guerra de versões

Pentágono diz que bomba nuclear quebrada era uma maquete

Especialista em armas atômicas dinamarquês analisou imagem de artefato que estaria na Holanda

Por Agências
Publicado em 03 de abril de 2023 | 20:10
 
 
 
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Alguém deixou uma bomba nuclear dos EUA cair e quebrar em uma base na Holanda? O raro incidente foi sugerido nesta segunda (3) em relatório publicado por um dos maiores especialistas em armas atômicas do mundo, Hans Kristensen. Horas após a publicação, o Pentágono enfim deu sua versão: era um treinamento. Logo, a bomba era uma maquete. "Em toda unidade militar, temos um time de reação que treina junto, e era isso do que se tratava, e a foto foi colocada em um manual de recrutamento", disse o porta-voz Oscar Seára, sem elaborar onde e quando aquilo ocorreu.

O dinamarquês Kristensen é diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação dos Cientistas Americanos, referência na área. Ele abordou o episódio com cautela, como o título do relatório evidencia: "Houve um acidente com arma nuclear dos EUA numa base na Holanda?". Ele conta que um texto de 2022 do Laboratório de Los Alamos, centro americano de pesquisa nuclear, trazia a foto de uma bomba nuclear B61 sendo examinada, ou ao menos uma cópia exata do armamento.

Por meio de geolocalização, checando detalhes do ambiente com outras imagens do local, a foto teria sido feita no cofre nuclear da base aérea holandesa de Volkel, uma das seis em que os EUA guardam cerca de cem bombas atômicas na Europa - as outras ficam na Turquia, na Alemanha, na Bélgica e na Itália. "O pessoal na imagem também conta uma história", diz Kristensen, apontando para dois militares abaixados inspecionando a bomba que tinham nos ombros a insígnia EOD, a sigla inglesa para Disposição de Munição Explosiva, a seção da Força Aérea que trata de remoção de armamentos não explodidos.

Um outro militar segura papéis com o mesmo padrão aplicado a documentos secretos americanos, e um homem em trajes civis seria de um dos laboratórios que fabricam partes da bomba, Los Alamos e Sandia.

Kristensen deixou claro que levantava uma dúvida, e que a Força Aérea havia se recusado a se manifestar sobre o episódio. A imagem do que agora é descrito como um treinamento é bem clara acerca dos danos sofridos: a bomba entortou, teve estragos na sua parte posterior e uma das quatro aletas de estabilização está faltando.

A Força Aérea dos EUA não considera esse tipo de caso um acidente, classificando-o de "incidente de lança entortada". De todo modo, sem estar armada —e nenhuma bomba o é salvo se for para ser usada não há risco de ela explodir por cair.

A divulgação ocorre no momento em que especialistas como Kristensen consideram iminente a chegada de novas armas nucleares no continente, cortesia da tensão internacional na região devido à Guerra da Ucrânia.

Trata-se da B61-12, versão modernizada da B61, bomba nuclear tática desenhada para ser lançada de aviões pequenos, como o caça europeu Tornado ou o americano F-35. Já foram feitas mais de 3.000 delas, e a nova versão custa cerca de US$ 28 milhões (R$ 141 milhões). Ela tem potência variável, de 0,3 quilotons a 50 quilotons (3,3 vezes mais potente que a lançada no Japão pelos americanos). Armas táticas são aquelas empregadas em alvos militares pontuais, em oposição às estratégicas, que visam destruir grandes áreas.

Tem havido grande debate acerca da hipótese de Vladimir Putin usar uma arma tática na Ucrânia, e na semana passada o líder russo alarmou políticos e especialistas ao confirmar que colocará mísseis com essas ogivas na Belarus, ditadura aliada que faz fronteira com países da Otan, a aliança militar do Ocidente.

(Igor Gielow / Folhapress)

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