‘RODOVIA DO MINÉRIO’

Sem via alternativa, prefeitos mineiros apostam na fiscalização da BR-040

Nova Lima já se comprometeu a instalar 40 câmeras para auxiliar trabalho da PRF

Por Clarisse Souza
Publicado em 27 de maio de 2024 | 07:00
 
 
 

Enquanto a construção de uma via alternativa para desviar da BR–040 a circulação de carretas que transportam minério de ferro permanece em negociação, prefeitos de municípios que circundam a rodovia, entre Nova Lima e Conselheiro Lafaiete, articulam-se para encontrar alternativas. A ideia é apostar em meios capazes de, num curto prazo, aumentar a segurança no trecho de 54 km de extensão. Uma das medidas já em andamento é o investimento na instalação de câmeras capazes de identificar, em tempo real e com auxílio de Inteligência Artificial (IA), uma série de infrações de trânsito, como ultrapassagens em locais proibidos.

Nova Lima foi o primeiro município a se comprometer com o uso da tecnologia, em parceria inédita firmada com a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Em setembro do ano passado, o prefeito João Marcelo Dieguez (Cidadania) assinou um protocolo de intenções no qual a prefeitura se dispôs a adquirir e instalar 40 câmeras de alta resolução, com identificadores de placas, que devem ser utilizadas com softwares de inteligência artificial para realizar uma análise pormenorizada do tráfego de veículos na rodovia federal. 

Segundo a Prefeitura de Nova Lima, a instalação das câmeras e do cabeamento de fibra ótica para conexão com a internet já começaram. Agora, cabe à PRF indicar o melhor software para leitura das imagens, que devem ser acompanhadas de perto por policiais em um centro de videomonitoramento a ser criado pela corporação. “A ideia é que a câmera com software de inteligência artificial detecte a infração para que o policial (em uma central de monitoramento) valide e autue em tempo real”, explica o chefe da comunicação social da PRF em Minas, inspetor Aristides Júnior. Ainda não há prazo para início do monitoramento.

O projeto atraiu o interesse de outros prefeitos, como Hélio Campos (sem partido), de Ouro Branco, na região Central. Segundo o gestor, mesmo não sendo cortado pela BR–040, o município sofre o impacto do tráfego intenso na região e busca alternativas para reduzir acidentes e congestionamentos. “Nossa cidade é impactada (pelo trânsito da BR–040) porque muitos moradores trabalham em BH. Além disso, usamos a rodovia para transportar pacientes para atendimentos de saúde fora da cidade”, diz. Campos garante que o município está disposto a se articular politicamente para viabilizar a compra de câmeras que fortaleçam a fiscalização da estrada desde Nova Lima até Conselheiro Lafaiete. “A gente poderia adquirir os equipamentos por meio de consórcio com outros municípios”, sugere.

Segundo o consultor institucional da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais e do Brasil (Amig), Waldir Salvador, outros prefeitos de cidades que margeiam a BR–040, entre Nova Lima e Conselheiro Lafaiete, têm interesse em replicar o projeto. Ele explica que a ideia agrada pela possibilidade de monitorar em tempo real a circulação das carretas, em área marcada por acidentes – o trecho registrou média de 156 mortes por ano, de 2020 a 2022, segundo a Amig. “Falta um transporte mais disciplinado do minério, e a população é quem paga, inclusive com a vida”, lamenta.

Outro lado

A reportagem solicitou ao Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) um posicionamento sobre as críticas dos municípios. No entanto, a entidade que representa o setor informou que não se manifestará sobre o assunto.

Trecho foi leiloado neste ano

O trecho da BR–040 que está na mira das prefeituras por causa do tráfego de carretas com minério de ferro faz parte da fração da rodovia que foi leiloada pelo governo federal no mês passado. Vencedor do certame, o Consórcio Infraestrutura MG deve assumir a administração do intervalo entre Belo Horizonte e Juiz de Fora, na Zona da Mata, a partir de 9 de julho, data prevista para a assinatura do contrato de concessão. 

Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a concessionária deve investir cerca de R$ 8,7 bilhões na BR–040 pelos próximos 30 anos. Entre as intervenções está prevista a duplicação de quase 164 km da rodovia. 

Parte do trecho a ser duplicado está justamente no trajeto entre os municípios de Nova Lima e Conselheiro Lafaiete, onde os prefeitos pleiteiam a restrição à circulação de carretas com minério. Porém, o Plano de Exploração da Rodovia, ao qual O TEMPO teve acesso, prevê que a duplicação do trecho ocorra somente entre o quarto e o sexto ano de concessão.

Para o prefeito de Ouro Branco, Hélio Campos (sem partido), os municípios não podem aguardar tanto tempo por soluções para os problemas da rodovia. “Por enquanto, essa concessão não vai refletir em nada. Temos praticamente um acidente por dia, muitas mortes. Se não tivermos a rodovia do minério, continuaremos tendo problemas com as carretas”, adverte. 

Software precisa ser criado para o projeto

Três empresas já foram consultadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) para atuar no desenvolvimento de um software que possa identificar, por meio de Inteligência Artificial (IA), diferentes infrações de trânsito flagradas por câmeras de monitoramento. Segundo o chefe de comunicação social da corporação em Minas, inspetor Aristides Júnior, uma vez selecionado o melhor modelo, o projeto-piloto a ser adotado, inicialmente na BR–040, em Nova Lima, poderá ser replicado por outras prefeituras. 

Para atender à demanda dos municípios no trecho até Conselheiro Lafaiete, porém, o inspetor explica que ainda são necessários estudos técnicos. “Precisaríamos primeiro mapear a região para, com base nas estatísticas de acidentes, calcular o número de câmeras e os pontos de instalação. Aí, podemos chamar os prefeitos para apresentar os dados e os custos”, esclarece. Vale lembrar que ainda não há data para o início do monitoramento usando IA.

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