Mudanças, não só climáticas, vêm provocando enormes desafios em toda parte. Antigamente se sabia menos, mas se confiava mais. Havia caminhos, sistemas, crenças e costumes que permaneciam como faróis pela vida inteira e por muitas gerações. A vida das pessoas era mais curta, as ambições, menos exageradas. Percebiam-se caminhos mais delimitados e estreitos. Quem tinha muito dinheiro e patrimônio, pouco ou nada trabalhava. Vivia-se de “rendas”, em palácios e vilas suntuosas, numa existência assumidamente voltada aos prazeres e ao convívio com seus pares. No outro extremo, pessoas submetidas à escravidão, que acabou há menos de 200 anos, sofriam dores desumanas, e seus fantasmas ainda andam soltos.
As castas eram definidas, e as carreiras se resumiam àquelas poucas que satisfaziam as parcas necessidades de sobrevivência. Militares, religiosos, comerciantes, artesãos, camponeses e escravos. Sobrava dinheiro para erguer castelos, catedrais e conventos.
As religiões eram definidas regionalmente. Bem ou mal, a vida das pessoas era balizada e inspirada em regras e limites determinados. Os governos, mais do que laicos e partidários, eram teocráticos. Reconhecia-se ao governante uma outorga divina para comandar.
Hoje não resta nada daquilo que até três ou quatro gerações atrás era a “certeza”. Não precisava de vidência, perspicácia ou inteligência artificial emprestada. A conduta a ser seguida, boa ou ruim, estava determinada a quem vivia nas cidades e no campo.
Não precisava de carteira de identidade, era suficiente existir, sem necessidade de votar, pertencer a um partido ou ler as páginas políticas de jornais. Nem havia necessidade de ficar preocupado com oscilações das Bolsas, do câmbio, das commodities pelo mundo afora.
A China poderia ser varrida do planeta sem mudar um milímetro os humores em Paris, Londres ou Rio de Janeiro, e também vice-versa. Vivia-se em compartimentos bem-delimitados e autossuficientes, sem a dependência global de hoje. Cada qual produzia a quase totalidade do que precisava consumir. Consumia-se menos, havia menos dinheiro em circulação.
A humanidade alcançou a modernidade, o bem-estar, alongou a vida média do indivíduo de 40 para 80 anos apenas no último século. O planeta, de 1 bilhão, passou a contar quase 8 bilhões de sobreviventes.
O consumo de alimentos e de bem supérfluos – que se incorporou à realidade social e econômica, pois dele vive grande parcela da humanidade – se expandiu exponencialmente.
A necessidade de moradias, de mobilidade, de lazer e outras tantas supostas necessidades que não existiam há menos de cem anos se incorporaram ao que é “comum”. Dito isso, é preciso lembrar que as tensões de hoje se devem em especial às incertezas, às mil e uma variáveis que aparecem no horizonte do planeta globalizado como nuvens passageiras. Perdeu-se, com a ampliação dos conhecimentos, a paz de espírito.
Se o império romano durou alguns séculos, os impérios de hoje encontram um ambiente extremamente mutável.
Os nossos avós tinham suas convicções cristãs, os muçulmanos, os budistas, os judeus, os indígenas das florestas também. As convicções de cada um, mesmo que divergentes em muitos aspectos, eram justas e geravam confiança nas escolhas e nas regras de existência do indivíduo.
A globalização escancarou todas as doutrinas, ideologias e costumes.
Nunca a humanidade, em largas parcelas, enfrentou tantas invasões de privacidade e bombardeios de variáveis a seu alcance. Em nossa época, o cristão, que se faz budista, tem dificuldade de enfrentar um DNA moldado pelas gerações que o antecederam.
As novas gerações são cobaias de uma mudança repentina e disruptiva. Perderam a confiança e a paz, ganharam o estresse e a angústia.
Atentos antropólogos notaram que a quebra das tradições instalou o desassossego e suas afetações nos indivíduos.
A “confiança” que fortalecia, mesmo que ilusória, sustentava a paz interior, fundamental para o sucesso, pois não existe um angustiado em condição de acertar uma decisão.
O modelo ocidental e o oriental precisam uma forma de se harmonizar, e não de se confrontar.
Mais do que a disputa pela supremacia, precisa-se de esforço e escolhas, além de fatores culturais, religiosos. Novos modelos, novas práticas, novos indivíduos, avatares, em especial um despertar eruptivo de consciências, poderão gerar condições que justifiquem a existência da humanidade neste planeta.