Esotérico

O sentir deveria ser o ator principal da vida

A psicóloga, psicanalista e psicoterapeuta Beatriz Breves fundou a Sociedade da Ciência do Sentir


Publicado em 07 de dezembro de 2021 | 03:00
 
 
 
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A senhora fundou a Sociedade da Ciência do Sentir. Qual sua proposta? Cada vez mais o ser humano se deixa dominar por seus sentimentos de raiva, vingança, ódio, prepotência etc., o que vem elevando a destrutividade a níveis acima dos toleráveis à manutenção da vida. Com tanta violência, eu não hesitaria em dizer que, se os seres humanos não iniciarem um investimento em seus sentimentos amorosos e na relação afetiva com as outras espécies do planeta, aprendendo, dessa forma, a administrar os seus sentimentos destrutivos, se tornará uma espécie extinta pela autodestruição. Seguindo essa premissa, a ciência do sentir se propõe ao resgate do sentir e a demonstrar a sua importância na vida cotidiana das pessoas: conecte-se aos seus sentimentos e se torne uma pessoa melhor e mais feliz. 

 A sociedade contemporânea desvinculou-se do sentir? A sociedade contemporânea vem concebendo o universo, com tudo o que há nele, inclusive o ser humano, sob a ótica de um modelo mecanicista newtoniano, que vem consagrar o materialismo e conceder primazia à razão. Nesse contexto, o sentir não encontra lugar de destaque, muito pelo contrário, talvez até pela ideia de que máquinas não sentem, concebe-se o ser humano evoluído como aquele que reprime e submete os seus sentimentos ao domínio do intelecto. Entretanto, concebendo-se o universo sob a ótica vibracional, a natureza é vista como um complexo vibracional, em que o ser humano, também como um complexo vibracional, institui-se enquanto ser na experiência do sentir sentimentos, sensações e pensamentos, pois só sabemos que pensamos porque podemos sentir o que pensamos. 

 De que tipos de sentimento estamos falando aqui? Parece-me que vivemos um mundo com múltiplas fraturas, provocadas por sentimentos como intolerância, raiva, vingança. Pegamos uma via errada? Entendo ser importante compreender que a responsabilidade pelas múltiplas fraturas que estamos vivendo no mundo não é da intolerância, da raiva, da vingança e de nenhum outro sentimento, mas do ser humano, pelo uso destrutivo que vem fazendo de seus sentimentos. Até porque o sentimento de intolerância pode se tornar benéfico se a pessoa não tolerar o intolerável. Da mesma forma que o de raiva pode servir de impulso para conquistas e realizações importantes quando se agrega ao sentimento de força e se transforma no sentimento de garra. E o sentimento de vingança, para quem sabe fazer um bom uso dele, serve de alerta, pois possibilita à pessoa sentir o quanto está se sentindo machucada, portanto necessitando de cuidados amorosos para si. 

 Onde, então, estaria o equívoco? O equívoco da via percorrida, que eu não diria errada, mas conforme o pensamento de uma época, foi o de pensar o ser humano, a natureza, enfim, o universo como sendo constituído por uma engrenagem mecânica e determinista. Atualmente, os estudos físicos apontam para a visão de universo como resultado de uma estrutura vibracional e probabilística. Quanto aos sentimentos, os mais de 500 existentes, possibilitam à pessoa, dependendo do grau de satisfação que esteja experimentando, maior ou menor facilidade para lidar com os problemas do dia a dia. 

 A senhora acaba de lançar seu nono livro, “Entre o Mistério e a Ignorância”, em que relata sua experiência na Índia e no Peru. Quais sentimentos experimentou em países tão distintos? Na Índia, ao estar diante do rio Ganges e daqueles corpos sendo cremados em uma fogueira ao ar livre, senti o agora. Sentindo o mistério, eu experimentei a fronteira que demarcava os limites entre a vida e a morte. Naquele momento compreendi o presente como sendo o único instante que possibilita a transformação. No Peru, estando diante do que os incas construíram, sem nunca terem entrado em contato com nenhum dos nossos conhecimentos, senti a ignorância que domina a todos nós. E foi assim, entre a Índia e o Peru, portanto, entre o mistério e a ignorância, que pude vivenciar o que me inspirou agregar a ciência do sentir à ciência da complexidade. Inspiração que me possibilitou aprofundar o campo da realidade psíquica. 

A expressão da fé e a espiritualidade também são contempladas em seu estudo? Em uma visão vibracional de universo, em que a materialidade seria apenas uma de suas diversas possibilidades de manifestações, a espiritualidade inevitavelmente se faz presente. Entretanto, a espiritualidade como é compreendida pela ciência do sentir não oferece nenhuma definição ou proposta de Deus, pois não assimila uma contemplação espiritualista da natureza feita pela lógica da razão, mas pela conexão com o sentimento de reconhecimento. Como escrevi em “O Eu Sensível”: “Sinto Deus. Mas não o Deus criado pelos homens, um Deus que julga, condena, pune, maltrata e, por vezes, até mata. Sinto o Deus cósmico, que da minha condição humana não tenho como interpretar, mas apenas sentir (…)”. 

O mistério e a finitude permeiam nossa vida. Como lidar com esses sentimentos? Entendo que grande parte das pessoas, ao se deparar com a finitude, mais do que sofrer com a ideia da partida, sofre por não ter vivido uma vida feliz e realizada. Uma constatação que aponta para a importância de se valorizar o universo subjetivo, a realidade psíquica e a complexidade dos sentimentos na evolução e expansão pessoal.  

Como escrevi: “A lição que fica é a de que já está mais que na hora de o ser humano assumir a sua ignorância diante do mistério e, aprendendo a investir e a lidar com os seus sentimentos, conquistar melhor qualidade de vida para si e para os demais seres que com ele habitam o planeta Terra, ou melhor, a Mãe Terra – Pachamama. Até porque somos transitórios”. 

 Lançamento

“Entre o Mistério e a Ignorância: O Desvendar da Psique Humana” 

Beatriz Breves 

Editora Mauad 

160 páginas 

R$ 54 

e-book: R$ 35,10 

 

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