A fachada antiga e um pouco descuidada de uma casa na região Centro-Sul de Belo Horizonte não revela que ali é um consultório médico. Toco a campainha, e um homem atende. "Fiquei sabendo que você pode me ajudar", digo. "Venha conversar aqui dentro", ele responde. Entro e me deparo com a sala de espera do consultório, com uma mesa de centro, uma escrivaninha e um assento para a paciente. Sento e falo que estou ali por indicação de uma amiga e que sei que ele pode "resolver o meu problema". A resposta é imediata: "De quantas semanas você está?", pergunta ele.
Assim, certifico-me de estar em uma clínica clandestina de aborto, instalada ali há cerca de 30 anos, segundo o médico que me atende. Pagando R$ 4.000, em dinheiro e à vista, para fazer a sucção, nome popular da Aspiração Manual Intrauterina (Amiu), uma mulher pode interromper ilegalmente sua gravidez nesse endereço. Mas, segundo relatos, o valor varia de R$ 1.500 a R$ 9.000 em clínicas clandestinas da capital.
"Você veio tarde", alerta o médico, após eu informar que estava de pouco mais de dois meses, ressaltando que o "procedimento" só é feito em mulheres de até três meses de gravidez. Ele recomenda um dia de folga para fazer o aborto, devido a questões psicológicas, mas diz que há pacientes que seguem a rotina.
Saio da clínica aliviada por não estar naquela situação de verdade e me lembro de uma entrevistada: "Acredite, mulher nenhuma quer fazer aborto", disse a artista plástica Cláudia (nome fictício), 44, que passou duas vezes pela situação. Mesmo assim, uma entre cinco mulheres enfrenta esse momento no Brasil, afirma um estudo premiado feito por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB).
Segundo um dos autores do estudo, o economista e sociólogo Marcelo Medeiros, o aborto é um problema de saúde pública. "O objetivo do estudo foi deslocar desse debate especulativo, conduzido por questões morais e religiosas, para um debate científico. Fizemos levantamento sobre a magnitude do aborto no país", conta ele, que comandou a pesquisa com a antropóloga Débora Diniz.
Em duas semanas de 2010 e utilizando uma técnica em que 2.002 mulheres, entre 18 e 39 anos, não precisariam se identificar, os pesquisadores concluíram que 22% das mulheres de até 40 anos já abortaram. "O perfil de quem fez (aborto ilegal) é de todas as religiões, níveis educacionais, grupos de renda, casadas, não casadas, com filhos. Quem faz aborto no Brasil é a mulher comum. Pode ser sua mãe, irmã, vizinha", diz Medeiros.
Outro estudo em cinco capitais revelou o "itinerário" desde a decisão até o local onde a mulher faz o aborto. Muitas delas compram ilegalmente o medicamento misoprostol e iniciam o procedimento em casa, como fez Cláudia em 2007. "Tive uma hemorragia e corri para o hospital", conta, lembrando que, então, os médicos fizeram uma curetagem. Esse procedimento pós-aborto foi a cirurgia mais realizada no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 1995 e 2007, segundo o Instituto do Coração (InCor), da Universidade de São Paulo (USP).
Legal. A curetagem uterina é uma forma comum de aborto legal no país, segundo a ginecologista e obstetra Alamanda Kfoury, professora da Faculdade de Medicina da UFMG. Na técnica, introduz-se um instrumento (cureta) no útero da paciente e raspa-se o material interno. "Tem que ser feito no hospital, com a paciente sedada. A curetagem tem baixo risco, mas pode haver uma perfuração", alerta.
A outra forma de aborto é a sucção, menos invasiva que a primeira. "Coloca-se (o instrumento) apenas na ponta do colo do útero e aspira-se o material. Tem que ser no hospital, é preciso ter sedação", destaca. Ambas duram cerca de dez minutos.</CW><CW-18>
A professora lembra ainda que o misoprostol é usado legalmente nos hospitais. "Pacientes sem orientação compram o medicamento no mercado negro e o tomam em doses altíssimas, o que faz o colo dilatar, e pode até romper o útero. As complicações principais (do aborto sem orientação) podem ser hemorragias e infecções por causa dos materiais", destaca. Segundo ela, há pacientes que chegam ao hospital com "abortamento em evolução", mas que negam que provocaram a situação. "Se for um caso gravíssimo, a mulher vai até para o Centro de Terapia Intensiva (CTI) e morre negando", diz.
Estrutura. Segundo relatos de médicos que preferem não ser identificados, as grandes cidades do país têm clínicas clandestinas de aborto bem-estruturadas. "Muitos desses (que fazem o aborto) são médicos mesmo. Aquela coisa da agulha de tricô já se modernizou", afirma um ginecologista e obstetra.
Entretanto, essa margem "segura" dessas clínicas é acessível apenas para mulheres com poder aquisitivo elevado. "A proporção em que complica é a da massa de mulheres que não têm esse poder aquisitivo e vão para esses procedimentos dos chamados açougueiros", diz outro especialista.