Cannabis

Loja que vende maconha em Nova York está sempre com fila

A primeira loja oficial de maconha, no sul de Manhattan, foi aberta em 29 de dezembro e tem plano de venda online

Por Agências
Publicado em 07 de janeiro de 2023 | 18:36
 
 
 

Apesar de Nova York não ser a pioneira na legalização da venda de cannabis recreativa nos Estados Unidos, a inauguração da primeira loja especializada na substância na cidade seguiu o dilema filosófico: se uma árvore cai na floresta e ninguém nota, ela faz barulho?

Como a fila tem ocupado diariamente todo o quarteirão da Broadway, no sul de Manhattan, epicentro da atenção nacional e internacional, pode-se dizer que a venda de maconha faz uma barulheira desde o dia 29 de dezembro de 2022, quando foi inaugurada a Housing Works Cannabis Store.

Na tarde da quinta-feira (5) a longa aglomeração se destacava por outra característica não associada a nova-iorquinos nativos: estranhos puxavam conversas amistosas como se fossem conhecidos. 

Também não é comum uma fila voluntária, associada a recreação, reunir idosos e adolescentes – esses isolados do mundo por fones de ouvido.

A legislação e o licenciamento de produtores e comerciantes de derivados de cânabis compete individualmente a estados nos EUA. O prefeito Eric Adams, eleito em 2021 numa plataforma de combate ao crime, tornou-se defensor vigoroso de um modelo de produção e comercialização que se caracterizasse por equidade. 

Afinal, no auge da chamada guerra às drogas, Nova York liderava o país em número de prisões e de punição desproporcional a negros e latinos de baixa renda.

Adams criou a agência municipal Cannabis NYC e convidou para a direção a veterana Dasheeda Dawson, autora especialista em marketing e varejo da erva. Ela antes supervisionou o programa de Portland, no Oregon.

Em entrevista por telefone à reportagem, Dawson explica por que a primeira loja autorizada em Manhattan é operada pela Housing Works, uma ONG fundada em 1994 por um grupo de militantes reunidos pela epidemia de Aids. 

A organização começou com foco no apoio a moradores em situação de rua que eram portadores do HIV e se tornou conhecida na cidade por operar lojas com estoques doados de artigos usados, entre elas uma livraria-café no bairro do Soho.

"A experiência em varejo fez da Housing Works um símbolo ideal para inaugurar o programa", diz Dawson, destacando também que a fundação recruta funcionários entre a população que atende, em muitos casos "tirando gente das ruas para ter um emprego decente".

Justiça social é fator na concessão de licenças no modelo nova-iorquino, explica a supervisora. "Queremos privilegiar e engajar indivíduos e famílias de condenados por porte de maconha, penalizadas desproporcionalmente por antigas práticas de policiamento."

A prefeitura estima que a nova indústria pode criar até 24 mil empregos e gerar vendas de US$ 1,3 bilhão (R$ 6,8 bilhões) na cidade cuja economia continua castigada pelo choque da pandemia de Covid, com mais da metade dos espaços comerciais vazios.

É preciso ter 21 anos para entrar na loja da Housing Works, no bairro do East Village. Um funcionário confere os documentos ainda na calçada antes de liberar grupos para formar uma segunda fila dentro da loja. Esta repórter esperou, entre os dois passos, quase uma hora e meia para comprar Pillow Talk (conversa de travesseiro), um pacote de 100 gramas de balas jujuba com sabor de blueberries e lavanda, por US$ 35 (R$ 185).

Por enquanto, a loja só aceita dinheiro vivo e não faz entregas. Dawson diz que a viabilização de vendas online para entrega é uma prioridade necessária para acomodar os hábitos de nova-iorquinos.

Na fila da calçada, Angela Hopkins e Siki Bucci não são velhas amigas, mas marcaram um programa em torno da ida à loja. A primeira, uma executiva residente do Harlem, se diz satisfeita em gastar dinheiro que possa beneficiar "a garotada que mora perto de casa e passou pela prisão". Menos interessada em recreação, ela procura produtos tópicos, como bálsamos, já que é sobrevivente de um câncer de mama.

Já a exuberante expatriada finlandesa Bucci, que se declara prematuramente aposentada, abre a bolsa para mostrar que, além de consumidora experiente, "gosta de tudo": comestíveis, jujubas, chocolates, cigarros e vaping (cigarro eletrônico). Questionada sobre a lista de possíveis interesses –recreativo? Medicinal? Relaxante?– ela não pensa duas vezes: "Meu negócio é ficar 'chapada' ['high'], gosto de estar sob a influência de cânabis para pensar criativamente". (Lúcia Guimarães/Folhapress)

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