Nas últimas semanas, as fotos de um bebê com uma enorme mancha no rosto rodaram a internet. A criança em questão é a norte-americana Charlie, de 6 meses. Ela é filha da blogueira Katie Crenshaw, e a mancha que ela tem no rosto chama-se hemangioma.
“Durante anos – e até hoje – essa palavra foi usada para denominar qualquer anomalia vascular na pele”, diz o dermatologista pediátrico Bernardo Gontijo, que é professor da Faculdade de Medicina da UFMG e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Mas não é bem assim. De acordo com o médico, só são hemangiomas os tumores vasculares.
“Isso não significa que ele tenha que ser maligno ou benigno. No tumor, as células do endotélio (a parede de dentro dos vasos) se multiplicam muito mais do que o normal”, explica. Quando isso acontece na pele, o resultado é parecido com o que Charlie tem no rosto. A marca, que está em cerca de 3% a 4% dos bebês no mundo, pode ser do tamanho da cabeça de um alfinete, ou maior.
Gontijo explica que os hemangiomas costumam surgir por volta do primeiro mês de vida e têm um ciclo de desenvolvimento bem-definido. “Durante um tempo, as células se multiplicam, e o tumor cresce. Normalmente, isso acontece até o primeiro ano de vida. Depois, as células param de se multiplicar, e o tumor se estabiliza. E, por fim, essas células entram em involução, e o tumor desaparece”, descreve. O mais normal é que os hemangiomas desapareçam completamente antes de a criança ter completado 10 anos. “Se não sumiu até essa idade, questione o diagnóstico”, orienta o médico.
Tratamento. Esses tumores não trazem nenhum tipo de complicação para a saúde da criança. Assim, o tratamento, na maioria das vezes, é o que os médicos chamam de “conduta expectante”: esperar que ele cumpra seu ciclo sozinho.
Em alguns casos específicos, que correspondem de 30% a 40% de todos os hemangiomas, é indicado um tratamento com o medicamento propranolol, usado também no controle da hipertensão arterial.
“O primeiro caso em que há indicação de tratamento é quando o tumor é muito grande, como o da Charlie, pois, quando ele desaparecer, pode deixar uma pele cicatricial no lugar, e o resultado estético pode não ser agradável”, diz o médico.
Se o hemangioma está na pálpebra, ele também deve ser tratado. “Algumas vezes, a criança não consegue abrir o olho. E aí, ela ficará cega, porque a visão do bebê só se desenvolve se for estimulada”, diz o médico. Quando está na região dos lábios e na área da fralda, também é recomendado tratar, pois são regiões propensas a dar feridas, que, normalmente, são bem dolorosas e incomodam muito o bebê.
Os hemangiomas são mais comuns na pele, mas também podem acontecer em órgãos internos, como fígado, pulmões e sistema nervoso central. Se o tumor for muito grande nesses órgãos, a criança também deverá ser tratada, pois pode haver um acometimento cardiovascular. “O tumor joga tanto sangue para o coração, que ele passa a trabalhar acima de sua capacidade”, relaciona Gontijo.
Complicações. Tirando esse último caso, de fácil tratamento, os hemangiomas não interferem em nada na vida da criança. A parte mais difícil é, talvez, lidar com os preconceitos causados pela marca de nascença. “Eu entendo que é da natureza humana dar uma segunda olhada quando se vê algo em alguém que o torna diferente. (Mas) nós não precisamos falar sobre isso toda vez que você olhar para ela (Charlie)”, escreveu Katie em um desabafo em seu blog.