Alexandre Nagazawa é arquiteto urbanista e diretor da Bloc Arquitetura Imobiliária

Exclusivo, calmo, arborizado e historicamente residencial, o Belvedere sempre carregou uma marca inegável de qualidade. Seus lotes generosos, a baixa densidade e o predomínio de residências unifamiliares reforçaram, desde a origem, a sensação de isolamento em relação ao restante da cidade. 

Diferentemente de outros bairros, não faz divisa com comunidades, acentuando sua imagem de enclave privilegiado. Com ruas largas, muito arborizadas e até pouco tempo atrás praticamente livres de congestionamentos, o bairro consolidou-se como um refúgio urbano, um espaço pensado para quem buscava tranquilidade, sofisticação e qualidade de vida.

Hoje, porém, o Belvedere vive um novo capítulo. A flexibilização da Lei de Uso e Ocupação do Solo abriu espaço para a chegada do comércio de alto padrão. Quem circula pelas ruas já percebe as vitrines que se multiplicam, os restaurantes e cafés que ocupam esquinas, as galerias e os empreendimentos abertos que substituem o modelo fechado dos shoppings. A paisagem começa a mudar, e o bairro, mais do que nunca, está se reinventando.

Com cerca de 7.862 habitantes, de acordo com o Censo 2022 do IBGE, o Belvedere é o bairro com a maior renda média mensal de Belo Horizonte, podendo ser considerado o mais rico da cidade. O status é reforçado por dados de uma pesquisa da Loft, que o coloca como o único bairro da capital mineira no top 10 das mais altas taxas de condomínio das regiões Sul e Sudeste. Ele ocupa a quinta posição, com taxa média mensal de R$ 2.400 e valor médio dos imóveis de R$ 3,4 milhões. 

Essa valorização é reforçada por transformações recentes no Plano Diretor. O Projeto de Lei 857/2024 ampliou a permissividade de usos não residenciais em áreas de diretrizes especiais, e o Belvedere passou a se colocar como alternativa viável a polos consolidados, como Lourdes e Savassi. Com isso, surgem empreendimentos com design inovador, fachadas abertas e praças integradas ao espaço público. É um movimento que desperta entusiasmo, mas também levanta perguntas incômodas: o que se ganha e o que se perde nesse processo?

O bairro está em transição, e a efervescência comercial que hoje se instala é apenas a face visível de uma transformação mais profunda. O que se vê não é só a chegada de lojas de grife, mas uma mudança de identidade urbana em curso. E esse movimento, embora promissor, exige um olhar estratégico, capaz de equilibrar desenvolvimento econômico, preservação histórica e ambiental e qualidade de vida.

Se bem conduzidos, esses projetos podem devolver à cidade um bem precioso: o convívio na rua. Empreendimentos que se abrem para praças acessíveis ao público rompem com a lógica isolada dos grandes centros comerciais e criam experiências de encontro mais humanas. As vitrines deixam de ser barreira e passam a fazer parte da paisagem da rua, enquanto as praças se transformam em palco de convivência. Não é apenas o comércio que ganha com isso, mas a cidade inteira, que se torna mais viva, acessível e acolhedora.

Mas há riscos. A corrida comercial não pode atropelar o tecido urbano nem sufocar o entorno. A coexistência entre residências e atividades não residenciais precisa ser pensada como oportunidade de diversificar e dinamizar o bairro, sem comprometer suas qualidades originais. O desafio é enorme: garantir mobilidade em vias já saturadas, proteger as áreas verdes, manter a ambiência que faz do Belvedere referência em qualidade urbana.

É urgente virar essa lógica. Cada novo edifício, cada lote que se verticaliza precisa ser também uma peça de transformação urbana: incentivar ciclovias bem conectadas, priorizar calçadas amplas e seguras, desenhar ruas completas que favoreçam o transporte coletivo eficiente e devolver à vizinhança aquilo que se perdeu ao longo das últimas décadas, a experiência de caminhar em ruas calmas e arborizadas, com vitalidade no térreo e olhos voltados para o espaço público.

O Belvedere está diante de uma encruzilhada. Pode repetir os erros de bairros que cresceram sem planejamento, hoje marcados por trânsito, insegurança e espaços desertos. Ou pode tornar-se referência contemporânea, equilibrando densidade, comércio, mobilidade, patrimônio e natureza. Essa escolha não cabe apenas a incorporadores ou ao poder público, mas a todos nós, que acreditamos numa cidade muito maior do que um simples endereço sofisticado, num lugar verdadeiro de encontros, vida plena e futuro para todos.