A triste notícia da morte do escritor Luis Fernando Verissimo na manhã deste sábado (30), em Porto Alegre, aos 88 anos, repercutiu no 3º Fliparacatu - Festival Literário de Paracatu -, que começou na última quarta (27) e segue até este domingo (31), no município mineiro.

Afonso Borges, escritor, jornalista, idealizador do evento e amigo de longa data de Verissimo, abriu a programação do dia prestando uma homenagem ao cronista gaúcho. “São 39 anos de amizade”, disse Borges, muito emocionado. A amizade entre Afonso e Luis Fernando remonta aos anos 1980, quando Borges criou o projeto Sempre um Papo (em 1986) para aproximar escritores e leitores.

Verissimo passou a ser presença frequente nesses encontros literários, e os dois percorreram o Brasil juntos em inúmeras ocasiões, "do Acre a Curitiba", como relatou Borges. O idealizador do Fliparacatu afirmou que precisava derrubar alguns mitos atribuídos ao amigo, como a fama de “falar pouco”. Para ele, Verissimo nunca foi de poucas palavras.

Lembrou, por exemplo, de um encontro em Brasília nos anos 1990 em que centenas de pessoas lotaram o auditório, sendo necessário instalar um telão para o público que ficou do lado de fora. Borges recorda que convenceu Verissimo a fazer duas rodadas de conversa, até que precisou intervir: “Luis Fernando, você tem que parar de falar pra gente terminar o evento”, contou. Relembrou ainda que o escritor costumava dizer que Afonso o fazia falar demais.

Afonso Borges destacou que a matéria-prima de Verissimo era o cotidiano e que ele transformava pequenas cenas do dia a dia em crônicas brilhantes, recheadas de humor. Mencionou ter “centenas de histórias” vividas ao lado do amigo, fruto dessas andanças literárias pelo país. Mesmo sabendo que o escritor enfrentava problemas de saúde sérios nos últimos anos, “ninguém estava realmente preparado para sua partida”, confessou.

O trabalho realizado no Fliparacatu e em outros projetos sempre fortalece o legado de Verissimo, que jamais será esquecido. “Estamos aqui para celebrar a vida de Luis Fernando”, disse Borges. A homenagem foi encerrada com um vídeo apresentado no telão do evento com uma fala de Veríssimo em um dos eventos do Sempre Um Papo, em que ele, mais uma vez, mostrou o motivo de ser a “porta de entrada” literária para leitores infantis e adultos : “O importante é criar uma relação prazerosa com o livro”.

LEIA NA ÍNTEGRA O DISCURSO DE AFONSO BORGES EM HOMENAGEM A LUIS FERNANDO VERISSIMO

“Vou tentar [falar]… São 39 anos de amizade […] estou tentando, gente [choro]. Eu sei que a Lúcia, a Fernanda e a família da Lúcia estão nos assistindo em Porto Alegre. Então, fica primeiro um abraço [choro].

Eu tenho que falar, porque tem muitos mitos sobre o Luis Fernando que eu gostaria de desmontar. O primeiro deles é que ele falava pouco. Não! Não, Luis Fernando não falava pouco. Luis Fernando falava com economia, com síntese, com inteligência. Segundo, Luis Fernando sempre pautou a vida dele pelo jornalismo. Ele era um jornalista. Uma pessoa que sabia transferir do cotidiano da vida comum (da vida das pessoas) com qualidade (excelente qualidade!), com elegância, com inteligência, com resistência democrática, para o mundo da crônica.

Ele é asseguramento um dos maiores cronistas da língua portuguesa. Vocês, crianças, jovens, que estão aqui leiam seus livros de crônicas. Ele publicou mais de 80 livros de crônicas entre outros gêneros e fez muita crônica para crianças, jovens e adolescentes. Essa obra dele vai permanecer porque a matéria-prima dele era o cotidiano. Era nossa vida.

Eu tenho centenas de casos que a gente pode contar aqui das próprias crônicas que são frutos do nosso cotidiano, do que a gente vive dentro de casa. A gente sabia que Luis Fernando estava nesse processo há muitos anos e a gente, de certa forma, se preparou, né? Os seus amigos… E essa generosidade que ele teve não nos prepara. Ninguém está preparado para este momento e eu tive tantos casos divertidos, engraçados [com ele].

A gente conviveu durante tanto tempo viajando pelo Brasil… Acre, Curitiba, Belo Horizonte… Em Brasília, eu tive uma situação maravilhosa, porque todo mundo fala que ele não fala. Lá tinha tanta gente (400 pessoas dentro e mais 600 fora), que eu pedi para fazerem igual cinema [risos] uma sessão, às 19h, e outra, às 22h. Ele topou. E eu falei uma coisa no final inimaginável em matéria de Luis Fernando Verissimo. Ele falou tanto, tanto, tanto que, na segunda sessão, que já era quase 23h, eu falei: “Fernando, eu nunca acreditei que eu ia falar isso, mas eu vou ter que pedir para você parar de falar [risos].”

E ele brincava, que a única pessoa que sabia fazer ele falar era eu, nesses anos todos de trabalho. Agora, recomposto eu queria homenagear, celebrar a obra de Luis Fernando Verissimo e dizer que este festival, o nosso trabalho, a nossa luta, nossa lida pela literatura, que está aqui representada pelos nossos autores, representada por vocês, que são leitores,  permaneça. Nosso trabalho aqui é em homenagem a ele e sempre foi. E ele nunca será esquecido.”