BRASÍLIA – A Polícia Federal (PF) prendeu, na manhã desta quarta-feira (15/4), o influenciador digital Raphael Sousa Oliveira, criador da página “Choquei”, que tem mais de 27 milhões de seguidores apenas no Instagram.
O publicitário foi preso em Goiânia (GO), onde nasceu e mora. A “Choquei” ficou conhecida pela cobertura do universo das celebridades, pelo sensacionalismo e por muita polêmicas.
Uma delas foi uma mentira envolvendo a jovem Jéssica Canedo, de 22 anos, e o humorista e influenciador Whindersson Nunes. A “Choquei” publicou que os dois se envolveram em um affair e, após ataques contra a jovem, Raphael ainda ironizou o texto dela pedindo para os ataques cessarem.
Jéssica cometeu suicídio, em Araguari, cidade do Triângulo Mineiro, em dezembro de 2023. A mãe dela atribuiu a morte à cobertura da “Choquei”, que chegou a ter a página suspensa.
Raphael foi preso nesta quarta-feira ne mesma operação que resultou na prisão dos cantores de funk MC Ryan SP e MC Poze do Rodo. Ela mira uma organização criminosa acusada de lavagem de dinheiro e transações ilegais de mais de R$ 1,6 bilhão, inclusive por meio de criptoativos, no Brasil e no exterior.
Rifas e sorteios online de bens de alto valor
Vários influenciadores são alvos da operação, batizada de Narco Fluxo. Entre eles, Chrys Dias, que tem 14,7 milhões de seguidores nas redes sociais. Ele ganhou fama expondo uma rotina de luxo com cantores de funk, como MC Ryan SP. Ele divulga rifas e sorteios online de bens de alto valor, como veículos e imóveis. É justamente esta prática que motivou a investigação.
“As investigações apontam que os envolvidos usavam um sistema para ocultação e dissimulação de valores, incluindo operações financeiras de alto valor, transporte de numerário em espécie e transações com criptoativos”, diz a PF em comunicado.
A Operação Narco Fluxo é um desdobramento da Operação Narco Bet, deflagrada em 14 de outubro de 2025 como desdobramento da Operação Narco Vela, que investigou o envio de grandes carregamentos de cocaína para a Europa via transporte marítimo a partir do litoral brasileiro.
Nesta quarta-feira, mais de 200 policiais federais foram às ruas para cumprir 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, expedidos pela 5ª Vara Federal em Santos (SP), em endereços no Distrito Federal e nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná e Goiás.
Também foram determinadas medidas de constrição patrimonial, incluindo o sequestro de bens e a imposição de restrições societárias, com o objetivo de interromper as atividades ilícitas e preservar ativos para eventual ressarcimento.
Funkeiros já foram presos outras vezes
MC Poze do Rodo, que se chama Marlon Brandon Coelho Couto Silva e tem 27 anos, foi preso em casa, em um condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes, na cidade do Rio de Janeiro. Ele acumula 49,1 milhões de seguidores nas redes sociais, onde posta a rotina, com viagens de luxo, carros importados e amigos famosos.
Em nota, a defesa do MC Poze do Rodo afirmou que “desconhece os autos ou teor do mandado de prisão”, e que “com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”.
Poze do Rodo foi preso, em 2019, durante um show em Sorriso, no Mato Grosso, foi acusado de apologia do crime, por causa das letras que cantava. Passou seis dias na cadeia. No ano seguinte, o Ministério Público do RJ denunciou Poze, após ele ser gravado se apresentando no aniversário de um traficante, na favela do Jacarezinho.
O cantor admitiu ter atuado como traficante em 2015 e 2016. Também confirmou que recebeu dinheiro pela apresentação no Jacarezinho, mas que não sabia que se tratava de um show pago por criminosos. Mas alegou que não praticava nada ilícito havia quatro anos.
Em novembro de 2024, Poze e a esposa, Viviane Noronha, foram alvos da Operação Rifa Limpa, contra sorteios ilegais, com indícios de manipulação. Eles tiveram bens – como carros de luxo e joias de ouro – apreendidos.
Os itens foram devolvidos pela Justiça, em abril de 2025. Segundo o juíz responsável pelo caso, não havia comprovação da relação dos objetos apreendidos com os delitos investigados.
Além de Viviane Noronha e MC Poze do Rodo, também eram investigados o DJ Jonathan Costa, o Jon Jon, filho da vereadora do Rio Veronica Costa (PL); e o blogueiro Roger Rodrigues Santos, o Roginho dú Ouro.
Poze do Rodo foi preso novamente em maio de 2025 por agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Civil do RJ, acusado de associação com o Comando Vermelho e de fazer apologia do crime e ao uso de drogas nas letras de suas músicas. Ele ganhou a liberdade dias depois e passou a responder o processo em liberdade.
Já Ryan Santana dos Santos, que tem 25 anos e é conhecido pelo nome artístico MC Ryan SP, foi preso nesta quarta-feira em uma festa na Riviera de São Lourenço, em Bertioga, no litoral de São Paulo.
Também em maio de 2025, MC Ryan SP foi detido numa madrugada após dar cavalos de pau e danificar o gramado do Estádio Barão da Serra Negra, em Piracicaba, no interior de São Paulo. O cantor foi solto após pagar uma fiança de R$ 1 milhão determinada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP).
Ele, que tem mais de 15 milhões de seguidores nas redes sociais e é conhecido pelas músicas do estilo “ostentação”, que exalta uma vida de luxo, foi detido outras vezes após publicar vídeos dirigindo acima do limite de velocidade. Também foi filmado agredindo uma ex-namorada.
Durante o cumprimento das medidas judiciais nesta quarta-feira, agentes federais apreenderam veículos, notas de dinheiro, joias, armas de diferentes calibres, além de documentos e equipamentos eletrônicos que subsidiarão o aprofundamento das investigações.
Entre os itens apreendidos na casa de MC Ryan SP, chamou a atenção um colar de ouro com a imagem do mega traficante colombiano Pablo Escobar (morto em 1993 em troca de tiros com policiais) numa moldura dentro do mapa do estado de São Paulo.
A defesa de MC Ryan disse, em nota, “que não teve acesso ao procedimento que tramita sob sigilo, razão pela qual está impossibilitada de apresentar manifestação específica sobre os fatos”.
“Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável”, completa o comunicado.