Invasão russa

Guerra Rússia X Ucrânia já dura 1 ano; relembre fatos e veja números do conflito

Em 24 de fevereiro de 2022, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou uma operação militar especial para defender as repúblicas separatistas da Ucrânia

Por O Tempo
Publicado em 24 de fevereiro de 2023 | 05:55
 
 
 

A invasão russa da Ucrânia deixou milhares de mortos e teve repercussões em todo o mundo desde o seu início, há exatamente um ano. Em 24 de fevereiro de 2022, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou uma "operação militar especial" para defender as "repúblicas" separatistas pró-russas de Lugansk (Luhansk, na grafia ucraniana) e Donetsk, no leste da Ucrânia, após ter reconhecido suas independências.

Putin reivindicava a "desnazificação" do governo ucraniano e garantias de que o país não entraria na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Após a invasão, a União Europeia (UE) anunciou o envio de armas à Ucrânia e os países ocidentais começaram a aplicar sanções econômicas cada vez mais duras contra a Rússia. Em 3 de março, os russos se apoderaram de uma grande cidade, Kherson (sul).

Leia o que aconteceu, em linha do tempo, após a ofensiva russa em território ucraniano:  

Resistência em Kiev e horror em Butcha

O Exército russo tenta cercar Kiev, a capital, mas se depara com uma resistência feroz. Moscou concentra, então, sua ofensiva no sul e na bacia do Donbass, sob o controle parcial dos separatistas pró-russos desde 2014. Após a retirada dos russos da região de Kiev, dezenas de corpos de civis são encontrados em Butcha e outras localidades próximas. O Tribunal Penal Internacional (TPI) abre uma investigação.

Desde o início da ofensiva, o Exército russo sitiou Mariupol (sudeste), um porto estratégico às margens do Mar de Azov.  Cerca de 2.500 combatentes ucranianos, entrincheirados na siderúrgica Azovstal juntamente com mil civis, resistiram até meados de maio de 2022. Segundo as autoridades ucranianas, a batalha destruiu 90% da cidade e deixou 20.000 mortos. Em maio, Suécia e Finlândia, temendo ser futuros alvos de ataques russos, apresentam suas candidaturas de adesão à Otan.

Bloqueio de grãos e guerra do gás

Em 22 de julho, Rússia e Ucrânia selam um acordo para retomar a exportação de cereais na tentativa de atenuar a crise alimentar mundial causada pelo bloqueio de toneladas de grãos nos portos ucranianos. As exportações de gás russo para a Europa diminuem. Os países ocidentais acusam a Rússia de usar o fornecimento de energia como "arma" em resposta às sanções.

Contraofensiva ucraniana

No começo de julho de 2022, tropas russas tentam conquistar Bakhmut, na região de Donetsk, com o apoio do Grupo Wagner.  No início de setembro, as forças ucranianas lançam um ataque surpresa à região de Kharkiv e anunciam a retomada de localidades de grande importância logística, como Izium, Kupiansk e Lyman (leste).

Ameaça nuclear

Desde o início de agosto, os dois lados do conflito se acusam mutuamente de bombardear a usina nuclear de Zaporizhzhia (sul), a maior da Europa, ocupada pelos russos desde março. Em setembro, Putin ameaça usar armas nucleares para defender a Rússia do Ocidente, ao qual acusa de querer "destruir" seu país.

Mobilização parcial e anexações

Em 21 de setembro, Putin anuncia uma "mobilização parcial" dos russos em idade de combate (300.000 reservistas convocados), desencadeando a fuga de milhares de homens para o exterior. Em 30 de setembro, ratifica a anexação à Rússia de quatro províncias (oblast) ucranianas - Luhansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia - que haviam organizado "referendos" classificados de "simulacro" por Kiev e os países ocidentais.

Em 8 de outubro, é registrada uma explosão na ponte que liga a Crimeia à Rússia, que causa danos importantes. Putin acusa os serviços secretos ucranianos.

Bombardeios provocam apagões maciços

Em represália, as forças russas lançam bombardeios maciços em 10 de outubro contra cidades em toda a Ucrânia, inclusive Kiev.  Os ataques visam, sobretudo, a infraestrutura energética e deixam milhões de pessoas sem eletricidade.

Retirada de Kherson

Em 11 de novembro, as tropas russas se retiram da cidade de Kherson diante do avanço das forças ucranianas.

Conquista de Soledar

Em 13 de janeiro deste ano, Moscou reivindica a conquista de Soledar, cidade próxima a Bakhmut, que a Rússia tenta controlar há meses. Nesta quarta, 25 de janeiro, Kiev finalmente admite ter se retirado da cidade após "meses de combates difíceis".

Tanques pesados

Também em 25 de janeiro, o chefe de governo da Alemanha, Olaf Scholz, autoriza o envio de tanques de combate Leopard à Ucrânia, que Kiev reivindicava insistentemente para se defender melhor da invasão russa.  Moscou qualifica a decisão de "extremamente perigosa" e afirma que "levará o conflito a um novo nível de confrontação".

O presidente americano, Joe Biden, anuncia, por sua vez, o envio de 31 tanques Abrams "para ajudar a Ucrânia a defender sua soberania". O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, afirma que os anúncios de Alemanha e Estados Unidos representam um "passo importante" para a vitória militar da Ucrânia.

Biden desafia Putin com visita surpresa a Kiev

Em demonstração de apoio explícito à Ucrânia e de desafio direto a Vladimir Putin, o presidente americano, Joe Biden, fez no dia 20 de fevereiro uma viagem surpresa a Kiev às portas do aniversário do primeiro ano da invasão russa do vizinho. Biden chegou à capital ucraniana no começo da manhã, após o que pode ter sido uma hora de viagem de trem desde a fronteira da Polônia, país que visitará oficialmente por dois dias a partir da terça (21), quando o presidente russo fará um discurso sobre a guerra na Assembleia Federal, o Congresso em Moscou.

O americano encontrou-se com o presidente Volodimir Zelenski, na visita de mais alto calibre diplomático até aqui no conflito, que completa um ano na sexta (24). Antes, líderes como o premiê britânico, Rishi Sunak, e a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, estiveram em Kiev.

Putin critica EUA e suspende controle de armas nucleares

Em um aguardado discurso sobre o aniversário de primeiro ano da Guerra da Ucrânia, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, levou o foco do conflito para o embate para o Ocidente, sacando novamente a carta nuclear contra os EUA e seus aliados. Ele anunciou a suspensão da participação de seu país no último acordo de controle de mísseis estratégicos vigente, o Novo Start, que já cambaleava desde que a guerra começou pela falta de inspeções mútuas de instalações com armas nucleares dos EUA e da Rússia.

Putin disse que "a Rússia não irá atacar primeiro", mas que está pronta para reagir e que a "situação pode sair de controle". A decisão foi uma resposta à visita de Joe Binden à Ucrânia dias antes.

Um balanço impressionante de um ano de guerra na Ucrânia

Um ano após o início da invasão russa da Ucrânia, o balanço é devastador: dezenas de milhares de mortos, milhões de refugiados e deslocados internos, cidades bombardeadas, uma economia em colapso. Confira:

Baixas militares

Quase 180.000 soldados russos mortos ou feridos e quase 100.000 militares ucranianos: este é o balanço, segundo a Noruega, da guerra para os dois exércitos. Outras fontes ocidentais citam 150.000 baixas de cada lado. Em comparação, durante a guerra do Afeganistão (1979-1989), a então União Soviética perdeu 15.000 soldados.

O lado ucraniano utiliza com frequência os termos "bucha de canhão" e "carnificina" para definir a estratégia russa: recrutas mal treinados enviados para a morte quase certa.

Milhares de prisioneiros russos também se uniram ao grupo paramilitar Wagner, forçados por seus companheiros de armas a seguir adiante, mesmo diante de alvos impossíveis, de acordo com Kiev e seus aliados. Os incessantes ataques russos também provocam grandes perdas do lado ucraniano, como demonstram as muitas bandeiras com as cores azul e amarelo nos cemitérios.

Civis mortos

Na cidade portuária de Mariupol (sul), os cadáveres permaneceram nas ruas após três meses de bombardeios russos. Mais de 20.000 civis ucranianos faleceram até então, segundo Kiev. Entre 30.000 e 40.000 morreram em um ano de conflito, segundo fontes ocidentais.  No fim de janeiro, a ONU calculou em 18.000 o número de civis mortos e feridos, mas reconheceu que "os números reais são muito mais elevados". Entre os mortos, Kiev menciona "mais de 400 crianças". 

A maioria das vítimas morreu em bombardeios russos, de acordo com as Nações Unidas. As minas, menos mortais até o momento, podem ser mais letais a longo prazo. Quase 30% do território ucraniano está repleto de minas, afirma Kiev.  A ONG Human Rights Watch (HRW), no entanto, acusou a Ucrânia de espalhar minas terrestres pela região de Izium (leste). Especialistas afirmam que serão necessários vários anos para limpar o território.

Crimes de guerra

A guerra na Ucrânia ficará na memória coletiva pelas imagens duras: corpos de civis com as mãos amarradas às costas nas ruas de Bucha após a retirada russa, um bicho de pelúcia repleto de sangue na estação de Kramatorsk, uma maternidade bombardeada em Mariupol, entre outras. Quase 65.000 supostos crimes de guerra foram denunciados, segundo o comissário europeu de Justiça, Didier Reynders.

As tropas russas foram acusadas de execuções, estupros, torturas e sequestros de crianças - mais de 16.000 enviadas para a Rússia ou territórios sob seu controle, segundo Kiev. Em setembro, investigadores da ONU acusaram as forças russas de crimes de guerra "em larga escala".

A Ucrânia foi acusada de cometer crimes de guerra contra prisioneiros russos, mas sem comparação com a quantidade de fatos atribuídos a Moscou. O Tribunal Penal Internacional abriu em 2 de março de 2022 uma investigação por crimes de guerra e crimes contra a humanidade na Ucrânia.

1.500 km de linha de frente

O leste da Ucrânia recorda imagens da Primeira Guerra Mundial: soldados exaustos no fundo de trincheiras lamacentas, enormes crateras provocadas pelos projéteis, cenário apocalíptico em vilarejos e cidades... A linha de frente "ativa" alcança 1.500 quilômetros no eixo norte-sul no leste da Ucrânia, de acordo com o comandante do exército ucraniano, Valeri Zaluzhny.

Em Bakhmut, um dos principais pontos da guerra, uma batalha extremamente violenta envolve há meses o exército ucraniano, as forças russas e os mercenários do grupo paramilitar Wagner, que avançam lentamente. Milhares de civis ainda vivem nas cidades bombardeadas, escondidos em porões, sem água ou energia elétrica e dependentes da ajuda humanitária.

Na retaguarda, os bombardeios também atingem cidades como Kramatorsk. E nas áreas liberadas pela Ucrânia, assoladas pela destruição, ainda existe o risco de voltar a cair sob controle russo. As tropas de Moscou ocupam 18% da Ucrânia, mas, segundo o general Zaluzhny, Kiev retomou 40% dos territórios ocupados pela Rússia desde a invasão de 24 de fevereiro de 2022.

Uma economia em colapso

Edifícios no chão, fábricas paralisadas, infraestruturas destruídas: estas são algumas imagens no sul e leste da Ucrânia, onde se concentram os combates desde que Moscou fracassou na tentativa de tomar Kiev em abril. O custo econômico para a Ucrânia foi enorme: o PIB registrou contração de 35% em 2022, segundo o Banco Mundial.

A 'Kyiv School of Economics' calculou os danos em 138 bilhões de dólares e as perdas para a agricultura em mais de US$ 34 bilhões. Mais de 3.000 escolas foram afetadas, segundo o governo ucraniano. A Unesco contabiliza 239 centros culturais atingidos. Desde setembro, Moscou ataca sistematicamente as infraestruturas de energia. Em dezembro, quase metade das instalações estavam danificadas, o que deixou os ucranianos no escuro e frio.

Refugiados

De acordo com a ONU, os combates deixaram mais de cinco milhões de deslocados internos e obrigaram quase oito milhões de pessoas a abandonar a Ucrânia. A Polônia é um dos principais países de recepção, com mais de um milhão de pessoas. Os comandantes da ocupação russa afirmam que pelo menos cinco milhões de ucranianos seguiram para a Rússia. Kiev chama de "retiradas forçadas".

Ajuda militar ocidental

Em abril de 2022, colunas de veículos militares ucranianos do período soviético atravessavam o país em direção ao Donbass (leste). Os soldados ucranianos pediam na época armas ocidentais para contra-atacar os russos, um apelo que teve resposta.

O centro de pesquisas alemão 'Kiel Institute' calculou as promessas de ajuda militar a Kiev por parte de seus aliados em 40,4 bilhões de dólares. Os lança-foguetes americanos Himars, cujo alcance de 80 quilômetros é superior ao dos equipamentos russos, ajudaram a Ucrânia a registrar importantes avanços no outono (hemisfério norte, primavera no Brasil).

Em janeiro deste ano, o Ocidente decidiu fornecer tanques de combate a Kiev, rompendo o primeiro tabu. O envio de caças à Ucrânia pode ser o próximo passo. Alemanha e Estados Unidos foram alguns países que enviaram os armamentos.

 

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