confrontos violentos

Acusados de crimes contra a humanidade fogem em meio ao caos no Sudão

Figuras do governo anterior, que estavam presos em uma penitenciária, fugiram em meio a combates intensos

Por Agências
Publicado em 26 de abril de 2023 | 14:32
 
 
 
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Um funcionário de alto escalão do antigo regime islâmico do Sudão, acusado de crimes contra a humanidade, confirmou que fugiu de uma penitenciária, assim como outras figuras do governo anterior, em meio aos combates violentos que devastam o país, o que provoca temores de agravamento do conflito após um frágil cessar-fogo.

Uma trégua de 72 horas com mediação dos Estados Unidos entrou em vigor na terça-feira (25), mas ficou em situação frágil depois que o exército voltou a bombardear as forças paramilitares na capital Cartum, nesta quarta-feira.

Ahmed Harun, um ex-conselheiro do ditador Omar al Bashir, deposto em 2019 após grandes protestos, confirmou que vários funcionários do antigo regime fugiram da prisão de Kober. 

Harun e Al Bashir são procurados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por "crimes contra a humanidade" e "genocídio" na região de Darfur, oeste do Sudão, onde o conflito que começou em 2003 deixou 2,5 milhões de deslocados, de acordo com a ONU. 

Al Bashir, 79 anos, também estava na penitenciária de Cartum, mas o exército informou que ele foi transferido para um hospital antes do início dos confrontos em 15 de abril. 

O ex-ditador e outros integrantes de seu regime foram levados para uma unidade hospitalar militar "devido a suas condições de saúde (...) e permanecem no hospital sob vigilância da polícia judicial", afirmou o exército em um comunicado, sem revelar a data da transferência.

Esta foi a terceira fuga de uma prisão registrada desde o início dos combates entre o exército do general Abdel Fatah al Burhan, governante de fato do Sudão desde o golpe de Estado de 2021, e seu rival, o general Mohamed Hamdan Daglo, líder das paramilitares Forças de Apoio Rápido (FAR).

Os confrontos provocaram pelo menos 459 mortes e deixaram mais de 4.000 feridos no país do nordeste da África, de acordo com a ONU.

Fuga de prisioneiros

"Ficamos no centro de detenção de Kober, sob o fogo cruzado desta batalha durante nove dias. Agora assumimos a responsabilidade por nossa proteção em outro lugar", disse Harun na terça-feira a um canal de televisão sudanês.

A promotoria do Tribunal Penal Internacional (TPI) indicou que está acompanhando os acontecimentos de perto e lembrou que a fuga dos prisioneiros de Kober não foi "confirmada de forma independente".

Com a redução da intensidade dos combates em Cartum após o anúncio da trégua, vários países organizaram operações para retirar seus cidadãos do país, por terra, mar e ar.

Um navio com 1.687 civis de mais de 50 nacionalidades chegou nesta quarta-feira à Arábia Saudita, informou o ministério das Relações Exteriores de Riad. 

"Cerca de 6.000 pessoas de diferentes nacionalidades podem ter cruzado a fronteira com a Etiópia", disse uma autoridade sudanesa no posto fronteiriço de Gallabat, no leste do país. 

A ONU calcula que em torno de 270.000 pessoas podem ter fugido do Sudão para os vizinhos Chade e Sudão do Sul.

Ao mesmo tempo, os sudaneses permanecem entrincheirados em suas casas e tentam sobreviver sem o abastecimento de água ou energia elétrica, com escassez de alimentos e cortes de internet e linhas telefônicas.

"Por que as autoridades não se importam com o povo sudanês e seu sofrimento?", perguntou Alnur Mohamed Ahmed, outro trabalhador. "As pessoas não podem sair de casa", lamentou.

Na terça-feira à noite, testemunhas relataram à AFP novos bombardeios na zona norte de Cartum contra veículos das FAR.

Em um vídeo, o grupo paramilitar afirma que tomou o controle de uma refinaria e de uma central elétrica que fica 70 km ao norte da capital, de cinco milhões de habitantes.

O exército havia alertado no Facebook para um "importante movimento (das FAR) em direção à refinaria com o objetivo de aproveitar a trégua para controlar o local". 

Os dois lados afirmam controlar locais cruciais da capital, mas não é possível verificar as informações com fontes independentes. 

Riscos biológicos elevados

A Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu na quarta-feira que está avaliando os riscos biológicos depois que um dos lados beligerantes ocupou um laboratório que armazena agentes patógenos muito contagiosos.

O órgão ainda acrescentou que mais de 60% dos centros de saúde do Sudão estão fechados atualmente.

Outro relatório da ONU alertou que a escassez de comida, água, medicamentos e combustíveis estava se tornando "extremamente aguda, em particular em Cartum e seus arredores".

"Em alguns locais, a ajuda humanitária é a única que mantém a fome sob controle", afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

O Sudão tem um longo histórico de golpes militares. A disputa entre Burhan e Daglo, que se aliaram para derrubar os civis do poder em 2021, é uma consequência dos planos de integrar as FAR ao exército oficial.

(AFP)
 

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