Criando Juntos

O medo antes e depois da pandemia

A coluna está de volta para falar desse sentimento que nos rodeia desde o nascimento dos filhos e que traduz a nossa vida nesse um ano de pandemia


Publicado em 20 de março de 2021 | 10:32
 
 
 
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Por Luciene Câmara*
@joaoeosgemeos

O medo é paralisante, e muitas vezes a gente nem se dá conta do quanto ele impacta em nossas vidas. Não falo só dos medos mais comuns, como de altura, que nos impede de pular de paraquedas, ou de barata, sapo, escorpião... Eu me refiro aos medos inesperados, desconhecidos, velados. 

Quando me tornei mãe pela primeira vez, o sentimento que mais me marcou após o parto foi o medo. Um certo pânico na verdade ao me deparar com a fragilidade daquele serzinho no meu colo, tão dependente, tão faminto, com a cabecinha tão mole, o corpinho tão pequeno. Minha cabeça começou a criar incontrolavelmente cenas de horror...do bebê se afogando, caindo, pegando um vírus (e olha que nem existia pandemia).

Lembro que meu marido estava gripado quando o João nasceu, e os pediatras do hospital fizeram o maior terror dizendo que uma gripe podia matar um recém-nascido. Quem morreu quase foi eu com o que disseram, mas nenhum médico ou psicólogo do hospital deu atenção a isso. 

Quando fui para casa com meu filho, cheguei apavorada. Minha vontade era ter um pediatra comigo. Eu só pensava que, se eu fosse muito rica, teria uma enfermeira 24 horas. A sensação era de que eu nunca mais conseguiria dormir ou ter momentos de tranquilidade na vida. Eu via uma moeda e já imaginava ele maiorzinho pegando aquela moeda.

Com o tempo, o medo foi diminuindo, eu fui vendo que o bebê era mais forte do que eu imaginava, que segurando bem ele não ia cair, que era possível esconder todos os objetos pequenos da casa para ele não engolir, etc. Mas essa experiência não me livrou de terríveis medos quando fui mãe pela segunda vez...de gêmeos, prematuros. 

Haja coração. Conversando com outras mães, vejo que o medo faz parte da maternidade, especialmente do puerpério. Um medo difícil de mensurar, que tem dimensões diferentes para cada mãe, mas que está sempre ali, martelando. E, com certeza, um medo que ganhou doses cavalares com a pandemia, algo que mãe nenhuma podia imaginar sentir e suportar. 

Não preciso nem citar as tantas preocupações que o coronavírus nos traz. São inúmeras, e só crescem. E não se trata de não ter fé ou esperança. Pelo contrário, o que nos move é acreditar que tudo isso vai passar. Mas não saber quando nem como é algo que, inevitavelmente, dá medo, muito medo. E isso tem impactos diferentes na vida de cada um. 

No meu caso, desde que o mundo começou a dar os primeiros sinais de pandemia,  tudo ficou suspenso e diferente. Senti que não dava mais para continuar falando da maternidade como ela é, simplesmente porque nada mais parecia ser como antes. Então, parei com a coluna e com outros planos. Não dei conta.

Um ano depois, continuamos em pandemia e continuo com medo. Mas tomei coragem de voltar aqui e abrir meu coração de mãe. E quero continuar, agora quinzenalmente, trazendo um pouco do que sinto, escuto e tenho aprendido. Que a gente possa seguir juntas, tentando entender nossos sentimentos e sabendo respeitar nossos limites e bloqueios. Que venha logo a vacina, e a gente possa respirar mais tranquilamente.

* Jornalista, redatora dos jornais O TEMPO e Super Notícia, mãe do João e dos gêmeos Raul e Gael e autora do perfil @joaoeosgemeos

 

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