O Governo do Distrito Federal (GDF) deve inaugurar na semana que vem uma obra anunciada para a Copa de 2014, ao custo de R$ 19 milhões – três vezes mais que o valor inicial – e nove anos de prazos descumpridos. 

Localizado na região central de Brasília, um projeto de urbanização inspirado no paisagismo do artista plástico Roberto Burle Marx – que assina outros jardins públicos da capital – começou a ser executado em 2013 sob promessa de encantar os turistas na Copa do Mundo. 

Pensado para ser um cartão postal da capital, o projeto começou a sair do papel em julho de 2013, mas, quando já se sabia que estava atrasado, o GDF anunciou a entrega do parque antes do Mundial de futebol, mas sem a parte hídrica. 

Mas, quando a Copa começou,o espaço de 225 mil metros quadrados entre a Torre de TV e a Rodoviária do Plano Piloto só tinha montes de terra e buracos cavados no canteiro central do Eixo Monumental, a avenida ligada à Esplanada dos Ministérios.

Com a obra abandonada pela construtora, os buracos de terras e a poucas estruturas de concreto que deveriam abrigar dois grandes lagos viraram abrigo para traficantes e usuários de drogas.

Depois que o Mundial ficou para trás, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) deu novo prazo: outubro de 2017. A promessa não foi cumprida, o que levou à rescisão do contrato com a construtora.

Àquela altura, a empreiteira já havia recebido os R$ 6 milhões inicialmente previstos para conclusão da obra. A Novacap assumiu o projeto com a promessa de inauguração em meados de 2018. De novo não deu certo e a obra foi de novo interrompida.

Em setembro do ano passado, o BRB, banco estatal de Brasília, assumiu a obra, com a promessa de conclusão em março de 2023. Não cumpriu, prometeu para agosto, e descumpriu de novo. Agora, fala que ela será entregue oficialmente na próxima semana.

Na última terça-feira (13), os tapumes que cercavam o espaço foram removidos. Com isso, a população pode ver de perto o resultado. Houve o plantio de vegetação nativa do cerrado e de canteiros de flores, a instalação de ciclovias, calçadas e espelhos d'água e a construção de espaços de convivência.

No entanto, não se sabe ainda se os jatos d'água estarão ativos na nova data de inauguração. Não houve teste até a publicação desta reportagem, nesta quarta-feira (13).

O mesmo BRB assumiu recentemente a reconstrução do autódromo de Brasília, vizinho de Brasília. O banco estatal também assumiu a administração da Torre de TV, que fica de frente para o novo jardim de Burle Marx.

VLT foi abandonado e sequer há previsão de retomada

O principal legado da Copa de 2014 para a população do Distrito Federal, segundo os governos local e federal, seria uma linha do veículo leve sobre trilhos (VLT) – uma espécie de metrô de superfície – entre o terminal da Asa Norte e o Aeroporto Internacional de Brasília, passando pela avenida W3.

O projeto original do VLT sairia do aeroporto e atravessaria todo o Plano Piloto, em um percurso com 25 estações e 22,6 quilômetros de extensão. As obras, porém, foram suspensas cinco vezes pela Justiça e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Por fim, a 7ª Vara de Fazenda Pública do DF decidiu anular o contrato da obra em abril de 2011, tornando inviável a conclusão do modal a tempo da Copa. O cancelamento do VLT para o Mundial foi oficializado em setembro de 2012.

A obra completa previa R$ 1,5 bilhão em investimentos. O primeiro trecho foi licitado por R$ 780 milhões. Pelo menos R$ 20 milhões foram gastos pelo GDF antes da suspensão do projeto, de acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU).

Em 2015, o Metrô do Distrito Federal – responsável pela obra – informou que aquele projeto para o VLT havia sido cancelado e que estudava “novos traçados para o veículo”. 

Oito anos depois, nenhum novo plano foi anunciado. Além de não planejar construir nenhum VLT no Distrito Federal, o GDF não pretende reforçar o trajeto entre o aeroporto e o Plano Piloto com qualquer opção adicional de transporte.

Para construção do VLT, dezenas de árvores foram derrubadas e nunca repostas. Um viaduto chegou a ser demolido para a passagem dos trilhos e, depois, reconstruído.

Terceirizado, estádio nunca ganhou prometidas obras no Entorno

A mais cara de todas as arenas da Copa de 2014, o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha foi entregue no prazo, mas com sobrepreço e sem as prometidas obras no entorno. 

Não há sequer um consenso entre o valor real de construção, que inicialmente custaria R$ 600 milhões. As estimativas variam entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,1 bilhões, a depender dos contratos considerados. 

O novo Mané Garrincha teria um projeto de urbanização e paisagismo em um raio de 3 km no entorno do estádio. Passados nove anos, nada disso foi feito. Sob administração de uma empresa privada, com patrocínio estatal do BRB, o entorno ganhou só bares, restaurantes e outros atrativos de lazer que geram renda para a gestora, além de muitos painéis de publicidade, que destoam do projeto do Plano Piloto de Brasília, tombado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Também havia a previsão de  túneis que ligassem os estacionamentos do Parque da Cidade ao Mané Garrincha, ao Centro de Convenções e ao Clube do Choro – esses dois ficam no meio do Eixo Monumental, de frente para o estádio. 

Os túneis foram incluídos na licitação de R$ 285 milhões, referente ao entorno do estádio. Apesar dos R$ 6,98 milhões desembolsados pelo GDF, nenhum canteiro de obras foi aberto para a criação dos túneis. Sequer há previsão para início de alguma obra.