Tenho atendido muitos pacientes com queixas de disfunções sexuais: ejaculação precoce, dificuldade de ereção, perda de desejo. E o mais espantoso é que homens cada vez mais jovens têm relatado sintomas que antes apareciam apenas após os 60 anos. Disfunções que antes eram atribuídas ao envelhecimento agora estão se manifestando em corpos jovens — e emocionalmente exaustos.

Quando comecei a escrever essa coluna, lembrei-me do livro Amor e Orgasmo, de Alexander Lowen. Ele nos mostra como o comportamento sexual está profundamente conectado com a personalidade, a história emocional e — talvez o mais importante — com o corpo. Sim, o corpo físico. A estrutura muscular, a energia vital, os bloqueios somáticos, a postura, a respiração. Tudo isso influência a forma como sentimos prazer… ou não.

É por isso que, no meu trabalho, eu utilizo uma abordagem chamada Sexualidade Somática, que é uma forma de educação sexual baseada na consciência corporal, no toque respeitoso e na escuta profunda do corpo. Não se trata de técnica. Trata-se de sentir com presença.

Dentro da Sexualidade Somática, desenvolvi um método chamado Conscious Orgasmic Flow, que integra respiração, massagem consciente, mapeamento sensorial e práticas de ancoramento emocional. Ele tem ajudado muitas pessoas a reconectarem-se com o corpo físico, liberarem tensões emocionais e restabelecerem relações mais autênticas e prazerosas.

Uma dessas pessoas foi um paciente de trinta e poucos anos que chegou até mim carregando uma grande dificuldade: ele não conseguia permitir o toque nas partes íntimas. Só de imaginar, sentia um bloqueio visceral. Relatava medo, culpa, vergonha. A glande do pênis era extremamente sensível, o que dificultava até o uso de preservativos ou a continuidade de uma relação sexual. Ele se retraía, travava. E, ao fundo, havia um eco de histórias mal resolvidas com a infância, repressões religiosas e experiências onde ele se sentiu exposto, julgado, ou pressionado a “dar conta”.

Durante nossas sessões, começamos com toques leves em áreas neutras do corpo, respeitando seus limites. Fomos trazendo respiração, relaxamento, escuta. Com o tempo — e com muito acolhimento — ele conseguiu permitir que suas zonas íntimas fossem tocadas com segurança. A sensibilidade extrema foi diminuindo. E junto com ela, o medo foi se transformando em presença.

Hoje, ele vive uma sexualidade mais tranquila, consciente e livre. Conseguiu estabelecer uma relação afetiva estável e relata que o sexo deixou de ser um campo de tensão — e passou a ser um espaço de encontro real.

Esse é apenas um exemplo do que acontece quando o corpo é acolhido, e não cobrado. Quando a sexualidade deixa de ser um desempenho, e passa a ser uma expressão do que somos.

Lowen dizia que a sofisticação sexual — esse excesso de técnica, performance e expectativa — se torna uma defesa contra a intimidade verdadeira. O corpo endurece. A mente se distancia. O prazer se torna escasso. Mas quando abrimos espaço para o sentir, quando damos permissão ao corpo para reaprender o toque, o calor, o tremor… o prazer se revela.

Se você é homem e está lendo essa coluna, pare e se pergunte: Você se sente ansioso? Você se cobra para “dar conta”, performar, impressionar? E se você é mulher e tem um parceiro que enfrenta disfunções sexuais, experimente oferecer a ele um campo seguro, sem cobranças. Diga com o corpo, com a voz e com o olhar que ele está seguro com você. Esse simples gesto — de presença, não de técnica — pode ser o que faltava para ele relaxar. E no relaxamento, o prazer floresce.

Na próxima coluna, quero te contar como nós, mulheres, também temos um papel crucial nesse cenário. Vamos falar sobre masturbação, culpa, nojo do próprio corpo, e como a falta de autoerotização tem nos afastado do prazer. Vamos atravessar a camada da vergonha e voltar para o centro do nosso corpo sagrado: a vulva, o clitóris, o sentir.

Mas por hoje, eu te deixo com esse convite:

  • E se o verdadeiro orgasmo não estivesse no ápice, mas no caminho até lá?
  • E se o corpo que falha for, na verdade, o corpo que pede amor?

Te vejo na próxima sexta-feira. Com mais entrega, mais verdade, mais prazer.