Ouro Preto. Mesmo se formando em engenharia de minas e estando à frente do cargo de professor na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) – não tendo seguido a carreira do pai, um reconhecido mestre da cantaria da região –, Carlos Alberto Pereira contribuiu para deixar vivo o legado de mestre Juca. Teve não apenas sensibilidade, mas a visão de replicar seus conhecimentos e a multidisciplinaridade educacional de unir os saberes da arte de esculpir em grandes blocos de pedra, os cuidados com o meio ambiente, a educação patrimonial e a história ouro-pretana a um projeto de extensão da Ufop. 

“Não tenho a destreza e habilidade que pai tinha com as ferramentas e as pedras, mas, seja como for, trabalhei com ele e acho que consegui multiplicar um pouco do seu legado”, diz, emocionado. O professor nunca se refere ao pai como “meu pai”. “Ele não era só meu; ao longo da vida, o dividi com muitas pessoas”, diz. 

A cantaria – arte de talhar na pedra dura que dá origem a portais de igrejas, púlpitos, pias, degraus, chafarizes e até pontes – chegou ao Brasil pelas mãos dos portugueses. E foi em Ouro Preto, e depois de muitos anos de trabalhos variados, que José Raimundo Pereira, o Seu Juca, falecido em 2006, se encantou com essa arte e dedicou parte da vida a esculpir as peças. 

A história do mestre Juca e a dessa arte integram o livro “A Arte da Cantaria” (editora C/Arte), uma das primeiras obras editadas pelo filho, Carlos Alberto, em parceria com Antonio Liccardo e Fabiano Gomes da Silva, em homenagem ao mestre, uma das grandes referências em cantaria que o Brasil teve e um dos últimos mestres canteiros em atividade no país. Ele ganhou, além do livro, que resgata a história do ofício, um projeto de extensão pela Ufop, do qual participou ativamente entre os anos de 2000 e 2006. 

Saber valorizado

Segundo Carlos Alberto, o projeto Curso de Extensão em Cantaria envolveu mais de 160 alunos de diversas graduações da Ufop, que atuavam como monitores, e incontáveis alunos do ensino fundamental da região.

“O objetivo era justamente valorizar esse saber com um olhar para as possibilidades de restauro das peças em cantaria, distribuídas por toda a cidade, buscando ofertar para quem participasse um sentido maior de pertencimento à comunidade e estimular o conhecimento de tudo isso às crianças”, conta o professor Carlos Alberto.

De 2000 a 2006, quando Seu Juca ainda era vivo, o Curso de Extensão em Cantaria foi ministrado para adultos, além de um de educação patrimonial, para crianças do quinto ano, com idade média de 11 anos. 

“De todos que passaram aqui, tive notícia de um que recentemente foi convidado para trabalhar com restauro em Batalha, em Portugal. Fiquei muito feliz de saber que uma pessoa da nossa região que aprendeu com o Seu Juca essa arte, que veio dos portugueses, está lá agora como profissional”, diz, comovido.

Ao longo de 20 anos, o projeto de extensão em cantaria formou mestres canteiros e despertou em uma variada centena de crianças o conhecimento, o amor e o respeito pela história de sua região. Além disso, incentivou a montagem de quatro bibliotecas na região de Ouro Preto, com uma estante especial formada por publicações especializadas na arte e história locais. 

De 2000 a 2020, o projeto teve vários e importantes apoiadores, como Petrobras, Fundação Gorceix e Fapemig. “Veio a pandemia e, agora, estamos parados por conta da greve das universidades federais e por falta de patrocínio para o transporte das crianças até o campus”, comenta Carlos Alberto. 

Na área cedida pela Escola de Minas para as atividades, foi criado um canteiro de ervas, temperos, verduras e legumes, onde meninos e meninas aprendem também sobre manejo da terra, cultivo de alimentos e sustentabilidade – um aprendizado rico e multidisciplinar. 

Comunidade e universidade

Além de todas essas ações, na visão do professor Carlos Alberto, dois dos grandes frutos desse trabalho foram a aproximação da comunidade com a universidade e a oportunidade de registrar, por meio de artigos e publicações, todas essas experiências desenvolvidas. 

“Muitos pais de crianças nunca tinham vindo à universidade, pois achavam que as portas daqui estavam fechadas para eles; e muitas crianças foram despertadas para o ensino superior depois de participar das atividades conosco. E conseguimos publicar vários artigos sobre todos esses aprendizados. Além do livro “A Arte da Cantaria”, lançamos “Trupicando em Rochas: Comunidade, Universidade, Cultura e Educação na Oficina de Cantaria (2000-2020)” e “O Espaço e os Construtores de Mariana (Século VIII)”, ambos pela Editora Ufop. Mais do que repassar conhecimento ou ensinar, nesse tempo todo, posso dizer que fui eu que aprendi muito com todos eles”, complementa.


Quem foi mestre Juca?

Ouro-pretano. 
José Raimundo Pereira, popularmente conhecido como “mestre Juca”, nasceu em Ouro Preto, em 1923. Filho de uma dona de casa e um tropeiro, começou a trabalhar aos 11 anos, numa fábrica de chá. Aos 16, conseguiu vaga na Casa de Câmara e Cadeia, onde hoje é o Museu da Inconfidência. Os detentos foram transferidos para o presídio de Ribeirão das Neves, na Grande BH, e o espaço foi restaurado para se transformar em museu. 

De pedreiro a canteiro. 
“Foi quando ele teve contato com canteiros da Espanha e de Portugal que vieram a Ouro Preto. Nessa época, ele trabalhava como auxiliar de pedreiro. Depois, trabalhou por 25 anos na Alcan, fábrica de alumínio, onde fazia de tudo. Na década de 1970, foi convidado a trabalhar na Ufop, onde ficou até 1980, exercendo vários tipos de funções”, lembra o filho, Carlos Alberto. 

Iphan.
Devido a um acordo da universidade com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Juca foi transferido. Como legítimo mestre canteiro autodidata que se tornou, passou a ministrar cursos na Fundação de Arte em Ouro Preto (Faop) e, em 2000, começou as oficinas de cantaria apoiadas pela Pró-Reitoria de Extensão da Ufop.