Aquilo que é visto como patológico também é cultural. Gostamos de pensar que as coisas são como são e sempre foram assim, mas isto não é verdade.

Vivemos em um eterno e necessário movimento de alterações. Aquilo que era aceito 50 anos atrás, hoje em dia é visto com maus olhos, da mesma forma que algo que era amplamente reprovado, hoje pode ser observado de forma mais gentil.

Costumo me guiar com amor para entender quais mudanças vão ser bem aceitas em minha vida. Faz mal a alguém ou a mim mesmo ou apenas me sinto desconfortável por ser diferente do que costumo ver?

É difícil lidar com o diferente. Nós nos definimos por aquilo que conhecemos e podemos nos sentir até mesmo ameaçados pela presença do que não compreendemos, mas essa pergunta costuma me trazer alguma paz de espírito.

No entanto, percebo o surgimento de um fenômeno social muito perigoso, a patologização excessiva de tudo que nos rodeia. Todo desconforto ou inadequação é prontamente transformado em algo que precisa ser resolvido, ou melhor, curado.

Não ser capaz de prestar atenção em absolutamente nada é definitivamente patológico, mas ter dificuldade de prestar atenção em algo após oito horas de trabalho, tempo no trânsito e milhões de notificações no celular, provavelmente não é tão preocupante em nível cognitivo quanto somos feitos a acreditar.

Suplementos, medicamentos, terapias, exercícios são extremamente importantes em vários contextos, mas não são a solução definitiva para nada que buscamos.

Buscar equilíbrio em nossa rotina é muito mais interessante e possível do que adotar uma rotina de produtividade perfeita, que muito provavelmente vai durar dois dias e gerar muita frustração.

É melhor mudar uma coisa para melhor e se manter nela do que mudar 30 por um dia.

A cultura de performance não apenas gera tensão, como projeta uma irrealidade que fornece uma sensação constante de incompetência. “Não consigo ficar perfeitamente na dieta”: sou incompetente e preguiçoso.

Comumente nos rotulamos negativamente no lugar de nos olharmos com carinho e entender o que podemos fazer verdadeiramente para ir em uma direção melhor.

Convivi com uma pessoa que tomava três potes de sorvete por dia. Ela tentou por anos parar de tomar sorvete, ficava uma semana sem e depois voltava a comer compulsivamente.

Conversamos, e ela decidiu tentar tomar apenas dois potes de sorvete por dia. Não era o ideal, mas era possível.

Hoje, depois de algum tempo, ela consegue tomar sorvete de maneira esporádica, algo que se deu por meio de um longo e honesto processo no qual ela se permitiu estar em um lugar melhor em vez do lugar perfeito.

Talvez você não precise de um suplemento para aumentar sua produtividade. Talvez deva apenas perceber que está cansado e precisa descansar sem maiores cobranças.

O autocuidado pode não ser tão performático como gostaríamos, mas é o que precisamos quando nos permitimos ver.