Hoje surfaremos com “A delicada arte de viver muito”, texto atribuído a Mário Donato D’Angelo. “Viver muito foi, por séculos, uma raridade. Coisa de avó centenária que conhecia a cura das doenças no cheiro do mato ou de personagem de romance russo, que morria em São Petersburgo, sob a neve, citando Aristóteles em voz embargada”.

Viver delicadamente

“Longevidade era exceção, agora, estatística. Vivemos mais. A medicina avançou, os antibióticos viraram gente da casa, o colesterol passou a ser vigiado como um criminoso. Mas viver muito não é a mesma coisa que viver bem. Aí, a grande arte. Porque a longevidade chegou antes do manual de instruções”.

Viver bem

“Envelhecer era olhar para trás com serenidade, cruzar os braços sobre o legado, saborear os frutos de uma vida bem vivida. Mas a velhice, como a infância, exige cuidados diários, e também alguma poesia. O corpo, esse velho cúmplice, começa a dar sinais de que o tempo passou”.

A vida é a arte e vermelha, com Isadora Mori. Foto: Edy Fernandes/Divulgação

Viver muito

“As juntas rangem como armário antigo, os reflexos hesitam, os músculos se retraem. E, às vezes, o mundo ao redor também se torna estranho, distante. Os amigos partem, os filhos se dispersam, as calçadas ganham degraus invisíveis. E de repente, o que mais dói não é o quadril, é o silêncio”.

Ver muito

“E então vem a queda. Não só a literal, a no banheiro, no degrau da padaria, na pressa inocente de atravessar a rua. Mas a simbólica: do entusiasmo, da autonomia, da autoconfiança. A queda de uma imagem de si mesmo que antes era firme, decidida, ágil. A queda de um modo de viver que não se encaixa mais no corpo que abriga a alma com mais cuidado”.

Amar muito

“A Organização Mundial da Saúde diz que um terço dos idosos sofre uma queda por ano. E essa queda pode ser o primeiro passo de uma jornada difícil: fraturas, cirurgias, internações, perdas, de mobilidade, de independência, de ânimo. Não é um alerta sombrio, mas um chamado amoroso à reinvenção. Porque o envelhecimento pode ser reinício”.

A vida é doce e rubro-negra, com Saide Nazar. Foto: Edy Fernandes/Divulgação

Muito é muito

“E preparar-se para ele é como preparar um jardim: exige tempo, presença, escolhas. É preciso cultivar força, não para carregar sacos de cimento, mas para levantar-se da cadeira com leveza e poder abraçar um neto sem receio de tombar. É preciso elasticidade, não só nos músculos, mas nas ideias. E é preciso algo ainda mais raro: gentileza consigo mesmo”.

Muito pouco

“Queira-se ou não a velhice chega, com rugas e lentidões, esquecimentos charmosos e manias de repetir histórias. Mas há velhices e velhices. As que florescem, porque foram cuidadas, porque tiveram sol e sombra, porque foram vividas com afeto, com liberdade, com algum humor. Sim, o humor. Ele é, talvez, o músculo mais importante a ser mantido”.

Pouco infinito

“Porque rir de si mesmo, das gafes, das perdas de memória, do tropeço nas palavras, é um jeito de desarmar o tempo. O ranzinza é um clichê injusto, há velhos encantadores, que dançam bolero na sala, tomam vinho com moderação e sorvete sem culpa. Que, aos oitenta, aprendem a usar o celular, e ainda erram, mas riem do erro”.

Lança-Perfume

“A longevidade, quando bem-vivida, é como uma tarde longa e luminosa. Daquelas em que o sol demora a ir embora e o tempo parece suspenso entre uma lembrança e outra”.

“Não é preciso correr. Nem competir. Basta estar inteiro: corpo e alma em compasso”.

“Um olhar amoroso para o futuro que já chegou. A velhice não precisa ser sinônimo de decadência. Pode ser plenitude”.

“E envelhecer bem não é luxo, nem sorte, é construção diária. Com passos firmes, com gestos suaves, com a força das pernas e o riso no rosto”.

“Com o cuidado do corpo, sim, mas também com a ternura da memória. Porque o segredo não é apenas viver muito”.

“É fazer da longevidade uma arte íntima, uma coordenação delicada entre o tempo e o desejo”.

“E que, ao final, quando chegar a noite, a gente possa dizer, com lucidez e com alegria: ‘foi bom ter vivido tanto, mas foi melhor ainda ter vivido bem’”.