Eleições nos EUA

Trump sobe em pesquisas e pré-candidatos republicanos partem para cima dele

Em debate acalorado na quarta-feira (26), os outros seis postulantes republicanos à vaga do partido nas eleições de 2024 partiram para o ataque contra Trump


Publicado em 28 de setembro de 2023 | 09:33
 
 
 

Pressionados por uma liderança que se mostra cada vez mais intransponível de Donald Trump nas pesquisas de intenção de voto, os seis pré-candidatos republicanos à vaga do partido nas eleições do próximo ano partiram para o ataque contra o ex-presidente no segundo debate das primárias, realizado nesta quarta (27).

Se no primeiro confronto, no mês passado, os ex-governadores Chris Christie (Nova Jersey) e Asa Hutchinson (Arkansas) assumiram essa posição praticamente sozinhos, sofrendo inclusive vaias por isso, agora o governador da Flórida, Ron DeSantis, e a ex-embaixadora dos EUA nas Nações Unidas Nikki Haley também foram para cima do empresário –e, dessa vez, receberam aplausos.

Os quatro processos criminais em aberto contra Trump, no entanto, não foram citados nenhuma vez.
Em segundo lugar nas pesquisas, DeSantis vinha evitando atacar diretamente o ex-presidente porque busca justamente abocanhar parte de seu eleitorado. Nesta quarta, porém, ele começou a mudar a estratégia.

"Onde está Joe Biden? Ele está completamente ausente em termos de liderança, e você sabe quem mais está ausente? Donald Trump está ausente da ação. Ele deveria estar neste palco esta noite. Ele deve isso a vocês para defender o seu histórico, em que aumentou em US$ 7,8 trilhões à dívida [pública americana] e preparou o terreno para a inflação que temos agora", afirmou.

Com uma vantagem sobre o segundo colocado de 40 pontos percentuais, o empresário mais uma vez ignorou o debate do partido. Em vez disso, ele fez um comício em Michigan, um estado-chave para a eleição presidencial, onde metalúrgicos estão em greve. Na véspera, Biden participou de um piquete.

O governador da Flórida repetiu a crítica ao comentar uma fala recente de Trump, em que o ex-presidente afirmou que o veto implementado pelo estado a abortos após seis semanas de gravidez é "uma coisa terrível e um erro terrível".

Christie também criticou Trump por estar, mais uma vez, ausente do debate, afirmando que o empresário está escondido atrás dos muros de seus campos de golfe. Em seguida, em uma referência a suposta covardia do concorrente, o ex-governador de Nova Jersey disse que ele deveria ser chamado de "Donald Duck" –o substantivo "duck", em inglês, significa pato, e enquanto verbo pode ser traduzido como esquivar-se.

Ao final da noite, questionados sobre qual concorrente escolheriam para tirar das primárias, Christie foi o único que aceitou responder: Trump. Em um palco organizado na Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, na Califórnia, o tamanho do Estado foi um tema recorrente, subsídio para ataques tanto a Biden quanto a Trump, acusados de irresponsabilidade fiscal.

A política econômica de Biden, que ganhou o nome de Bidenomics, novamente embasou a primeira pergunta, costurada a um questionamento sobre a visita sem precedentes do presidente a um piquete grevista na última terça. Imigração e energia foram os outros temas em que o democrata foi mais atacado.

Mas a briga mais agressiva nesta noite foi mesmo entre os postulantes à vaga republicana. Em vários momentos os moderadores –dois da conservadora Fox Business e uma do canal em língua espanhola Univision– perderam o controle do embate. Houve mais confrontos diretos, e também mais agressivos, em que era impossível para o espectador entender quem falava o quê.

Como no mês passado, o empresário Vivek Ramaswamy esteve envolvido em boa parte das discussões, mas agora mais na posição de defesa do que de ataque. Destaque do primeiro debate, ele viu suas intenções de voto crescerem nas últimas semanas, mas também sua rejeição, atribuída à sua postura agressiva.

A mudança não passou despercebida pelos seus concorrentes. "Nós pensamos sobre o fato de Vivek ter falado [hoje] que somos todos boas pessoas, e eu aprecio isso, porque no último debate ele disse que todos nós estávamos comprados e pagos", afirmou o senador da Carolina do Sul Tim Scott.
Ao tentar uma abordagem mais simpática, no entanto, Ramaswamy não conseguiu obter o mesmo protagonismo do primeiro debate, e teve dificuldade para responder às críticas.

No trecho que deve ser o mais viralizável da noite, em meio a ataques ao empresário por ter entrado no aplicativo chinês TikTok, Haley disse a ele: "Honestamente, toda vez que eu te ouço, eu me sinto um pouco mais burra pelo que você diz".

O momento foi seguido de um intervalo comercial –com uma propaganda do TikTok. A ex-governadora da Carolina do Sul demonstrou mais uma vez uma boa performance nesta noite. Além do empresário, ela também conseguiu colocar contra a parede DeSantis por vetar fracking (método usado para retirar gás de xisto do solo) na Flórida, e responder Scott que a questionou por ter supostamente gasto uma fortuna em cortinas quando era embaixadora na ONU.

O ex-vice-presidente Mike Pence foi outro que questionou Ramaswamy por seus laços com a China, criticando-o por ter mantido negócios com o país quando era CEO da empresa de biotecnologia Roivant. Ramaswamy se defendeu, afirmando que saiu do país em 2018.

"Eu fico feliz que Vivek tenha saído de seu acordo de negócios com a China em 2018. Isso deve ter sido mais ou menos na mesma época em que você decidiu começar a votar em eleições presidenciais", retrucou Pence.

O empresário foi o único no palco que elogiou explicitamente Trump. Mais uma vez, foi ele quem mais encarnou o ex-presidente em posturas radicais, como classificar transição de gênero de distúrbio mental e defender que filhos de imigrantes ilegais nascidos nos EUA não devem ser reconhecidos como cidadãos do país.

Ele ainda afirmou que a "Ucrânia não é boa" ao opinar sobre por que defende que os EUA cessem a ajuda ao país, em guerra com a Rússia. DeSantis, por sua vez, teve uma postura mais clara sobre o tema dessa vez, reconhecendo que o embate é importante para a estratégia geopolítica americana, mas com a ressalva de que não daria um "cheque em branco" ao país aliado.

Em relação à política imigratória, os republicanos estavam mais alinhados, repetindo a promessa de "fechar a fronteira" ao sul do país, incrementar o contingente de patrulheiros e incluir militares, além de enviar forças ao México para combater os cartéis de drogas.

O debate desta noite deve ser o último do qual o governador da Dakota do Norte, Doug Burgum, consegue participar. Ciente disso, ele interrompeu os outros candidatos e desrespeitou as regras diversas vezes, mas nada disso deve ser suficiente para que ele atenda os critérios para participar do próximo encontro, em novembro.

Segundo dados mais recentes do agregador de pesquisas do FiveThirtyEight, Trump tem 54% das intenções de voto nas primárias republicanas, seguido por DeSantis (13,8%), Haley e Ramaswamy (ambos com 6,3%), Pence (4,6%), Christie (2,9%), Scott (2,7%) e Burgum (0,9%).


VEJA QUEM PARTICIPOU DO DEBATE DESTA QUARTA (27)

  • RON DESANTIS: Em segundo lugar na preferência de eleitores republicanos, o governador da Flórida é o principal adversário de Trump na disputa. Alvo de ataques do ex-presidente, tem visto a candidatura minguar à medida que correligionários aglutinam apoio ao rival e diante de uma série de gafes na campanha. DeSantis dobra a aposta no radicalismo de Trump nas pautas das chamadas "guerras culturais", como seu ataque ao que chama de "ideologia woke" ao assinar leis contra o ensino de diversidade sexual e questões raciais ou ao reduzir o limite legal para o acesso ao aborto para seis semanas de gestação. É considerado uma espécie de Trump mais jovem, sem as pendências na Justiça e resistência do corpo político —mas também sem o mesmo carisma.
  • VIVEK RAMASWAMY: Sem experiência política, o investidor e ex-CEO de uma empresa de biotecnologia ganhou notoriedade ao criticar ações de diversidade de empresas, bem como políticas ESG, que orientam negócios a partir de princípios ambientais e sociais. Foi o grande destaque do primeiro debate, encarnando Trump em posturas radicais e no apelo midiático.
  • NIKKI HALEY: Ex-governadora da Carolina do Sul (2011-2017), foi embaixadora dos EUA na ONU (2017-2018) durante o governo Trump. Por ser mulher e filha de indianos, representa diversidade no partido. Tentou se contrapor a DeSantis ao afirmar que a Carolina do Sul estaria aberta a receber os parques da Disney após o governador da Flórida retirar isenções de impostos e de regulação benéfica que a empresa tem no estado.
  • MIKE PENCE: Vice-presidente durante o governo Donald Trump, foi chamado de traidor por apoiadores do ex-líder americano ao não apoiar a tentativa de reverter o resultado da eleição de 2020, vencidas por Joe Biden. Apesar disso, tem certo apoio entre a base conservadora mais religiosa. Pence foi deputado por Indiana de 2001 a 2013 e governador do mesmo estado de 2013 a 2017.
  • TIM SCOTT: Senador pela Carolina do Sul desde 2013, é considerado uma estrela em ascensão dentro do Partido Republicano, e por isso tem apoio de colegas importantes na legenda. Negro, opôs-se a Donald Trump em questões relacionadas ao racismo e cobrou em mais de uma ocasião o ex-presidente por minimizar movimentos supremacistas brancos.
  • CHRIS CHRISTIE: O ex-governador de Nova Jersey (2010-2018) tenta ganhar a nomeação do Partido Republicano pela segunda vez —na primeira, para as eleições de 2016, não conseguiu apoio suficiente, abandonou a candidatura e apoiou Trump. Christie, que já era cotado pelo partido para o pleito presidencial de 2012, passou de um apoiador de primeira hora do empresário para um ex-aliado.
  • DOUG BURGUM: Governador de Dakota do Norte eleito pela primeira vez em 2016 e reeleito em 2020, fez carreira como empresário do setor de informática. Praticamente "comprou" sua presença nos debates, ao oferecer um cartão-presente em troca de doações para chegar ao número mínimo exigido pelo partido.

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