Josias Pereira
@josiaspereira
20/11/20
13h52

Reprodução da sociedade

Dia da consciência negra: o esporte no Brasil como espelho do racismo estrutural

O pesquisador Neilton Ferreira, doutorando em estudos socioculturais do esporte pela USP, analisa a inserção do negro no ambiente esportivo nacional

Barbosa teve que conviver com uma pena perpétua após a derrota da seleção em 1950, um dos exemplos dos tempos sombrios da Amarelinha, que chegou a fazer testes em jogadores negros para comprovar capacidade psicológica — Foto: Reprodução / CBF
Josias Pereira | @josiaspereira
20/11/20 - 13h52

O dia da consciência negra aponta para uma reflexão sobre o racismo estrutural que domina a sociedade brasileira. O esporte é um espelhamento dessa cultura, fruto de um processo de colonização que estabeleceu tendências e implementou também um pensamento esportivo que privou a presença dos afrodescendentes. Em 2019, o futebol brasileiro teve um recorde de casos de injúria racial. De acordo com levantamento do Observatório da Discriminação Racial do Futebol, foram registrados 56 casos, doze ocorrências a mais que no ano anterior. 2018, aliás, foi a temporada que detinha a pior marca até então, com 44. Ou seja, um aumento de cerca de 27,2%.

Mas o porquê da negação à realidade que é visível com números cada vez mais alarmantes?  

Colonizadores x colonizados

O acadêmico Neilton Ferreira Júnior, doutorando em estudos socioculturais do esporte pela Escola de Educação Física da USP e membro da Academia Olímpica Brasileira, ajuda a entender a ligação do esporte no Brasil com o racismo que também existe no seio da população brasileira. 

"O esporte tem uma história muito próxima e muito filiada às campanhas coloniais, principalmente as campanhas coloniais de segunda ordem, que é o neocolonialismo do final do século 19, quando a África passa a ser dividida pelas potências econômicas europeias, os EUA também e outros países. E é nessa mesma época que uma espécie de instrumentalização do esporte passa a ser desenhada por personagens que são tidos, com todo o merecimento, como pensadores do esporte moderno, inclusive eles vão chegar na África para defender a prática de modalidades individuais no continente africano, entendendo que as modalidades coletivas poderiam criar um ambiente que fortaleceria projetos de resistência e luta anticolonial dos povos colonizados", observou Neilton, em entrevista ao perfil 'Esporte e Raça', no Instagram, canal dedicado à discussão da importância do negro no ambiente esportivo. 

"Esses pensadores do esporte moderno ocidental também tinham uma visão bastante ambígua sobre a importância do esporte. Eles entendiam que o colonialismo das Américas, o colonialismo da África, era uma coisa boa, e fazia parte do projeto colonial o esporte. O que é o projeto colonial, pensando na questão do racismo estrutural? É um primeiro momento onde vai ser constituída uma sociedade de classe, de raça, repartida, fracionada, nas hierarquias de raça, classe e sexo. E o esporte vai assumir essa característica. O esporte não é assim por acaso.. Essa estrutura que privilegia homens brancos no poder e que deixa um espaço aberto para se apropriar da classe trabalhadora e preta é uma estrutura que tem um lastro muito umbilical, até mesmo dependente, com o colonialismo", acrescentou o pesquisador. 

O conceito de racismo estrutural 

O portal 'Brasil de Direitos' define racismo estrutural como a “naturalização de ações, hábitos, situações, falas e pensamentos que já fazem parte da vida cotidiana do povo brasileiro, e que promovem, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial”. Dessa maneira, é possível dizer que o racismo é um instrumento naturalizado como parte integrante do meio social, reproduzindo parâmetros de discriminação racial no campo da política, da economia e em outras áreas. 

O esporte como cultura superior 

Dentro desse processo, como explica Neilton, o Brasil não conseguiu fazer do esporte um objeto do processo de emancipação do país, como aconteceu em alguns cantos do mundo. Pelo contrário, as ferramentas esportivas passaram a ser um instrumento de institucionalização do status quo do colonialismo. 

"A gente não conseguiu, voltando para o Brasil, entender que precisávamos criar um mecanismo de associação e assimilação dessas tecnologias esportivas para favorecer processos de emancipação. O esporte foi apropriado primeiro por uma categoria militar, depois uma categoria de estado, ambos pensavam o esporte como um mecanismo de controle dos corpos, refratário a propostas e ideias de processos de emancipação. Ao mesmo tempo, um mecanismo que formava processos de hierarquia social. O estado, na sua maioria, pessoas brancas determinando que tipo de modalidades o país ia receber, modalidades essas que se inserem no nosso território para marginalizar uma cultura corporal anterior, ou seja, nós não somos o país da capoeira, nós somos o país do futebol, tem toda uma questão de imposição de um projeto de modernidade que traz o esporte como uma cultura superior", expôs o pesquisador, que vê como efeito desse processo a reprodução do racismo, incutido até mesmo pelo pouquíssimo material historiográfico, que deixou muitos eventos e apropriações esportivas no país marginalizados pela falta de registro. 

"Afirmando os autores dessa dita 'cultura superior' que os povos não brancos são incapazes de produzir cultura, são incapazes de produzir projetos civilizatórios, esse projeto esportivo se impõe e ele marcadamente se torna um espaço de reprodução do racismo, de maneira que não dá só para mudá-lo por dentro. Seria necessário um processo de captura, de historização desse processo, de desconstrução e uma assimilação muito próximo daquilo que outras culturas fizeram, como no Havaí, por exemplo, ou o que Cuba fez com o beisebol, transformando esse esporte em objeto de transformação social e que acompanha a luta por emancipação. E isso com muita dificuldade aconteceu aqui, a gente pode ver no futebol casos difusos, mas muito importante de serem analisados, como a liga da canela preta e tal, que acabam ficando por conta de um processo historiográfico bastante seletivo, marginal também na história" , declarou Neilton. 

O que foi a Liga da Canela Preta 

A Liga da Canela Preta, como ficou jocosamente conhecida, foi fundada em Porto Alegre no final dos anos de 1910, para congregar times de futebol formados, na sua maioria, por jogadores negros. A competição foi um dos exemplos históricos de apropriação do esporte pela população da periferia, formada por operários, funcionários públicos de baixo escalão, subempregados, imigrantes e negros pobres, que organizavam seus clubes e associações em detrimento das agremiações esportivas abastadas e formadas por jogadores de origem europeia em Porto Alegre. 

Projeto científico de embranquecimento da seleção brasileira 

Em 1921, com o Sul-Americano disputado na Argentina, A CBD, hoje CBF, buscou evitar animosidades com os hermanos, Em 1919, a seleção brasileira disputou um amistoso com a Alviceleste que motivou uma charge racista publicada por um jornal do país vizinho. A caricatura retratava jogadores brasileiros como macacos e ironizava que “os macaquitos já chegaram em terras argentinas”. A charge revoltou parte da equipe brasileira, que decidiu boicotar o jogo Dois anos depois, o presidente da República, Epitácio Pessoa, preocupado com a imagem do país no exterior, teria recomendado à CBD que não levasse jogadores negros. A seleção fracassou no torneio. Mas, em 1922, a CBD resolveu retirar o veto aos jogadores negros, vencendo o Sul-Americano com a presença de jogadores como Tatu, do Corinthians. 

As derrotas na Copa do Mundo de 1950 e 1954 atingiram em cheio os jogadores negros da seleção brasileira, acusados de excessivamente temperamentais, imaturos, emocionalmente vulneráveis e, portanto, despreparados psicologicamente para uma competição mundial. Um dos nomes mais atingidos foi o goleiro Barbosa, o bode expiatório da derrota para o Uruguai na Copa de 1950. A CBD, com a chegada de João Havelange, designou ao treinador Feola, em preparação para o Mundial de 1958, o psicólogo João Carvalhaes. 

As avaliações do mesmo sobre os atletas brasileiros denotavam preconceito contra os atletas negros, principalmente em relação a Garrincha.. "De cara, Carvalhaes quis porque quis aplicar os psico-testes nos jogadores, entre os quais estavam Pelé, com 17 anos, e Mané Garrincha, com 25. Certo dia, Carvalhaes chamou Garrincha para o exame. Ao preencher a ficha no espaço destinado à profissão, o ponta pisou na bola: "Atreta". Nos exercícios seguintes, não foi muito melhor, conseguindo 38 pontos em 123 possíveis. Em seu relatório, o psicólogo jogou duro: instrução primária, inteligência abaixo da média e agressividade zero", descreveu um texto assinada pelo jornalista Cacalo Fernandes. 

O time brasileiro que estreou nos gramados suecos em 1958 tinha apenas um negro, Didi, que na realidade era mulato, quase branco. Os jogadores negros estavam todos na reserva, inclusive Pelé e Garrincha. Eles ainda figuraram no banco de reservas na segunda partida brasileira no Mundial. 

"Por que o esporte se torna esse laboratório de educação dos pretos? Porque aconteceu o seguinte, lá nos anos 1950, viu-se a possibilidade da seleção brasileira de futebol sair daqui, representar o país em outros lugares. Só que existia uma seleção majoritariamente negra e muitos dessas pessoas que estavam na antiga CBD entendiam que por causa do imaginário da raça, o imaginário racial, que os negros não conseguiriam se dar bem no frio, por exemplo. Entendiam também que eles eram muito mal educados porque eram negros. E aí, o que aconteceu? Eles criaram um projeto científico de reeducação da seleção. O que aconteceu é que esse processo se tornou um projeto de embranquecimento da seleção que a gente vai ver o que acontecer ao longo dos anos 1960, 1970 e tal, marcadamente para poder fazer com que a representação do nacional, a representação do Brasil fosse um tanto quanto mais branca", explicou o pesquisador Neilton Ferreira. 

A ausência dos negros nos cargos diretivos do esporte 

Um levantamento do site 'Vagas.com' apontoou que que os negros ocupam apenas 0,7% dos cargos de direção dentro das empresas. A mesma pesquisa mostrou que os profissionais negros ocupam 8,9% dos cargos de nível pleno, percentual que sobe para 13% entre brancos. Já em cargos de alta e média gestão, os negros ocupam 8,3% dos postos. Nas posições de gerência, os negros são apenas 3,4% dos contratados. Os negros só são maioria frente às demais raças em posições operacionais (47,6%) e técnicas (11,4%). 

O ambiente esportivo não foge a esse levantamento. Pelo contrário, o espalha. Um dos exemplos claros é a própria lógica diretiva do futebol nacional. Em Minas Gerais, o ex-jogador Deivid é uma das peculiaridades em relação a presença de pretos em cargos de gerência no futebol nacional. A própria criação dos clubes, dominados por famílias e também com restrições, é a tônica da sociedade brasileira. 

"No Brasil foram constituídas historicamente instituições de família, a gente constituiu clubes. A ideia do clube é uma ideia familiar, é uma ocupação de terreno, muitos deles públicos, mas para fins privados. E a característica que o esporte assume ao longo do processo de democratização do Brasil é uma lógica estritamente privada. É uma lógica privada e familiar. De produção de um conjunto de regras, de uma espécie de cultura e prática de política interna que impede pessoas negras, pessoas pobres, mulheres, acessem cargos de liderança e poder. Esse é um momento muito específico da nossa história, mas que possui efeitos no presente que vivemos", analisa Neilton Ferreira, doutorando pela USP. 

"O presente é o seguinte, na medida que o esporte perde a única possibilidade dele ser um espaço de reflexão sobre como uma sociedade deve ser, porque ele passa a se integrar cada vez mais para uma lógica capitalista e uma produção rápida de mais valor, as discussões mais profundas, a presença do esporte no Brasil vai se perder. A lógica que faz com o que o esporte funcione, ainda que a gente tenha a perspectiva dos clubes, de famílias funcionando, é uma lógica que não passa por valores democráticos, não passa pela compreensão liberal que as pessoas têm interesses próprios", prossegue o pesquisador, ressaltando o racismo estrutural no país. 

"Como, por exemplo, quando um jogador sai do futebol e quer ser profissional em outra área, ele quer disputar espaço com alguém nas mesmas circunstâncias. Mas o que acontece é uma contextualização do que acontece na sociedade como um todo, que é a ilusão de um estado meritocrático, a ilusão de uma concorrência em um chão igual para todos, e uma espécie de ideologia de um esforço de colocar um véu sobre a sujeira, e não fazer com que percebamos que o terreno da disputa é muito mais complexo. E nesse terreno profundo está o racismo. Do lado de fora, na superfície, está a negação do racismo.. Mas do lado de dentro está a afirmação de ideias antigas, mas muito presentes, de que o negro é incapaz de liderar, de que o negro é pouco racional, é muito mais corpo. O exemplo do ex-técnico do Flamengo, Andrade, campeão pelo clube, escancara e diz muito sobre isso de um jeito muito absurdo", concluiu Neilton. 

 Veja abaixo a entrevista completa com Neilton Ferreira: 

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