Rejane Faria, 61, pede desculpas e culpa a gripe pela “voz cavernosa”. Depois solta uma gargalhada. A atriz mineira está passando uma temporada em São Paulo. A rotina tem sido puxada, batidão de 11h à meia-noite. Rejane está gravando uma série para o Canal Brasil. “Notícias Populares”, dirigida pelo conterrâneo Marcelo Caetano, da divertida e deliciosa “Hit Parade”, vai voltar aos anos 1990, quando o jornal circulava, para contar histórias do famoso periódico. As filmagens começaram em agosto e terminam agora, em setembro. Na sequência, a atriz parte para a Paraíba, onde vai rodar um longa. “Graças a Deus os trabalhos não param”, ela comenta em entrevista a O TEMPO.

Se não faltam trabalhos, homenagens também não. Na última semana, Rejane foi celebrada pela 2ª Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte; agora, é a vez da 16ª edição da CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte. O evento, que começa nesta terça-feira (20) e vai até domingo (veja detalhes sobre a programação no fim da matéria), vai exibir, ao todo, oito filmes em que a atriz atua: seis curtas – “Levantar de um Golpe”, “Nada”, “Quinze”, “Vitória”, “Rapsódia para um Homem Negro” e “Super Estrela Prateada” –, além dos longas “Temporada” e o elogiadíssimo “Marte Um”, recentemente escolhido para ser o representante do Brasil na disputa por uma vaga no Oscar do ano que vem.

A seleção feita pela curadoria da CineBH, que reúne obras de 2014 a 2022, realça a parceria de Rejane com jovens realizadores mineiros, especialmente com a turma da Filmes de Plástico, produtora nascida na periferia de Contagem em 2009 e hoje sediada em Belo Horizonte, responsável por cinco produções escolhidas para a Mostra Homenagem do festival, incluindo “Marte Um”.

Embora, nos últimos anos, tenha feito muitos trabalhos fora de BH – de séries como “Segunda Chamada”, da Globo, a “Colônia”, criação original do Canal Brasil, passando por curtas e longas no cinema –, Rejane considerou adequado e oportuno destacar sua relação com a cidade.

“Eu queria muito que BH tivesse esse destaque. É onde comecei a trabalhar, que me projetou para outros lugares. O cinema só reforça meu sentimento de pertencimento a BH”, diz a atriz, que anseia por ver a capital mineira como uma potência do cinema nacional: “Logo, logo as pessoas estarão atentas a isso. A gente ficava olhando atores e atrizes indo embora, hoje está acontecendo o contrário”. Sobre a retrospectiva na CineBH, ela comemora. “Conta minha história. É muito significativo para mim”, orgulha-se.

Corrida pelo Oscar

E por falar em “Marte Um”, Rejane Faria conta como recebeu a notícia de que o filme fora escolhido para tentar uma vaga no Oscar. Antes, ela relembra como foi intensa a turnê de divulgação do filme dirigido por Gabriel Martins: “Estreamos fora do país, nos dividimos e cada um tentava ir para um lugar. Quando chegamos, já tinha Gramado, depois a estreia nacional, cada ator foi para um Estado. Quando faltavam as estreias no Nordeste, veio a notícia do Oscar”. 

Doze horas antes do anúncio da Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais (ABCAA), na manhã daquele 5 de setembro, a equipe do longa começou a trocar mensagens no grupo de WhatsApp. Ansiedade, como dizem por aqui, era mato. Rejane mora em Esmeraldas, na região metropolitana de BH.

Dentro do carro, quando se dirigia à capital mineira ao lado do marido para almoçar na casa da mãe, a atriz começou a receber uma, duas, três, dezenas de mensagens no celular. “Foi incrível, ficamos gritando e comemorando dentro do carro. O almoço virou uma festa, o telefone não parava. Só consegui processar o que tinha acontecido à noite”, comenta.

“Marte Um” é dirigido por um homem negro, tem um elenco formado majoritariamente por pessoas negras e conta a história de uma família preta da periferia de Contagem. A indicação é simbólica, reafirma muitas coisas, diz “Reja”, como é carinhosamente chamada. Ao levar para as telas a linguagem universal do amor e da esperança, o filme tem chances de chegar à premiação em Los Angeles, marcada para março do ano que vem, é o que acredita a mineira.

A resposta da plateia no Black Star Film Festival, na Filadélfia, emocionou a atriz. No maior evento de cinema negro do mundo, “Marte Um” ganhou o prêmio de melhor filme. “Foi uma comoção coletiva, a reação em todos os lugares é muito igual à que temos no Brasil. Temos chances artísticas de chegar até lá, mas é uma corrida com pessoas de muita grana. Aí já é outra história”, observa.

15 anos de Quatroloscinco

Rejane Faria iniciou a carreira no início da década de 1990, aos 32 anos, quando descobriu um grupo de teatro nos Correios, onde trabalhava. Convidada para integrar o elenco do coletivo, saiu de um palco – era vocalista de uma banda de pop rock – para outro. Dali em diante, fez cursos de teatro e conheceu pessoas que faziam teatro contemporâneo em BH, como Cida Falabella, Juarez Dias Guimarães, Luiz Arthur e Ione de Medeiros.

Em 2006, ingressou no curso de graduação da UFMG, onde encontraria os parceiros com os quais fundaria o grupo Quatroloscinco – Teatro do Comum. A estreia veio em novembro de 2007 com a performance “Descaminho”, realizada no Teatro Francisco Nunes e no Parque Municipal. Para celebrar os 15 anos de estrada, a companhia mineira começa uma temporada comemorativa com a apresentação de “Fauna” (2016), nesta sexta-feira (23), em Itabirito. No dia 27, o Quatroloscinco realiza uma live dentro do projeto Sesc Online.

Em São Paulo, no Sesc Vila Mariana, o espetáculo “Tragédia” (2019) ficará em cartaz por duas semanas, com sete datas entre 29 de setembro e 9 de outubro. Duas peças do grupo (ainda não definidas) também estão na programação da Mostra Minas Funarte, que acontece em Belo Horizonte de 14 a 16 de outubro e de 21 a 23 do mesmo mês. De 24 a 28 de outubro, o Quatroloscinco realiza oficina no Centro de Referência das Juventudes (CRJ).

Por fim, em novembro e dezembro, está programada a “Mostra 15 Anos”, com quatro espetáculos do repertório da companhia. Em 2023, as atividades continuam: filmagens de leituras dramáticas dos textos das peças que não estão mais sendo apresentadas, a criação de um minidoc sobre os 15 anos do grupo e a realização de um projeto com pequenas performances em parceria com os diretores Ricardo Alves Jr., Sara Rojo e Eid Ribeiro.

“O Quatroloscinco é fundamental para mim. Sempre investimos em um processo de criação coletiva pensando em material autoral o tempo todo. Escrevemos nossos espetáculos, criamos nossas encenações, e assim vamos conseguindo falar do que a gente deseja”, afirma Rejane.

Tal processo autoral no teatro acaba reverberando e influenciando também o trabalho da atriz no cinema: “Sempre estou querendo saber o que as pessoas que contracenam comigo estão pensando sobre a obra. Tento um diálogo constante, respeitando muito o diretor e o autor. O Quatroloscinco me deu esse desejo”.

CineBH: 120 filmes nacionais e internacionais

Após dois anos restrita ao universo online, a CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte chega à sua 16ª edição e volta ao formato presencial. De terça (20) a domingo (25), o festival ocupa 11 espaços da capital mineira: Cine Theatro Brasil Vallourec, Una Cine Belas Artes, Cine Humberto Mauro, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Cine Sesc Palladium, Cine Santa Tereza, Filme de Rua, Cinema na Fachada – Espanca, praça da Liberdade, Casa da Mostra e Teatro Sesiminas.

Serão exibidos 120 filmes nacionais e internacionais em pré-estreias, oito mostras temáticas, inclusive para o público infantil, e sessões populares a céu aberto. Toda a programação é gratuita.

Debates, oficinas, encontros de negócios, masterclasses e workshops também fazem parte da programação. O documentário musical “Belchior – Apenas um Coração Selvagem” (Camilo Cavalcanti e Natália Dias), “Noites Alienígenas” (Sérgio de Carvalho), destaque no Festival de Gramado com seis Kikitos, a pré-estreia de “Os Ossos da Saudade”, com direção do mineiro Marcos Pimentel, e o Programa de Formação Audiovisual, que reúne mais de 50 profissionais brasileiros e estrangeiros no centro de 43 atividades formativas, são alguns dos destaques da 16ª Mostra CineBH.

A programação do festival pode ser acessada no site oficial do evento: cinebh.com.br.