Carlos Henrique Lima é diretor-executivo do Instituto Reciclar e professor convidado da Fundação Dom Cabral
Quando falamos sobre o futuro do trabalho, o debate costuma girar em torno de tecnologia, inovação e novas formas de organização produtiva. Tudo isso é relevante. Mas há um ponto de partida que ainda recebe pouca atenção: o futuro do trabalho começa muito antes do primeiro emprego.
Ele começa na juventude, nas oportunidades de formação, orientação e experiências práticas que ajudam a construir trajetórias mais justas e sustentáveis. Ignorar essa etapa é aceitar que desigualdades estruturais continuem se reproduzindo no mercado de trabalho.
Educação
As desigualdades profissionais não surgem na entrevista de emprego. Elas se formam ao longo do percurso educacional e social. Jovens que têm acesso a formação complementar, desenvolvimento socioemocional, repertório cultural e orientação de carreira chegam ao mercado em condições muito diferentes daqueles que não tiveram essas oportunidades.
Por isso, programas de formação ainda na juventude, especialmente no ensino médio, são estratégicos. Eles ampliam horizontes, fortalecem a autonomia e apoiam escolhas mais conscientes. Não se trata apenas de conteúdo técnico, mas do desenvolvimento de competências essenciais para a vida e para o trabalho.
Um dos grandes desafios da empregabilidade na juventude é a distância entre o que a escola oferece e o que o mercado exige. Experiências práticas, mentorias e projetos sociais bem-estruturados cumprem um papel fundamental ao conectar teoria e prática. Quando o jovem participa de projetos reais, recebe orientação de profissionais e conhece ambientes organizacionais, passa a compreender melhor o mundo do trabalho, suas exigências e possibilidades. Esse contato antecipado reduz a ruptura na transição da escola para o emprego e aumenta as chances de uma inserção qualificada.
Trabalho
Ao mesmo tempo em que milhões de jovens enfrentam dificuldades para acessar o mercado de trabalho, empresas lidam com uma crescente crise de talentos, especialmente em funções técnicas. Esse paradoxo revela uma desconexão estrutural e aponta para o papel estratégico do investimento social privado.
Ao investir em programas de formação de jovens, empresas e fundações não apenas geram impacto social, mas também contribuem para a construção de uma base de talentos mais diversa, preparada e alinhada às demandas reais do mercado. Nesse contexto, o investimento social privado deixa de ser apenas uma agenda de responsabilidade social e passa a integrar uma visão de desenvolvimento econômico e sustentabilidade dos negócios.
Vulnerabilidade
Esse debate se torna ainda mais urgente quando falamos de jovens de escolas públicas e em situação de vulnerabilidade social. São eles que historicamente enfrentam maiores barreiras de acesso à informação, redes de contato e oportunidades de desenvolvimento. Investir nesse público não é assistencialismo. É estratégia de longo prazo. É reconhecer que o talento está amplamente distribuído na sociedade, enquanto as oportunidades, não. Programas bem-estruturados conseguem revelar potenciais, fortalecer trajetórias e criar conexões reais com o mercado de trabalho.
Se queremos um futuro do trabalho mais inclusivo, produtivo e sustentável, precisamos olhar para a base. O futuro do trabalho começa antes do primeiro emprego, quando há investimento consistente na formação de jovens, na redução das desigualdades e na construção de caminhos reais entre educação e trabalho. Não é apenas uma escolha social. É uma decisão estratégica para o país, para as empresas e para a sociedade.