ERA PROIBIDO DE COMER

Corpo de criança que morreu com sinais de desnutrição aguarda família no IML de BH

Mãe e padrasto foram presos em flagrante; menino estava 'pele e osso', segundo PM

Por Isabela Abalen
Publicado em 09 de junho de 2024 | 13:07
 
 
 

O corpo da criança que morreu com sinais de desnutrição na Santa Casa de Lagoa Santa, na última sexta-feira (7 de junho), aguarda a família para deixar o Instituto Médico Legal Dr. André Roquette (IMLAR), em Belo Horizonte, e poder ser velado e enterrado. A informação foi confirmada, neste domingo (9 de junho), pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), que informou que concluiu os exames necropsiais. 

Um terceiro parente terá que se apresentar, já que a mãe, de 27 anos, e padrasto, de 19, foram presos em flagrante. O casal responde pelo crime de maus-tratos, com agravante por ter sido praticado contra um menino menor de 14 anos e que resultou em morte. 

Eles devem passar por uma audiência de custódia nos próximos dias, na qual um juiz decidirá se vai transformar a prisão em flagrante em preventiva ou se irá deixá-los responder em liberdade. 

Criança era proibida de comer e chegou a se alimentar de ração

Detalhes sobre o caso revelam uma rotina de crueldade a que o menino era supostamente submetido. O Boletim de Ocorrência (BO) do caso lista que a criança já teria sido vista se alimentando até de ração de cachorro e que, quando comia algo, sentia-se obrigado a vomitar por medo de ser castigado.

A Polícia Militar (PM) ouviu o padrasto da criança, a mãe e uma testemunha conhecida da família. O padrasto afirmou à polícia que, quando a criança começou a passar mal e foi levada ao hospital, onde já chegou sem vida, ele estava trabalhando em um serviço de mudança e, que, além disso, teve medo de ir à instituição e ser preso. Ele alegou que o enteado estava doente há seis dias, período no qual não se alimentava e estava vomitando “coisas verdes”.

Além do menino, o homem vivia com a companheira e outras três crianças, uma delas recém-nascida. O padrasto admitiu que privava o garoto de comer, segundo o homem por temer que a pouca comida que havia em casa, parte dela fruto de doações, não seria o bastante para todos. Quando via o menino comer mais do que o padrasto achava necessário, o homem se enfurecia e o deixava sem se alimentar por algum tempo, segundo relatou.  A mãe não concordava com esse tipo de castigo, de acordo com o padrasto, que então retrucava que ela estava deixando o filho “com muita ousadia”.

No depoimento à polícia, a mãe disse que “não conseguia mais falar sobre o caso”, mas admitiu já ter visto a criança se alimentar com comida de cachorro e não deu mais detalhes, apenas disse que o filho era teimoso.

Testemunha disse que menino tinha medo de ser castigado

A polícia também ouviu uma testemunha, um homem que abrigou as crianças em casa quando a mãe do menino foi dar à luz ao mais novo, recém-nascido. O homem relatou que todas as crianças pareciam magras, especialmente o menino de 7 anos, que falava baixo e tinha dificuldades para andar. As crianças pareciam ter medo, segundo ele, mas afirmavam que se alimentavam bem em casa.

Na casa do homem, foram alimentadas e, depois disso, o menino de 7 anos disse que precisava vomitar, pois tinha medo de ser castigo por ter comido, segundo a testemunha. No banho, o homem disse ter conseguido ver as veias e costelas do menino aparentes sob a pele. Ele teria sugerido ao padrasto das crianças que elas ficassem na casa por mais algum tempo, contudo o homem teria insistido para que fossem embora. A testemunha afirmou ter sido informada sobre a morte da criança por conhecidos.

Relembre o caso

A mãe da criança deu entrada com ela na Santa Casa de Lagoa Santa na sexta, e a equipe médica averiguou que o menino já estava morto. Havia sinais de desnutrição, mas não de violência recente, segundo os profissionais que acionaram a PM.

A mãe e o padrasto da criança foram encaminhados à delegacia, e o caso segue em investigação na Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG). O sargento Thiago Tavares, que atendeu a ocorrência, afirmou à reportagem que o caso configura omissão de tratamento médico. “Durante o registro da ocorrência, fomos informados pelo irmão que a criança estava proibida de comer. Isso era uma forma de castigo aplicada pelo padrasto”, sinalizou. 

 

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