RICARDO CORREA

Liberalismo resistirá?

Não estamos falando de coisa pequena. O impacto esperado agora é muito maior do que o que se viu mais recentemente


Publicado em 04 de janeiro de 2020 | 03:00
 
 
 

A crise deflagrada pelo ataque norte-americano que matou o principal general iraniano e incendiou o Oriente Médio traz, logo no início de 2020, um teste de força para o liberalismo econômico imposto ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) pela equipe econômica do ministro Paulo Guedes. Com a certa disparada dos preços do petróleo, que já começou ontem e tende a perdurar se o cenário desenhado por analistas internacionais se confirmar, o Palácio do Planalto mais uma vez se verá diante da dúvida se interfere ou não nos preços praticados pela Petrobras.

Não estamos falando de coisa pequena. O impacto esperado agora é muito maior do que o que se viu mais recentemente com incidentes de menores proporções no estreito de Ormuz, que já fizeram o preço do petróleo oscilar muito em meados do ano passado. Além disso, a tentação de interferir nos preços dos combustíveis é enorme. No ano passado, em meio às pressões de caminhoneiros, Bolsonaro chegou a determinar a suspensão de um reajuste de 5,7% de óleo diesel por alguns dias. Após a péssima repercussão, acabou recuando.

Na época, a mudança de posição foi atribuída a uma pressão grande de Paulo Guedes, que teria chegado a cogitar abandonar o governo se o perfil liberal que defende para a gestão não fosse mantido. Bolsonaro concordou, pois sabia que, àquela altura, perder o condutor da economia e avalista da reforma da Previdência em discussão no Congresso era terrível para a imagem do país e de seu governo.

O problema é que, de lá para cá, muita coisa já mudou. A começar pela forte queda de popularidade de Bolsonaro, que levou o presidente a ter o desapreço da maior parte da população brasileira. Além do mais, no último mês já houve a necessidade de um entendimento com lideranças de caminhoneiros que cogitam parar novamente as atividades, como fizeram em 2018, no governo de Michel Temer.

Para piorar, Bolsonaro enfrenta forte reação de seu eleitorado após ter sancionado o pacote anticrime com a adoção do juiz de garantias, o que fez com que o grupo que defende de forma mais ardorosa a Lava Jato se afastasse do apoio incondicional ao governo. Agora, o presidente já prenuncia mais um ataque vindo de seus próprios apoiadores com a iminente sanção do Orçamento de 2020 prevendo um Fundo Eleitoral de R$ 2 bilhões.

Diante de tamanha pressão sobre a popularidade, Bolsonaro estaria disposto a sacrificar os pilares econômicos definidos por Paulo Guedes, interferindo no preço dos combustíveis, para não arriscar um protesto de grandes proporções? Certamente foi este o assunto de tantas reuniões das quais o presidente participou ontem e é o dilema que ele terá que enfrentar.

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