Saulo Penaforte é jornalista
Em 2025 o concurso Comida di Buteco completa 25 anos. Um marco da resistência da comida raiz, dos sabores que atravessam gerações e das receitas que nascem em cozinhas apertadas, onde o fogo é baixo, mas a alma é alta. E Minas sabe bem disso.
Criado em Belo Horizonte no ano 2000, o concurso surgiu para valorizar os botecos e suas cozinhas afetivas – aquelas que não cabem em manuais gastronômicos, mas se transmitem no olho, no cheiro, no ponto certo da panela. De lá para cá, o evento se espalhou por mais de 50 cidades brasileiras e se transformou em uma das maiores vitrines da culinária popular do país. Mas sua alma segue a mesma: reconhecer o saber fazer de quem cozinha com história.
O boteco mineiro é mais que um espaço de refeições. É um território de encontro, afeto e pertencimento. Ali, a gastronomia não é sobre sofisticação, mas sobre verdade. Angu, fígado acebolado, feijão tropeiro, torresmo. Comida feita com saber popular e sabor de memória.
O Comida di Buteco tem o mérito de dar visibilidade a esses pratos e, sobretudo, às pessoas por trás deles. Pequenos empreendedores familiares que mantêm vivas tradições culinárias herdadas de pais, avós, tios e vizinhos. Cozinhas onde o improviso se transforma em patrimônio afetivo.
Ao valorizar esses saberes, o concurso convida a sociedade a olhar com mais atenção para a importância simbólica, econômica e cultural desses fazeres. Cada boteco participante é, na prática, um centro de cultura viva, onde se encontram tradição, criatividade e resistência.
Os impactos vão além do prato. O concurso movimenta a economia local, atrai turistas, gera empregos e fortalece a autoestima de quem faz da cozinha o seu ofício. São milhares de histórias que se cruzam à beira do fogão, transformando o cotidiano em experiência coletiva e laço social.
Mais do que petiscos, o Comida di Buteco celebra um Brasil profundo, popular, saboroso. Um Brasil que se senta à mesa para dividir histórias. E que encontra, no prato simples do boteco, um espelho de sua identidade.
Não à toa, a culinária mineira vem ganhando cada vez mais destaque em listas internacionais. Mas o verdadeiro reconhecimento está no cotidiano: no balcão do bar da esquina, no cheiro de alho e cebola refogados, na fidelidade do cliente que volta toda semana. O boteco é, antes de tudo, um lugar onde se preserva a memória afetiva do Brasil.
É por isso que, quando celebramos os 25 anos do Comida di Buteco, não estamos apenas comemorando um festival. Estamos reconhecendo o valor de quem transforma ingredientes simples em identidade cultural. De quem faz da cozinha um ato de permanência e resistência. E de quem, mesmo sem palco, continua servindo memória em forma de prato.