TRÁFICO INTERNACIONAL

PCC, com ares de empresa multinacional, domina Paraguai: ‘ele tomou a fronteira’

Primeiro Comando da Capital fatura bilhões com atuação para além das fronteiras do Brasil

Por Gabriel Rodrigues
Publicado em 11 de junho de 2024 | 06:00
 
 
 

Uma organização complexa em que novos membros escalam das posições mais baixas até a alta gestão, a mercadoria alcança os cinco continentes, com representantes em pelo menos 24 países, e o faturamento anual soma US$ 1 bilhão, pelas estimativas do Ministério Público de São Paulo (MPSP). O que poderiam ser características de uma gigante empresa multinacional é, na verdade, a descrição do Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior facção criminosa no Brasil. O rastro de ilegalidade, violência e inacreditáveis somas de dinheiro do grupo não se limita ao seu país de origem, e, agora, os criminosos dominam parte da América Latina. Nas palavras de pesquisadores do tema, hoje o PCC tomou o Paraguai.

A permanente gravidade da situação levou, na última semana, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, a ir pessoalmente até o Paraguai, onde reforçou uma série de acordos de cooperação com o presidente paraguaio, Santiago Peña, a fim de coibir o crime organizado nos dois países. A nação vizinha é o entreposto perfeito para o tráfico internacional de drogas, localizada entre a Bolívia, maior produtora mundial de cocaína, e o Porto de Santos, em São Paulo, uma das principais saídas do continente para o Oceano Atlântico, por onde os carregamentos partem para a África e para a Europa. Além disso, o próprio Brasil é um grande mercado, já apontado em estudos como o segundo maior consumidor de cocaína no mundo.

Como uma empresa que calcula o cenário para traçar a melhor estratégia de controle do mercado, o PCC caminhou passo a passo na conquista do território na última década. A ação culminou com o assassinato cinematográfico do “rei da fronteira”, o megatraficante brasileiro Jorge Rafaat Toumani, em 2016. Sua morte com 16 tiros, grande parte na cabeça, abriu caminho para o PCC firmar-se como a maior força criminosa na passagem entre os dois países e consolidar ainda mais seu poder no tráfico internacional de drogas.

“O PCC só não produz a droga, o resto da cadeia narcotraficante ele tem. Ele tomou a fronteira do Paraguai matando Rafaat, expulsando o Comando Vermelho (CV) e tomando essa porta de entrada da cocaína e da maconha”, resume a desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Ivana David. 

Autor do livro "Laços de Sangue: A História Secreta do PCC" e procurador do Ministério Público de São Paulo (MPSP), Márcio Sérgio Christino reforça que os traficantes bolivianos estavam igualmente interessados no controle do PCC sobre o Paraguai. A passagem de controle do crime teve consequências não apenas sobre a fronteira, mas sobre a “política interna” das facções brasileiras, tornando-se um pivô da onda de violência entre PCC e CV que causou as rebeliões em série que deixaram dezenas de detentos mortos no Norte do país.

“Quando os bolivianos passaram o monopólio do tráfico dessa rota para o PCC, o CV ficou fora da jogada. Ele acabou se aproveitando de outra rota, a dos peruanos, daí a ligação com facções do Norte e do Nordeste”, detalha. Do Sul ao Norte do Brasil, portanto, os Estados brasileiros sentem os reflexos dessas mudanças no jogo geopolítico do tráfico de drogas.

Com sua centralidade geográfica, Minas Gerais, por exemplo, é um ponto inescapável da dinâmica criminosa. “Minas tem um controle muito forte nas divisas e uma polícia ativa, mas o grande problema é que ela está no caminho entre o Sul e o Norte. Se a droga desce do Solimões para chegar ao Rio, passa por Minas. Então, o Estado se tornou estrategicamente um ponto de atenção Se cortar em Minas, o resto seca”, enfatiza Christino. Em termos numéricos, Minas é a “segunda casa” do PCC, com o segundo maior número de membros listados pelo MPSP — cerca de 4.000.

Cooperação internacional é chave no combate ao PCC

Com seu poder estendido a diferentes setores da sociedade — como esquemas em empresas de ônibus e de limpeza, em São Paulo, desmantelados neste ano —, o PCC tem contornos de mais que uma facção, mas de uma máfia. É o que avalia a desembargadora Ivana David. Combater uma organização tão consolidada exige cooperação internacional, reforça ela.

“É necessário trabalho de inteligência para identificar integrantes e formas de transporte. Para isso, é preciso conversar com a polícia paraguaia para, depois de identificar as pessoas e apreender as drogas e aqueles indivíduos, validar provas”, pontua. Um problema que dificulta a desarticulação das facções é justamente a falta de sintonia entre as autoridades de diferentes países, pontua ela — uma prova ou uma decisão que partem do Brasil, por exemplo, podem não ter validade em outro local. “Sem essa conversa, não chegamos a lugar nenhum. [O criminoso] sai pela porta da frente”.

Além da posição geográfica privilegiada, do ponto de vista dos criminosos, outras características do Paraguai favorecem o aprofundamento do tráfico no país, complementa o procurador Márcio Sérgio Christino. “Há um sistema bancário mais frágil e não existem as mesmas dificuldades [para os criminosos] que há no Brasil”. David completa: “os policiais nos contam que, quando apreendem uma carreta [do tráfico], passam outras dez”. 

A consolidação do PCC no Paraguai impulsiona a violência no país. É emblemático o caso do assassinato do promotor paraguaio Marcelo Pecci em 2022,. Assassinado durante sua lua de mel na Colômbia, ele era um dos protagonistas nas investigações contra o PCC e outras facções  no Paraguai. O país ocupa, atualmente, a quarta posição no Índice Global de Crime Organizado, ranking que lista os locais com maior concentração criminosa — ele está atrás da Colômbia, do México e do primeiro colocado, o Mianmar.

Caráter “empresarial” afasta PCC de suas origens

O PCC foi fundado há quase 31 anos, em 1993, na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, o Piranhão, no interior paulista. Sob seu lema, “paz, justiça e liberdade”, o grupo organizado de criminosos propunha um combate contra a violência do Estado nos presídios e oferecia proteção a encarcerados. Desde então, agigantou-se até se tornar o mamute bilionário que é hoje.

“O que alguns expulsos da facção falam é que o PCC deixou sua missão inicial, que era lutar contra a opressão do Estado”, pontua a desembargadora Ivana David. Mas esse racha, avalia ela, não deve ser o bastante para enfraquecer a facção. “Não vejo solução de curto e médio prazo”, finaliza.

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