Que destino levou o Lobo Mau após destruir a casa dos porquinhos? Será que ele se arrependeu e se tornou alguém melhor? No livro “Os Três Porquinhos em: Depois do Sopro do Lobo”, a escritora e poeta Palmira Heine faz uma releitura do clássico da literatura infantil, trazendo contemporaneidade e diversidade à trama. A obra conta ainda com ilustrações de Matheus Furtado.
Nessa nova versão, até o Lobo Mau se arrepende dos seus erros, lida com as consequências dos equívocos do passado e decide mudar de vida. Na releitura,
Prático é negro e trabalha em uma grande empresa de marketing; Heitor cuida de plantações e animais em uma fazenda; já Cícero mora na praia e passa os dias surfando.
Quando um deles recebe uma mensagem da terapeuta Coruja sobre o estado mental do Lobo Mau, os três não hesitam em tomar uma atitude. Antes considerado vilão, ele se resguardou após as queimaduras na chaminé. Sem quase nunca sair da toca por causa da tristeza, começou a repensar todas as antigas decisões equivocadas e quis mudar, mas não sabia o que fazer para alcançar esse objetivo.
Os porquinhos decidem visitá-lo, porque nenhum deles guarda mágoas do passado, e tentam encontrar um jeito de ajudar o ex-antagonista a se reencontrar a partir das habilidades que um dia foram destruidoras.
A escritora conta que a ideia do livro surgiu a partir da necessidade de abordar a questão “de que não podemos ser colocados sempre em caixinhas e que, muitas vezes, somos construídos através de estereótipos fixos que não permitem a mudança. O fato é que o lobo nos contos de fada sempre é trazido como mau, perverso, mas será que sempre somos da mesma forma a vida inteira? Será que não podemos nos construir como seres em transformação? Acredito que todos têm coisas boas a oferecer, têm algo que sabem fazer bem”.
Palmira destaca que “o lobo, arrependendo-se de seu passado de vilão e evoluindo como personagem, quer recomeçar, mas, por sempre ser considerado mau, sente dificuldade. É aí que entram os porquinhos, que também evoluíram na história e o ajudam a descobrir suas potencialidades e qualidades”.
É onde entra um elemento novo e inusitado: a música. “A música entra como forma de redenção e transformação do lobo, como meio de oferecer ao mundo algo valoroso. O lobo, cujo sopro é muito bom, se descobre como ótimo saxofonista”, entrega a escritora.
Ela fala sobre os sentimentos que quis explorar no livro. “A ideia de que somos seres em transformação e em crescimento e que não podemos nos reduzir a visões estereotipadas. O sentimento de que sempre podemos ser melhores do que fomos e oferecer coisas boas ao mundo. Na literatura infantil, é preciso trazer reflexões sobre empatia, respeito ao outro, ao diferente, acolhimento, amor. Esses valores podem ser trazidos de forma lúdica e interativa para as crianças a fim de construirmos um mundo com menos preconceito e mais fraterno”.
Personagens têm identidade atual
Todo mundo me julga! Me chamar de lobo mau o tempo todo é muito desagradável. Não aguento mais isso! Ninguém se preocupa em saber se eu tenho coisas boas para oferecer ao mundo”, diz o protagonista em um trecho do livro.
Quem deu vida aos personagens da narrativa foi o ilustrador Matheus Furtado. Ele conta que desenha desde os 3 anos e já ilustrou mais de 50 livros. Pai de cinco filhos, ele conta como foi seu processo criativo. “Como o livro é uma releitura de um clássico, procurei, primeiramente, referências de como ele já havia sido ilustrado. A partir disso, busquei criar personagens com uma identidade mais contemporânea, semelhante aos humanos. Um dos pedidos da autora foi que um dos porquinhos fosse negro, e achei muito interessante a preocupação em fazer com que todos os leitores se sintam incluídos”.
Furtado relembra que, na primeira vez que leu o livro, achou a história muito interessante e criativa. “Acredito que ela pode ensinar às crianças, primeiramente, sobre perdão, mesmo quando alguém faz algo gravíssimo, como é o caso do lobo na história. Todos merecem uma segunda chance. Em segundo lugar, ensina compaixão, pois, além de perdoar, os porquinhos se preocupam em encontrar uma forma adequada de ajudar o lobo”. (AED)
“Os Três Porquinhos em: Depois do Sopro do Lobo”, de Palmira Heine, com ilustrações de Matheus Furtado, editora Casulinho, 20 páginas, R$ 45.
Onde comprar: Site Palmira Heine
Maria Toinha navega por suas infâncias em "Sonhaçu"
Maria Toinha, 88, é mestra da umbanda há mais de 70 anos, vive em Canaan, no município de Trairi, no Ceará e coordena o Coletivo Encantarias. Ela acaba de lançar “Sonhaçu: As Infâncias Encantadas de Maria Toinha”, quarto livro da série “A Mística dos Encantados”.
Neste livro, em parceria com o neto Marcos Andrade, doutorando em sociologia pela Universidade Federal do Ceará, ela navega por suas infâncias na Jandaíra e na umbanda cearense, reconstruindo, por meio de lampejos poéticos, os primeiros caminhos que marcam sua memória. O Lagamar, o reisado, a quinta de cajueiros, a maleita, a Lavagem, os encantados, o terreiro itinerante, mãe Tina, a moça aflita do Curral Grande, os curadores e andarilhos comparecem na narrativa como encruzilhadas que guiam a lugares-gentes-tempos-estórias-sonhos, que se deslocam para vencer as marcações temporais do desencanto.
Maria Toinha diz que o livro tem a proposta de “despertar a alma do mundo para os sonhos que gestamos em nossos terreiros. Dos quintais de nossa casa, das encruzilhadas de nossas histórias ou do espaço ritual de nossos trabalhos brotam encantamentos que podem curar esse mundo da marcha violenta que levará à destruição de todos”.
Do alto de seus 88 anos, a mestra transforma-se na menina Quinquinha, que desperta a tempo de contar histórias para encher a boca da noite, oferecendo o sonho como antídoto contra o desencanto. (AED)
“Sonhaçu: As Infâncias Encantadas de Maria Toinha”, Maria Toinha e Marcos Andrade, editora Edições & Publicações, 194 páginas, R$ 40. Onde comprar: www.amisticadosencantados.com.br