Polêmica

Árvores ameaçadas foram plantadas em 2013 para compensar reforma do Mineirão

Segundo conselheiros do Compur, as árvores eram parte do acordo para o corte das 777 árvores da esplanada durante a reforma do Mineirão para a Copa do Mundo

Por José Vítor Camilo
Publicado em 01 de março de 2024 | 15:37
 
 
 
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As 17 árvores já cortadas e as outras 46 que seguem ameaçadas pela realização da corrida de Stock Car no entorno do Mineirão, foram plantadas há 11 anos atrás, em 2013, como forma de compensar o corte de outras 777 durante as reformas do estádio Mineirão para a Copa do Mundo. A informação consta em documento, assinado por dois integrantes do Conselho Municipal de Política Urbana (Compur), que pede a reversão da decisão do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam) que permitiu a supressão dos indivíduos arbóreos.

O documento é assinado pela arquiteta e urbanista Maria Edwiges Leal e do engenheiro civil Sávio Nunes, que chegam a dizer que a remoção das árvores 11 anos após o plantio é "totalmente sem sentido". "Elas ainda estão em fase de crescimento, e seria necessário mais uma década para que outras árvores atingissem o mesmo estágio de desenvolvimento", argumentam.

Os conselheiros citam ainda que as intervenções no estádio foram submetidas à análise da Gerência de Áreas Verdes e Arborização Urbana (Geava), da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA). No parecer técnico do órgão técnico ambiental foram apontados potenciais danos ambientais não só do corte, mas, também, da realização da corrida de automóveis naquele local.

"Dentre os impactos nocivos, apontou-se a geração de ruídos intensos, acima dos limites permitidos, o que representa um risco à saúde e causa mais um incômodo à população que reside nas proximidades do Mineirão e da Lagoa da Pampulha. Esses habitantes já enfrentam transtornos decorrentes de jogos e grandes eventos sonoros do Mineirão, e a corrida só agravaria essa situação. Além disso, os ruídos provocam estresse na fauna local, que já sofrerá o impacto negativo da supressão vegetal", pondera o documento.

O membros do Compur pontuaram ainda que entre as árvores que estão sendo "manejadas" estão alguns Ipês-amarelos, que são protegidos por lei e deveriam ser "imunes" ao corte. A reportagem procurou a Prefeitura de BH sobre a informação, mas, até o momento, o município não se manifestou.

Especialistas alertam para aumento de até 5º C no local

O corte de árvores em uma cidade grande traz, segundo especialistas, uma série de problemas, sendo o mais imediato deles o aumento da temperatura do próprio local do "desmate". É o que explica o arquiteto e urbanista André Luiz Prado, coordenador dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil do Ibmec BH.

"Os impactos negativos mais perceptíveis, no primeiro momento, vão acontecer em termos de microclima daquele lugar. Do ponto de vista térmico, você tem um ganho de temperatura da ordem de 3, 4 ou até 5º C. Isso pode gerar uma ilha de calor. Então, as avenidas do entorno do Mineirão sem as árvores, sem o sombreamento natural, vão ganhar um incremento de temperatura", afirma.

Mestre e doutor em saneamento, meio ambiente e recursos hídricos pela UFMG, João Bosco Senra, também defende que a perda destes sombreamentos é o primeiro impacto a ser sentido quando árvores são retiradas. "Após 11 anos, essas árvores já davam sombras. As que serão plantadas vão levar esse tempo para atingir o mesmo patamar, atingir o seu papel na neutralização de carbono, que leva muito mais tempo", pondera Senra. 

"Há também um impacto com relação à drenagem urbana, pois você perde uma área de infiltração, aumentando o risco de inundações. Perde também um espaço para as espécies de animais. É um efeito muito grande em uma cidade, e isso justamente no momento em que se discute a mudança climática", conclui o especialista.

Para Senra, a PBH está dando um "péssimo exemplo" ao arrancar as árvores. "Ela já faziam parte de uma compensação que não foi cumprida na sua totalidade. A informação que temos é que só cumpriram com cerca de 40% do que foi acertado na época da obra no Mineirão. A cidade já perdeu na época e, agora, está perdendo também as que foram plantadas. Então, é um efeito dominó. A PBH, que deveria estar exigindo que o estádio cumpra o prometido, está, na verdade, cortando as que já foram plantadas. É um contrassenso total", argumentou.

Corte de árvores e manifestações

A Justiça mineira mandou suspender o corte de árvores no entorno do Mineirão, na região da Pampulha, em Belo Horizonte, para realização do evento Stock Car BH. A decisão é do juiz Thiago Grazziane Gandra, da 3ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública, da comarca de Belo Horizonte, e foi publicada na tarde desta quinta-feira (29 de fevereiro).

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) havia iniciado o corte de 63 árvores próximas ao estádio nessa quarta (28), o que gerou uma série de protestos. A partir de agora, a Justiça determinou a multa de R$ 50 mil para cada árvore que for derrubada antes do fim do processo.  

O magistrado considerou que há quesitos que ainda devem ser avaliados na documentação da prefeitura que autorizou as intervenções na região da Pampulha. Nesse meio tempo, no entanto, o juiz Gandra decidiu pela prevenção das espécies das árvores no entorno do Mineirão. Ainda não há uma definição se a supressão dar árvores irá continuar.

A Stock Car

Belo Horizonte será uma das sedes da Stock Car pelos próximos 5 anos, conforme acordo assinado pela organização do evento junto com a Prefeitura de Belo Horizonte em dezembro de 2023. A realização do evento será no entorno do Mineirão. A primeira corrida irá ocorrer entre os dias 15 e 18 de agosto de 2024.

De acordo com Sérgio Sette Câmara, CEO da Speed Seven, uma das organizadoras da corrida em Belo Horizonte, são muitos os benefícios que a realização do GP trará para a cidade. "Serão injetados R$ 200 milhões na economia do município e serão arrecadados cerca de R$ 20 milhões de impostos por ano. É um evento que vai incrementar o setor hoteleiro, de transportes, de bares e restaurantes. Esperamos criar cerca de 1.500 empregos diretos e indiretos”, comentou.

Ainda segundo os organizadores, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) levantou que o evento poderá gerar um impacto de até R$ 284,6 milhões ao município ao longo dos cinco anos de realização das corridas.

A empresa alega ainda que a sustentabilidade, inclusão e segurança são pilares do evento, planejando "medidas para mitigar o impacto sonoro do evento, com a instalação de barreiras acústicas no circuito, principalmente próximo à UFMG".

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