CHUVAS

‘Sonhos de vidas inteiras afogados’: o sentimento de passar por um bairro submerso em Canoas

O relato foi feito pela repórter de O TEMPO que viajou em voo da FAB para acompanhar as inundações no Rio Grande do Sul 

Por Lucyenne Landim
Publicado em 10 de maio de 2024 | 21:27
 
 
 
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CANOAS (RS). Em situações avassaladoras, a mente não consegue processar tão rápido o que os olhos veem. É esse o sentimento imediato de quem vê a devastação que as chuvas causaram nas áreas completamente alagadas do bairro Mathias Velho, na cidade de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Ao navegar nas ruas tomadas pela água na altura dos cabos de energia, imaginam-se os sonhos de vidas inteiras afogados. 

Detalhes que em dias normais passariam despercebidos, agora fazem parte de um “cenário de guerra” inimaginável.

Das cadeiras de praia que sobreviveram às enchentes, e pareciam dispostas milimetricamente para que um casal pudesse apreciar a vista do bairro no segundo andar de um sobrado, às mochilas de rodinhas com estampas que brilham os olhos de crianças, agora jogadas por um buraco do telhado na tentativa de salvá-las. 

Ao encontrar na tarde desta sexta-feira (10) um ponto de saída de barcos de resgate, poucas horas após desembarcar em Canoas, não hesitei ao ter menos de cinco minutos entre “quer ir com a gente?” e a aprender a balancear o peso para que a embarcação não virasse. No meio-tempo, apareceu um colete salva-vidas. O “vamos” ao grupo de voluntários foi instantâneo, mas, nessas ocasiões, você nunca espera o que vai ver.  

Aquilo que estava estampado diariamente na televisão e nos portais, por colegas de profissão, estava à minha frente - melhor dizendo, por todo lado. O nível da água chegou quase ao telhado das casas térreas. Fachadas de lojas de uma avenida comercial inteira eram as únicas partes visíveis. Carros boiavam nas vias e o teto dos veículos chegava à altura dos muros. Caminhões também submersos. Placas de trânsito, que costumam ter cerca de dois metros de altura, praticamente cobertas pela água.  

“Como isso pôde acontecer aqui ou em qualquer lugar?”. É a pergunta que ecoa. No meio do caos, um pé de laranja estava praticamente inteiro alaranjado de tão carregado. “Quem será que estava esperando essa colheita do quintal de casa?”. Podia ser uma espera singela para alguém, mas se tornou apenas mais um dos prazeres tomados sem possibilidade de reação dos moradores do Rio Grande do Sul.

A viagem em um avião militar

Apesar do choque ao percorrer esse momento, a viagem para Canoas, cidade que tem sido um dos epicentros dessa tragédia no Estado, já prenunciava o cenário a ser conferido. A partida foi às 8h desta sexta-feira da Base Aérea de Brasília (DF), em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Antes de embarcar, passamos por um hangar abarrotado de alimentos, calçados e roupas a serem doados para quem perdeu tudo, em um ato de solidariedade de tamanho pouco visto anteriormente.

Parte desses mantimentos viajou na mesma aeronave com militares e outros jornalistas que ocuparam as poucas vagas disponibilizadas. A aproximação do avião à região devastada no Rio Grande do Sul mostrou a imensa quantidade de nuvens que cercava Canoas. Foram mais de duas horas de voo tranquilo, mas os cerca de 20 minutos finais de viagem foram marcados por turbulências que chacoalharam a aeronave em uma espécie de confirmação do anúncio de mais chuvas.  

Já com visibilidade, deu para ter ideia, da janela do avião, de que os alagamentos continuavam e pareciam não cessar. De algumas árvores, via-se apenas o topo. Como se não bastassem as turbulências para quem já tem medo, o pouso na Base Aérea de Canoas foi acompanhado de água na pista. Ainda assim, não havia como prever o sentimento que é navegar em uma cidade inteira submersa.  

Em mais uma “primeira impressão”, a chegada ao hotel foi marcada pela movimentação de famílias inteiras que precisaram sair às pressas de suas casas para um novo abrigo. O semblante desolado da recepcionista acusava uma história. Com a casa alagada, ela passou a ser, além de funcionária, hóspede. “Mas eu estou bem”, disse, em uma tentativa de retomar a mínima normalidade da vida depois de uma catástrofe.

Resgate de animais conta com geladeiras transformadas em barcos

De volta à operação de resgate no bairro Mathias Velho. A saída do barco teve como objetivo liberar cães ilhados por dias em cima de telhados. A missão, no entanto, não era tão fácil. Ariscos e com medo após mais de uma semana na chuva, eles não se deixavam ser pegos e se afastavam de outros voluntários que já estavam ali. Do barco, a torcida era para que pelo menos os bichinhos não escorregassem.  

O resgate não deu certo pelos minutos que ficamos ali, mas os cães receberam ração. Cerca de uma hora depois, voltamos para a base da operação e, logo em seguida, felizmente chegou um voluntário com os mesmos cachorros do telhado. “Mas tem que levar logo para o abrigo, senão eles entram de novo na água e nadam até onde era a casa deles”, contou quem me emprestou o colete para acompanhá-lo.

“Não posso parar, tem mais de 20 cachorros na casa vermelha de três andares que fica ali”, disse um jovem que parecia ter cerca de 20 anos e passou por nós em um barco improvisado: a geladeira de sua casa (alagada) sem a porta e flutuando com a sustentação de galões vazios de água. De remo, ele usava uma tábua molhada, semelhante às dezenas de outras vistas boiando como lixo pelo percurso. 

Não tinha como esconder as lágrimas, porém, ao perceber que muitos animais não tiveram a sorte do resgate. “Tem um ali, tem um ali”, gritei aos voluntários ao avistar um cachorro com as duas patas da frente sobre um muro. Desabei ao perceber que era tarde demais. Foi a mesma sensação quando precisamos desviar o barco de outro cachorrinho que boiava.  

‘Estão saqueando tudo’

Outra situação desoladora foi ver famílias que se recusavam de forma contundente a sair de suas casas - mesmo com alerta vermelho de mais chuvas na cidade. Essas estavam em varandas do segundo andar, enquanto o piso térreo estava tomado pela água. Em uma das cenas, havia uma mulher acompanhada de um homem, idoso. “Não”, disse pelo menos duas vezes e sinalizou com a mão ao ser questionada se podiam ser resgatados, mesmo com o apelo da Defesa Civil para que a segurança seja prioridade. 

“Nós estamos cuidando porque estão saqueando, né”, disse outro homem visto no segundo piso de sua casa, denunciando ações deploráveis em meio à calamidade e seu esforço para proteger o que ainda resta de material. A cena se repetiu por mais algumas casas, e a visão de pessoas em suas varandas sem conseguir abandonar uma vida inteira é impossível de ser esquecida.

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