Daniel Ottoni
@superfcoficial
04/08/19
07h00

Entrevista exclusiva

Filipe, ponta do Sada: 'foi muito frustrante nunca ter jogado na seleção'

Capitão celeste garante não pensar mais no time nacional, mas segue sem entender o motivo de nunca ter tido uma única oportunidade

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Sucesso de Filipe no Sada Cruzeiro superou todas as expectativas de quando chegou — Foto: Ramon Bittencourt
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Jogador mostra compreender maior espaço que jovens têm ganhado no elenco — Foto: Agência I7
Daniel Ottoni | @superfcoficial
04/08/19 - 07h00

Quando chegou ao Sada Cruzeiro, há 10 anos, nem de longe passava na cabeça do ponta Filipe tudo que ele construiria dentro do time de Belo Horizonte. Em uma década, ele tornou-se uma unanimidade entre os torcedores pelo carisma, pela entrega e pela eficiência dentro da sua posição.

A menor presença dentro de quadra parece não incomodá-lo, ciente de que ainda tem função de relevância dentro do elenco, dando suporte para os mais jovens e sempre à postos para quando for necessário atuar nas quatro linhas.

Confira a entrevista completa

Nesta entrevista, ele fala do seu começo, da decisão conjunta com a esposa para ela se aposentar, do caminho trilhado em um elenco tri campeão mundial e do orgulho de ter deixado seu nome na história do maior clube brasileiro de todos os tempos. 

Como sua trajetória no vôlei começou? Foi em Joaíma, minha cidade natal, com 10 anos. Meu pai foi meu maior incentivador. Ele era secretário de esportes da cidade e técnico de vários esportes. Entre eles, o vôlei. Meu pai é meu ídolo, abriu meu caminho. 

Quando viu que era possível ser profissional? Em 1995, cheguei ao Minas, mas foi em 2000 que recebi convite do Santo André. Estava saindo do juvenil, naquele momento difícil de transição para o adulto. Era complicado ganhar espaço em um grande clube como o Minas, com muitos atletas renomados, de seleção. Busquei sair para jogar em um clube menor, mas onde teria oportunidades. 

Quem jogava no Minas nesta época? Giba, Maurício, Carlão, só fenômenos que também eram ídolos. Era difícil concorrer. Entre os juvenis, tinha o Ezinho. Sabia que precisava sair para buscar meu espaço. O técnico na época era o Cebola. O Santo André apareceu para me abrir as portas. 

Sada Cruzeiro é o clube com o qual você criou uma maior identificação? Certamente, passei por outros clubes, mas nenhum foi como o Cruzeiro. Aqui tive títulos e glórias que nenhum outro lugar me deu. Só tenho gratidão a este clube. 

Passava na sua cabeça completar 10 anos de Sada quando aqui chegou? Jamais. Vim como viria para qualquer outro clube, estava voltando pra Minas depois de mais de uma década em São Paulo. Eu já tinha quase 30 anos, sabia que ia precisar me superar cada vez mais. A identificação com o torcedor e o clube foram criadas a cada ano, isso foi só crescendo. A minha presença no Sada Cruzeiro só me trouxe coisas boas. 

Podemos dizer que você atingiu um novo patamar no Sada Cruzeiro? Com certeza, até pelas conquistas realizadas. Nenhum time brasileiro  tinha o feito que conquistamos de Mundial, Sul-Americano e Superligas, tudo ao mesmo tempo. Foram conquistas inimagináveis quando cheguei aqui.

Percebeu algo de especial no Sada Cruzeiro já na sua primeira temporada? A montagem da equipe tinha atletas com perfis diferentes. O William voltava da Argentina, eu chegava do Sesi-SP, tinha o Acácio e o Douglas Cordeiro, Serginho...O Marcelo soube agregar estes jogadores, apostou no grupo e em um bom ambiente de trabalho, que deu muito certo. A gente se identificou muito logo de cada, o grupo se dava bem nos treinos e jogos, tinha uma amizade que também foi responsável por tudo que construímos. 

Muita gente aponta você como maior jogador da história do Sada Cruzeiro. Concorda com isso? Já ouvi e ainda ouço isso de muita isso, o que me deixa bastante lisonjeado. Acho que o Douglas Cordeiro é o maior, é um cara que esteve no projeto desde o começo. É um amigo, que tem meu respeito e admiração. Mas prefiro deixar essa escolha para a torcida. Só de estar nesta lista está bom demais, é o reconhecimento de que fizemos muitas coisas boas e que estaremos guardados na memória do clube. 

Como vê analisa as diferentes épocas com as quais atravessou dentro do Sada Cruzeiro? Cheguei em um time que ninguém sabia o que ia acontecer, mas que deu muita liga, se entrosou muito bem, conquistamos tudo. O primeiro ano serviu de experiência, fomos pra final da Superliga. Depois tivemos nosso primeiro Mundial, ficamos em segundo, foi algo engrandecedor pra continuidade do trabalho. A partir dali, vimos que era possível ser campeão do mundo, foi algo que ficou enraizado no elenco. Cada atleta levava essa ideia para cada treino, foi algo que deu certo, tivemos sucesso junto com essa experiência do Marcelo. Ele trouxe um estilo de treino diferente. 

O que o Marcelo Mendez tem de especial? Ele vem da escola argentina, de um estilo jogueiro, de trabalhar a bola, errar pouco e deixar que o adversário cometa erros, não a gente. Ele foi importante pra colocar na cabeça de jogadores de definição, como o Wallace, que a bola tinha que ser trabalhada em momentos complicados. Não precisava estourar a jogada toda hora. Fomos adquirindo isso a cada treino. Ele tem um jeito próprio de cobrar e liderar, uma forma até mais dura que foi sendo assimilada aos poucos. Pra mim, foi um aprendizado muito grande estar com ele. Seus ensinamentos surtem efeito até hoje. 

O Marcelo Mendez foi o melhor técnico com o qual você trabalhou? Com certeza. Aprendi muito com ele desde a minha chegada. Ela resgatou meu vôlei após uma temporada em que eu não tinha ido tão bem no Sesi-SP. Ela me deu a chance, me resgatou como jogador. Nem sempre a gente joga do jeito que deseja. O Marcelo me ajudou a aperfeiçoar o passe, a dar equilíbrio e sustentação pro time, colocou isso na minha cabeça e me fez ter uma liderança dentro do grupo. Ele costuma me usar como exemplo para os mais jovens, mostra um cara de 39 anos que dá 100% a cada treino. A molecada me vê e não se dá ao luxo de dar menos do que tudo em cada atividade. Isso serve como espelho para eles. 

Você conheceu sua esposa dentro do vôlei, não foi? Isso mesmo, foi no Minas, quando a gente era novo, tínhamos 15 anos, por aí. Estamos juntos até hoje, são 22 anos juntos, algo que até emociona de falar. Construíamos muito respeito e lealdade, uma parceria que foi muito importante na minha carreira. Chegou um momento em que ela entendeu que precisava se aposentar para ficar com as crianças e eu me dedicar ao esporte. Passamos por momentos complicados quando meu filho mais novo nasceu. Ele teve enfisema pulmonar, ficou 11 dias no CTI e eu precisava treinar. Ela segurou as pontas, me blindou de tudo para que eu seguisse focado em dar o meu melhor dentro de quadra. Só tenho a agradecê-la por tudo que fez pela nossa família. 

Como foi a decisão da sua esposa de parar de jogar? Eu jogava na Ultra, ela em Brusque. A gente já se sentia incomodado com este longo tempo longe um do outro. Ela tinha recebido um convite pra jogar na Coreia. Mas a gente queria estar mais perto, aquela distância não dava mais. Tentamos até jogar em times de cidades próximas, em São Paulo, mas não foi possível. Ela estava voltando de lesão, não estava tão satisfeita com seu rendimento e a gente já começava a pensar em ter filhos. Ela sentiu que era o momento dela. Se estivesse na ativa até hoje, certamente seguiria jogando em alto nível, foi uma jogadora de seleção que tinha todas as condições para seguir em quadra. Foi um momento muito importante para esta tomada de decisão. 

Consegue identificar sua melhor temporada no Sada Cruzeiro? Difícil dizer. A cada temporada, procuro me aperfeiçoar. Faço um feedback pessoal, uma auto-análise. No último ano, o Mendez preferiu dar mais bagagem para os jovens. Posso dizer que em todos os anos fiz o melhor que pude, em todos tentei desempenhar o máximo que poderia e sempre fui feliz assim.

Quando percebeu que o Sada Cruzeiro estava fazendo história? A chave da virada foi no primeiro Mundial de clubes que participamos em 2012. Perdemos a final para o Trentino, mas ali percebemos que era possível chegar mais longe. Na temporada seguinte, intensificamos os treinos, nos dedicamos mais e sabíamos que as coisas aconteceriam. Não deu outra! No ano seguinte, fomos campeões, um título que nenhum time do Brasil havia conquistado. Soubemos administrar bem, desde então, a pressão. Formamos um time imbatível, tricampeão mundial, sempre levando aquilo de um jeito bem tranquilo e suave. 

Como analisa as mudanças da sua função no time nos últimos anos? Sempre fui um cara que conversou muito com o Marcelo. Ele conseguiu identificar o papel de líder em alguns atletas, fez isso com o William e, após a saída dele, comigo. Ele costumava dizer que eu também era capitão, buscava em mim uma peça para entender o que se passava dentro do elenco. Quando a tarja chegou em mim, a responsabilidade aumentou. Segui passando pra ele situações que poderiam ser melhoradas, trocando informações. Nos últimos anos, ele me falou que começaria a dar mais chances para a molecada, um trabalho que o Sada faz muito bem e que precisa ser feito. Claro que sempre quero estar jogando, tenho condições pra isso aqui ou em outro clube. Mas preferi permanecer pra seguir ajudando o projeto, dar suporte para os mais jovens e estou feliz desta forma. Estão chegando dois jogadores para serem titulares (Conte e Perrin), mas a posição em quadra se define nos treinos e jogos. Sempre vou buscar uma vaga no time, estarei pronto para quando for preciso. Se for como titular, melhor ainda!

Passar é mais difícil do que atacar? Pode parecer fácil passar, mas não é. Às vezes, vemos opostos virando pontas, não é assim. Cada um tem sua função e as opções, que respeito muito. Passar não é simplesmente jogar a bola pra cima, é preciso ter técnica, postura, tranquilidade. Até hoje lembro de um jogo que o Marcelo Mendez veio falar comigo. Foi contra o Volta Redonda, eles sacaram 65 bolas em mim e apenas oito no outro ponta e no Serginho. Eles queriam me tirar do jogo de todo jeito. Fui bem nesta partida, é uma das melhores funções que desempenho dentro de quadra. Consigo dar equilíbrio pro time, é uma função primordial para dar início às jogadas, deixar a bola na mão do levantador para ele fazer a melhor opção. Adquiri essa habilidade com o tempo, o Mendez sempre me deu muito respaldo, certamente é uma das minhas melhores armas. 

O que faz a diferença para ser um bom passador e ser um ponteiro completo? Até brinco com nossos treinadores de base falando que hoje não se fazem mais ponteiros como antigamente. Nas seleções, é possível ver isso. Passar de manchete é bem mais complicado do que passar de toque. É preciso fazer o deslocamento de perna, chegar atrás da bola. Hoje as bolas estão mais rápidas, os saques também. Nem sempre consegue fazer o deslocamento e se chegar atrás da bola, é nessa hora que o recurso do jogador aparece. Pra isso, é preciso treino, prática, repetição. A teoria, simplesmente, não resolve. Tem que repetir dezenas de vezes até o movimento se tornar natural e automático. 

Ainda hoje pensa no que o fez não ser chamado para seleção? Eu pensava em seleção até a penúltima temporada, quando jogava com mais frequência. Hoje não mais. Por muito tempo, ganhei títulos, fui um dos destaques do Sada Cruzeiro, ganhei prêmios de melhor passador. Agora não tenho mais a pretensão de ser convocado, até pela minha idade. Mas, fazendo uma auto-análise, eu fui até além do que poderia ter feito. Joguei em alto nível desde os 27 anos, foi uma frustração muito grande não ter recebido uma única oportunidade. Falo não só por mim, mas ouvindo treinadores, comentaristas e jogadores. A decisão não é minha, não sei o que pode ter motivado a minha não ida. O detalhe é que quase todos os atletas que foram chamados chegaram a ser meu reserva na época de clubes. É algo difícil de entender. 

Pretende jogar por mais quanto tempo? Não sei dizer, mas gás eu tenho de sobra! A galera brinca falando que eu pareço um menino de 25 anos. Não gosto de colocar data na minha aposentadoria. Eu cuido do meu corpo, mas isso não é o mais importante. O que faz a diferença é ser apaixonado pelo que se faz. Nos treinos e jogos é onde eu me sinto realizado, mesmo com a pressão e o frio na barriga. Tenho uma vontade enorme de jogar vôlei, consigo superar o cansaço, o deslocamento de casa, o descanso perdido, tudo isso vale a pena quando estou em quadra. Ainda tenho muito a oferecer para o vôlei e também para a molecada que está chegando. 

O que dizer do exemplo que você é para os jovens atletas que fazem parte dos eventos esportivos do Estado com JEMG e JIMI? Sempre que chego na minha cidade, sou recepcionado na única ponte da cidade (risos). A turma vai pra lá de carro, solta foguete, independentemente se eu ganhei ou não na última temporada. É uma alegria ser chamado por eles de 'menino de Joaíma' quando retorno pra casa. É uma região sofrida não só na cidade, mas pra região que engloba outros municípios como Almenara, Felizburgo, etc. Os prefeitos aparecem, querem cumprimentar e fazer encontros com os jovens de vários esportes. É importante mostrar pra eles de onde eu saí e onde cheguei, apresentar a eles minha história. Sempre reforço com eles que é preciso sonhar,  persistir e batalhar para as realizações aparecerem, lembro que é possível chegar onde se almeja. É muito gratificante ser recebido desta forma por lá. 

Como era conciliar treinos e estudos? Não era fácil. Sou um cara inquieto, gosto de estar sempre aprendendo. Aprender nunca é demais. Busco isso sempre que posso. Sacrifiquei horas de sono, momentos de descanso. O MBA em Gestão Empresarial tinha aulas terças e quintas à noite. O treino acabava 18h40, a aula era 19h. Eu saía correndo do CT pra chegar a tempo dentro de sala de aula. Quando tinha jogos nestes dias, eu não comparecia. Mas era algo que eu queria muito, fiquei muito feliz quando me formei. Foi um aprendizado que vou levar pro resto da minha vida. 

Qual função pretende exercer quando parar de jogar? Ainda estou me preparando para este momento, ainda não pensei nisso. Gosto muito da parte de gestão empresarial e também de pessoas, é algo que acho interessante. Fazer algo com o Flávio (diretor esportivo) faz aqui no Sada Cruzeiro ou como o Cebola (supervisor) faz no Minas. Seria interessante ter um cargo como este em algum clube. É uma ideia que me agrada, mas não descarto também ser treinador ou preparador físico, aproveitando o diploma que tenho em Educação Física. 

Você acha que esta ideia de estudar e jogar precisa estar mais presente em atletas profissionais? Com certeza, a carreira dentro de quadra não é pra sempre. Minha mãe sempre reforçou dentro de casa a importância dos estudos e eu levei isso muito a sério. Eu não sabia como seria minha carreira com 15 ou 16 anos, foquei nos estudos, até pra ter uma boa condição financeira. Foi somente depois que formei em Educação Física que eu me soltei mais, aquilo foi um alívio pra mim. Se eu pudesse dar uma dica para as pessoas é essa: nunca parem de estudar. 

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