BRASÍLIA - Cerca de 11 meses após deflagrar a investigação, a Polícia Federal (PF) indiciou o sócio-fundador do extinto Banco Master Daniel Vorcaro por suspeitas de fraudes na venda de créditos fictícios ao Banco Regional de Brasília (BRB). A PF enviou o primeiro relatório da investigação ao Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quarta-feira (28/10), com mais 14 indiciados.

O relatório de mais de 700 páginas se limita à venda de créditos supostamente sem qualquer lastro do Master ao BRB entre janeiro e maio de 2025. A mesma carteira foi repassada simultaneamente pela Tirreno Consultoria, que, segundo a PF, carecia de “capacidade econômico-financeira”, “estrutura operacional” ou “meios técnicos”, ao banco extinto pelo Banco Central (Bacen).   

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Vorcaro pode ser condenado a mais de 40 anos de prisão caso seja declarado culpado. A PF imputou cinco crimes ao sócio-fundador do Master: organização criminosa, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, sonegação ou falseamento de informação para sócio, investidor ou repartição pública e falsa declaração de investimento em títulos ou valores mobiliários. 

A instituição ainda atribuiu a Vorcaro a liderança da possível organização criminosa. A PF ressaltou a participação “pessoal”, “reiterada” e “diretiva” do banqueiro em obter bases de dados, em estruturar e ceder as carteiras de créditos, em captar recursos junto ao BRB, em produzir documentos de suporte às operações e em definir as justificativas para o comprador e para o Bacen.

A polícia concluiu que Vorcaro estruturou e executou voluntariamente as operações sem observar os requisitos mínimos exigidos pelo sistema financeiro nacional. “Não se tratou, portanto, de mera imperfeição inerente a relações comerciais ordinárias, mas de reiterada supressão das salvaguardas destinadas a assegurar a existência, a regularidade e a qualidade dos ativos”, disse.

A PF também indiciou o sócio-fundador do Banco Master Augusto Lima. Apesar de Lima ter negado a sociedade, a polícia o responsabilizou por participar da estruturação dos créditos fictícios vendidos ao BRB. “O ex-sócio de Daniel Vorcaro indica Raimundo (Leal) como homem de sua extrema confiança e gerente da empresa Terra Firme”, pontuou.    

Os diálogos por WhatsApp incluídos pela PF no relatório parcial indicam que Raimundo seria o responsável por fornecer as bases de dados para estruturar as carteiras podres. As informações eram oriundas das Associações dos Servidores-Técnicos Administrativos e Afins (Asteba) e dos Servidores da Saúde e Afins (Asseba) do estado da Bahia.

A PF ainda indiciou o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. A polícia também se referiu à conduta de Paulo Henrique como “pessoal”, “reiterada” e “diretiva” em articular interesses do Master dentro do BRB, oem definir valores e cronogramas das operações, em mobilizar áreas internas, em flexibilizar controles e manter as operações mesmo após identificar as graves inconsistências.

A relação de 15 indiciados inclui cinco ex-diretores-executivos do BRB: o ex-diretor-executivo de Finanças e Controladoria Dario Oswaldo Jr., a ex-diretora-executiva de Controle e Riscos Luana Ribeiro, a ex-diretora-executiva de Gestão e Pessoas Cristiane Bukowitz, o ex-diretor-executivo de Atacado e Governo Diogo Oliveira e o ex-diretor-executivo de Tecnologia José Maria Dias Jr.  

A lista também reúne quatro ex-funcionários do Banco Master: o ex-diretor de Contabilidade Angelo Antonio Silva, o ex-diretor de Gestão de Riscos e Controle Interno Luiz Antonio Bull, o ex-superintendente da Tesouraria Alberto Félix de Oliveira Neto e o ex-gerente de Backoffice e Operações Bancárias Allan Machado. 

Vorcaro articulou a operação para tentar dar uma sobrevida ao Master, que, à época, já enfrentava problemas de liquidez. O banqueiro chegou a costurar uma venda de 51% do capital total do banco para o BRB, mas o Bacen barrou a operação dois meses antes de a PF deflagrar a 1ª fase da operação que viria a ser conhecida como “Compliance Zero”. 

Um dia antes de ser preso pela primeira vez, o sócio-fundador do Master também anunciou a venda do Master para o grupo Fictor. No entanto, a PF prendeu o banqueiro no aeroporto de Guarulhos (SP), prestes a tomar um voo para Malta, Europa, antes de a operação ser oficializada. O Bacen, então, liquidou a instituição.