Escassez

Portugal registra alta de preços e fica sem quartos para todos os estudantes

Diante do cenário, o governo anunciou um reforço nas medidas destinadas ao alojamento estudantil

Por Agências
Publicado em 16 de outubro de 2022 | 15:56
 
 
 
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O novo ano letivo, que começou em setembro em Portugal, tem sido marcado pela escassez na oferta de casas para os estudantes universitários. O problema acontece em todo o país, mas é sentido com mais força em Lisboa e no Porto. Um levantamento do Observatório do Alojamento Estudantil, publicado pela DGES (Direção-Geral do Ensino Superior) indica que, nos últimos 12 meses, houve um recuo de cerca de 80% na oferta particular de quartos para estudantes.

Além de mais escassos, os quartos também ficaram, em média, quase 10% mais caros. Segundo o relatório, houve um aumento médio de preço em 18 das 20 cidades analisadas. Com alta média de 30% em relação ao ano letivo anterior, os preços dos quartos no Porto foram os que mais subiram em Portugal. Braga e Funchal (ilha da Madeira) aparecem empatadas com o segundo maior aumento, de 25%.

Em Lisboa, os preços cresceram 17%. Atualmente, o estudante que procura um quarto na capital portuguesa desembolsa, em média, EUR 381 (cerca de R$ 1.972) – em setembro de 2021, seriam EUR 326 (R$ 1.687).

Tradicionalmente, o aluguel de quartos em repúblicas ou em casas de família é um importante recurso para alunos de outras cidades ou países. Embora as instituições de ensino disponham de alojamentos próprios, a oferta é muito inferior à demanda.

Estudantes brasileiros, que formam a maior comunidade de alunos internacionais nas universidades lusas, também são afetados pelo problema. Recém-chegada a Portugal para um mestrado, a paulistana Giulia Rossi, 25, diz ter se surpreendido com a dificuldade para conseguir alugar um quarto próximo à Cidade Universitária de Lisboa.

"Por menos de EUR 300, só encontrei opções para quartos coletivos. Para conseguir ficar dentro do orçamento e ter um quarto individual, tive de sair de Lisboa", conta Rossi, que acabou escolhendo um apartamento em Almada, cidade da região metropolitana da capital.

Na avaliação de especialistas, o déficit na oferta de casas para estudantes é multifatorial e reflete a escassez do mercado habitacional como um todo. Há, no entanto, um ponto central: muitos proprietários identificaram que podem cobrar preços mais altos para outros segmentos, como turistas ou jovens profissionais e nômades digitais.

"Nos dois últimos anos, houve um grande fluxo de pessoas de outros países, que muitas vezes trabalham para empresas também de fora de Portugal e que em geral têm uma capacidade financeira mais confortável do que os portugueses", afirma Flavia Motta, proprietária da consultoria Lisboa à Beça, especializada no acesso de estrangeiros ao mercado imobiliário português.

Segundo Motta, parte dos que chegam a Portugal está disposta a pagar um pouco mais por vir de países em que os aluguéis são mais caros.
Com uma política de benefícios fiscais a estrangeiros e a multinacionais, Portugal conseguiu atrair também muitos profissionais oriundos de países desenvolvidos. Em 2021, por exemplo, o número de americanos vivendo no país aumentou 45% em relação ao ano anterior.

O país também assiste a uma valorização recorde no preço dos imóveis como um todo. Dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) mostram que o Índice de Preços da Habitação aumentou 13,2% no segundo trimestre de 2022, em comparação ao mesmo período do ano anterior.
O aumento generalizado do custo de habitação para a população como um todo também faz com que os estudantes tenham de competir por quartos com jovens profissionais e gente de outros segmentos, que já não conseguem arcar com as despesas de viverem sozinhos.

Diante do cenário, o governo anunciou um reforço nas medidas destinadas ao alojamento estudantil. Além dos EUR 375 milhões já previstos, oriundos dos fundos europeus do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), os socialistas reforçaram o orçamento com mais EUR 72 milhões.

Em cerimônia para a assinatura de um protocolo para a criação de 9.300 vagas para estudantes, o primeiro-ministro, António Costa, reconheceu as dificuldades que o país enfrenta. "Sabemos que a liberalização do mercado da habitação é irreversível e aumentou significativamente a pressão sobre o custo do alojamento", disse o premiê, acrescentando o crescimento do turismo e o aluguel por temporadas como fatores para a alta de preços.
Apesar de Costa defender que o Estado tem mesmo de fazer investimentos em alojamento para estudantes do ensino superior, profissionais do setor afirmam que, no curto prazo, as medidas não devem ter grande impacto na oferta e nos preços. (Giuliana Miranda/Folhapress)

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