Visão

‘Nossa catástrofe é muito grande’, diz líder palestino no Brasil

Em entrevista para O Tempo, o presidente da Federação Árabe Palestina no Brasil (Fepal), Ualid Rabah, fala sobre sua visão do conflito entre Israel e Hamas

Por Raíssa Pedrosa
Publicado em 20 de outubro de 2023 | 06:00
 
 
 
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Desde o início deste mês de outubro, os olhos do mundo estão voltados para o conflito entre Israel e Hamas, que já matou milhares de israelenses e palestinos no Oriente Médio. Do Brasil, descendentes desses povos acompanham, aflitos, o desenrolar da história. Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina no Brasil (Fepal), é uma dessas pessoas. Ele conta que os palestinos que moram no Brasil e têm familiares em Gaza estão “arrasados”. “Um deles, um jovem que mora em São Paulo, teve perto de 40 pessoas da sua família exterminadas”, relata.

Em entrevista para O TEMPO, Ualid também fala sobre os excessos nos conflitos e a expectativa de que os possíveis crimes de guerra cometidos durante os bombardeios sejam convertidos em punição aos envolvidos. “Mais hora, menos hora, todos eles irão para o banco dos réus”, diz.

O representante palestino pontua ainda que o maior desejo dos palestinos é o fim das guerras. “Não há parte mais interessada em um processo de fim de hostilidades, fim de ocupação e dissolução pacífica na Palestina do que os palestinos”, afirma.

Veja a seguir a entrevista completa com Ualid Rabah, com edições para melhor compreensão:

Como o senhor tem acompanhado as notícias sobre a guerra? Como tem sido para você ver tudo que está acontecendo, emocionalmente falando. Como você enfrenta a chegada de notícias cada vez mais devastadoras, vamos dizer assim?

Qualquer um de nós, sendo militante ou dirigente, que é a situação que eu vivo, nesse caso como presidente da Fepal, em circunstância institucional, não perde a humanidade. Então você tem que raciocinar politicamente, você tem que ter frieza política, mas você não deixa de ser um ser humano, que vê a barbárie, que sente a barbaridade, e que, claro, tem uma avaliação de justiça e injustiça.

E, nesse caso específico, quando você vê o teu povo, de quem você descende, o povo a quem pertence teu pai, tua mãe e todos aqueles que há milhares de anos são teus ancestrais, sendo dizimados, o que você pensa? Nosso povo vai passar por um extermínio como passaram os armênios? Como passaram tantos outros povos? E como se tentou exterminar os ciganos na Europa, tentou se exterminar os deficientes físicos e mentais na Europa, e como se tentou exterminar os europeus de fé Judaica.

Eu quero deixar bem claro, eu nunca falo judeus, eu falo europeus de fé judaica. Porque isso aconteceu na Europa: crimes cometidos por europeus contra outros europeus que professavam sua fé religiosa, o judaísmo. A humanidade já tentou isso em outras épocas. E foram tentativas em solo, entre aspas, civilizado: a Europa. Por que isso não aconteceria de novo? 

A sensação que nós temos é de impotência diante do ocidente estar implicado neste genocídio. E quem é o ocidente? O ocidente é quem dizimou e tentou dizimar os ciganos. Foi o ocidente, não foi? Quem tentou dizimar os judeus da sua própria demografia professando o Judaísmo, os deficientes mentais e físicos, que arremessou as bombas atômicas contra o Japão, que exterminou os povos originários, os indígenas aqui neste continente. É com esta liderança ocidental que os palestinos estão lidando. As armas que nos matam são estadunidenses. Os sistemas que nos eliminam são estadunidenses. As munições são estadunidenses. A que destruiu o hospital é uma MK estadunidense, que tem o poder destrutivo avassalador.

Então você fica nesse temor. E como o projeto sionista para Palestina, desde quando foi desenhado no final de 1.800, previa uma Palestina sem palestinos, o Netanyahu apresentou um mapa na ONU com a Palestina sem a Palestina. Aprovaram uma lei em 2018, a lei do Estado Nacional Judeu, que diz que o direito à autodeterminação é exclusivamente dos judeus, já no primeiro princípio.

E apresentam um mapa na ONU sem a Palestina. O que é isso? Isso é o anúncio de uma solução final para a Palestina. Quem não sofre diante de uma catástrofe anunciada como essa? Então, é essa a sensação.

O senhor tem familiares vivendo hoje na Faixa de Gaza?

Não, porque a nossa família não é de Gaza, a nossa família é da Cisjordânia.

Aqui no Brasil, você tem tido contato com palestinos, com pessoas que têm família lá? Se sim, o que essas pessoas trazem de sentimento?

As poucas pessoas que eu conheço e que são originárias de Gaza estão arrasadas. Uma delas, um jovem que mora em São Paulo, teve perto de 40 pessoas da sua família exterminadas. Temos 47 famílias na Faixa de Gaza que, segundo as informações que a gente tem do Ministério da Saúde da Palestina, são 47 famílias que não existem mais. O DNA dessas 47 famílias foi exterminado.

Hoje a gente vê que há mais mortos em Gaza do que em Israel. Na sua visão, a contraofensiva de Israel é desproporcional?

Todas elas sempre foram desproporcionais e elas duram 76 anos. Israel nunca fez contraofensiva, Israel sempre fez ofensiva. O bloqueio à Gaza é uma ofensiva para impossibilitar a vida dessa população nesse território e amanhã ou depois sair dali. A ONU já relatou que a Faixa de Gaza é uma prisão a céu aberto. Outros relatórios internacionais dizem que a vida na Faixa de Gaza é análoga a um campo de concentração. Alia-se isso ao extermínio que está sendo executado desde 2008/2009. Este é o sexto extermínio. Nós temos o que é um campo de extermínio.

Só falta gaseificá-lo, implementar câmaras de gás ao redor e começar a colocar essa população nas câmaras de gás. Se o mundo não está vendo isso, é pouco provável que nós tenhamos salvação enquanto raça humana.

Eu gostaria que você definisse, em poucas palavras: para você, o que é o Hamas?

É nada mais do que uma componente do tecido social e político palestino, cujo problema que possa haver, em face de uma outra visão de mundo dentre os palestinos que seja majoritária ou minoritária, decorre da ocupação.

As forças de resistência na Palestina, com tais ou quais visões, são resultado da ocupação, são resultado do extermínio do povo palestino, da limpeza étnica e do regime de Apartheid. Tudo isso relatado por relatórios da ONU e pelas principais ONGs internacionais de direitos humanos.

Acaba a ocupação amanhã e acabam os problemas para palestinos e para israelenses. O que tem que acabar é a ocupação, tem que acabar o regime de Apartheid e têm que ser restabelecidos os direitos. Restabelecidos, esse é o termo que a gente usa, os direitos nacionais, civis e humanitários do povo palestino, incluindo o direito de retorno de todos aqueles que foram limpados e etnicamente entre dezembro 47 e 51.

Isso, quer dizer, haver justiça para o povo palestino, se não há justiça para o povo palestino, seguramente também não há condições de paz. Justiça para o povo palestino, paz na Palestina, paz para todos. Não é paz só para os palestinos, é paz para toda a região, inclusive.

Especialistas e estudiosos têm falado muito sobre crimes de guerra. Qual sua opinião sobre isso?

Mais hora, menos hora, todos eles irão para o banco dos réus. O Ariel Sharon iria, né? Mas morreu antes. E assim acreditamos que vai ser. Veja: o grande problema é o conjunto de instituições inauguradas a partir da Segunda Guerra, e que não conseguem mais resolver os problemas do mundo, pelo contrário, criam mais problemas.

Veja o Tribunal Penal Internacional (TPI). Nós acreditamos que o TPI tem um grande papel a desempenhar, e depositamos nossas esperanças no TPI para que ele investigue os crimes de guerra cometidos por Israel. Ele aceitou recentemente uma petição palestina para fazê-lo, para investigar o crime de Apartheid de perseguição ao povo palestino e crimes de guerra, entretanto, essas investigações não acontecem. E, da noite para o dia, há poucos meses, emitiu um mandato de prisão contra o presidente Putin. O que está esperando para emitir um mandado de prisão contra o Netanyahu e os demais carniceiros de Tel Aviv?

É um quadro muito ruim o que nós estamos vivendo. Os Estados Unidos acabaram de vetar a resolução apresentada pelo Brasil para dar tempo para o extermínio prosseguir. Ou seja, nem um cessar fogo os Estados Unidos permitem. Aliás, Israel vive de cessar em cessar fogo. Cada cessar fogo acontece após o cumprimento de objetivos genocidas de Israel. E tudo isso é garantido pelos Estados Unidos. Que segurança tem o mundo diante de um país como os Estados Unidos que não respeitam a vida, não respeitam os direitos humanos, não respeitam a soberania dos povos, não respeitam o direito internacional? Isso é um temor que todos nós devemos ter.

Para finalizar, diante de tudo que a gente discutiu aqui, eu queria que o senhor me dissesse como  enxerga o futuro desse conflito

A gente não tem bola de cristal, né? Mas, grosso modo, todos os problemas que a humanidade enfrentou, desde os mais graves aos que com menor potencial destrutivo, foram de alguma maneira resolvidos. Veja o Apartheid, foi superado na África do Sul. As ditaduras que vigoravam no mundo, especialmente neste continente, foram superadas e a democracia tem buscado andar. Os direitos dos povos originários estão sendo buscados e cada vez mais garantidos em vários lugares do mundo, especialmente no Brasil.

O racismo contra as populações negras, pretas e pardas também vem sendo superado. O colonialismo foi superado em todos os continentes, à exceção da Palestina, que ainda vive um processo colonial tardio. A Guerra do Vietnã foi superada, a guerra das Coreias foi superada. Países como Irã e Arábia Saudita, até outro dia inimigos capazes de pretender lançar armas nucleares uns contra os outros, selaram o entendimento, apertaram as mãos em Pequim, neste ano ainda.

Então eu acho que nós devemos sempre apostar que a humanidade é capaz de encontrar caminhos de solução dos seus problemas mais graves. E a gente acredita que isso vai acontecer para a Palestina também.     

É possível a paz? 

Nós, os palestinos, somos os mais interessados na pacificação da Palestina. Nós palestinos temos mais de 20 mortes para um israelense nesses tempos todos. Quer dizer, essa desproporção por si só diz o que acontece, mas nós fazemos questão de reafirmá-la para dizer: não há parte mais interessada em um processo de fim de hostilidades, fim de ocupação e dissolução pacífica na Palestina do que os palestinos.

Os escombros são palestinos, os cadáveres são palestinos, os mutilados são palestinos, as viúvas são palestinas, os órfãos são palestinos, os 6,2 milhões de refugiados são palestinos. Somos mais de 20% da população de refugiados no mundo, mesmo nós palestinos representando apenas 0,17% da população mundial. Então, veja, a nossa catástrofe é muito grande.

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