queira ajudar a Argentina no curto prazo, mas devido ao fato de que o ministro da Economia, que é quem tem que aplicar as regras, ficou em terceiro na eleição", comentou Fara.

Choque e incertezas

Na Argentina, vigora desde 2019 um sistema de controle de divisas e várias taxas de câmbio funcionam em paralelo à oficial.

"A derrubada do peso vai pressionar ainda mais o índice inflacionário", advertiu, nesta segunda, a consultoria Capital Economics, que a projeta em 130% ou 140% ao ano, contra o atual 115%.

"Cada vez será mais difícil considerar que a dívida argentina é sustentável", apontou a Capital Economics em sua análise, na qual também alertou para uma recessão iminente que "tornará mais complicado ainda o trabalho do próximo presidente".

Como efeito imediato da desvalorização, vendas foram suspensas por medo de uma escalada dos preços.

"Meus fornecedores suspenderam as vendas online. Nesta segunda, não entregaram as listas de preços que já tinham reajustado em 15% na semana passada", disse à AFP Marcela Monteagudo, dona de uma loja de equipamentos para academias em Buenos Aires.

"Quase não tenho mais o que vender e agora também não sei a que preço vender o pouco que tenho. Estou avaliando fechar por uma semana. Prefiro isso a perder clientes. A incerteza é total", afirmou.

(AFP)

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