Opinião

“Deus é mãe"

O mural que virou caso de polícia em BH


Publicado em 04 de fevereiro de 2021 | 03:00
 
 
 

O Circuito Urbano de Arte (Cura) mudou a paisagem da nossa cidade. Passar pelo centro de BH ou pela Lagoinha se transformou, nos últimos anos, em uma oportunidade de contemplar o que temos de belo, vivo e resistente. Graças ao festival de Arte Pública que acontece desde 2017, as empenas dos edifícios do centro se transformam em murais artísticos que saltam aos olhos, abrem janelas para a imaginação e nos levam a outros mundos possíveis onde a arte não está só no museu. Ela também pode estar nas ruas, dialogando com o cotidiano, e ser visível da janela do busão. O Cura provoca uma revolução no modo como experimentamos a cidade, e, por isso, é reconhecido nacional e internacionalmente e já é considerado um patrimônio cultural. Não tem foto turística, matéria de TV ou propaganda de BH que não aproveite as cores e belezas dos nossos gigantes murais.

Tristemente, vivemos tempos conservadores, avessos a transformações do pensar. Na edição de 2020 do festival, as cobras gigantes sobre o viaduto Santa Tereza, instalação criada pelo artista indígena Jaider Esbell, foram alvo de ataques xenofóbicos e racistas. No final do ano passado, a obra "Mulher híbrida", da artista Criola, foi judicializada por um morador que exigia sua remoção da empena do prédio. Agora, uma investigação policial quer criminalizar a arte de rua, os artistas periféricos e as organizadoras do festival. O motivo é surreal: Robinho Santana utilizou, como moldura, intervenções que remetem à estética do pixo em “Deus é mãe”, obra que virou ponto turístico na cidade por conter, no centro, a imagem de uma mãe negra com duas crianças.

Esta não é a primeira colaboração entre pixadores e muralistas do Cura. Em 2017, outros artistas foram convidados para colaborar com as empenas da muralista argentina Milu Correch e do grafiteiro belo-horizontino DMS. Em 2018, o festival dedicou uma empena inteira à arte da caligrafia urbana. Todas as obras foram produzidas dentro dos parâmetros legais exigidos, assim como o mural de Robinho que virou caso de polícia. A Delegacia Especializada em Investigação de Crimes Ambientais, que chegou a chamar patrocinadores do festival para depor, entende que a obra, feita com a anuência dos moradores do prédio e do poder público municipal e estadual, é um “crime contra o meio ambiente urbano”.

Não é coincidência que as obras atacadas sejam de autoria de artistas negros e indígenas: o racismo é latente nesse debate, que coloca o pixo em oposição ao grafite. No entanto, ambos têm a mesma origem, e artistas e estudiosos do tema se recusam a diferenciar os dois tipos de grafismo urbano, considerados intervenções artísticas de resistência.

A criminalização das manifestações culturais periféricas é uma questão histórica no Brasil, e Belo Horizonte tem casos antigos de perseguição a pixadores e artistas periféricos. Nos últimos anos, assistimos a tristes episódios de ataques ao funk, aos grapixos, aos blocos de Carnaval das bordas da cidade, aos artesãos indígenas e aos festejos de povos de terreiro e reinados, vindos daqueles que consideram que a liberdade de expressão é um direito apenas de alguns. 

Diante da gravidade dos fatos e da repercussão desse caso, acredito que estamos diante de um ponto crucial na luta pela transformação da visão do poder público sobre culturas urbanas e liberdade de expressão. Enquanto vereadora, trouxemos muitas vezes esse debate para a Comissão de Cultura e Educação da Câmara Municipal, reafirmando nosso compromisso com a luta contra a censura e com uma cidade para todos e todas. Precisamos proteger e reconhecer a importância das obras e dos artistas que passam pelo Cura, e não é tolerável que um festival tão importante para a Cultura Viva de BH continue a ser sistematicamente perseguido. 

 

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