"O que você vai ser quando crescer?" A pergunta, que parece simples e corriqueira, fica sem resposta quando é feita para Ana*, de 12 anos. Uma das crianças assistidas pelo Meninadança, entidade apoiada pelo Grupo SADA, ela não consegue mencionar um sonho sequer. Vítima de exploração sexual, ainda com tão pouca idade, ela já desaprendeu a ter esperanças. Essa é uma das consequências desse tipo de crime, que, segundo a psicóloga clínica Mirian Anjos, afeta as crianças de diversas formas e tem consequências inclusive na vida adulta.
“São nas experiências da infância que a criança se desenvolvem, criam autoconfiança, desenvolvem suas crenças a respeito de si, do mundo, do futuro. E, quando essa criança sofre agressões, exploração sexual, as crenças serão limitantes e distorcidas. Quando adulta, provavelmente terá muita dificuldade de criar vínculos afetivos, de se relacionar de forma geral, tanto em contexto pessoal quanto em contexto do trabalho”, explica ela.
Conforme a psicóloga, os relacionamentos íntimos também podem ser afetados, e, quando adultas, as mulheres podem ter dificuldades de confiar em seus parceiros e estabelecer limites saudáveis, além de apresentarem comportamentos autodestrutivos de automutilação, ideação suicida ou abusos de substâncias como álcool e drogas.
Embora não consiga traduzir em termos técnicos ou maduros, Ana* resume bem as consequências do que viveu. Ela, que foi violada sexualmente pela primeira vez aos 7 anos, diz que o fato a deixou com o “coração quebrado”. Os momentos ainda estão na cabeça da menina: “Eu só sabia que doía. Meu sentimento é de dor misturado com revolta, esperança de não passar mais por isso e ajudar outras meninas a superar, porque só quem já passou sabe como é”, afirma ela, que tem conseguido se restabelecer por meio do trabalho do Meninadança.
Esse restabelecimento da criança ainda na infância é importantíssimo para que ela consiga se desenvolver bem na vida adulta. Conforme Mirian, sem o devido tratamento, todas as escolhas futuras dessa criança poderão ser afetadas. A crença de incapacidade, de não ser boa o suficiente, de não ser capaz e de não ser merecedora pode ter graves consequências. “É claro que isso impacta na hora de ela fazer escolhas, tomar decisões. Na hora de escolher o que ela pode fazer da vida, vai estar sempre influenciada por ‘esses óculos’”, ressalta ela.
Maria*, de 14 anos, também assistida pelo Meninadança, sabe a importância de receber apoio. “Hoje eu teria coragem de falar ‘não’, que isso estava errado, que eu não precisava passar por aquilo porque eu tinha pessoas do meu lado”, conta.
*Nomes fictícios para preservar as vítimas
Delegada fala sobre ‘obrigação’
Denunciar casos de exploração sexual é uma obrigação, de acordo com a delegada Renata Ribeiro, responsável pela Divisão Especializada em Orientação e Proteção à Criança e ao Adolescente em Belo Horizonte. Ela lembra a Lei 13.431/2017, conhecida como Lei da Escuta Protegida, que garante a proteção das crianças e adolescentes, evitando a revitimização.
“Essas condutas devem ser denunciadas por quem a presenciou ou quem tenha conhecimento. Qualquer pessoa pode denunciar de forma anônima ou pelo Disque 100 ou 181 ou procurar a delegacia da Polícia Civil ou o Conselho Tutelar da sua cidade. Em Belo Horizonte, temos a delegacia especializada de proteção à criança, que funciona na avenida Nossa Senhora de Fátima, 2.175, no Carlos Prates”, diz.
Foi a partir de uma denúncia no interior de Minas Gerais que o caso de uma adolescente, que teria sido explorada sexualmente por 17 homens, chegou à Justiça. A menina recebia quantias como R$ 10 ou R$ 20 para ter relações sexuais com os acusados. O processo está concluso para sentença desde janeiro do ano passado. Agora, a espera é por justiça.
“O objetivo é garantir que a justiça seja feita, buscando a devida punição para os responsáveis e promovendo um impacto positivo e duradouro na vida das meninas que tiveram seus direitos violados, restabelecendo sua dignidade”, diz a advogada do Meninadança, Luisa Alves, que acompanha vários casos com esse perfil.
Reflexos atingem diferentes gerações
São muitas as consequências da exploração sexual para a vida de crianças e adolescentes. No entanto, a questão vai além. Conforme destaca Luciano Gomes, professor de ciências sociais do Centro Universitário UniArnaldo, “as implicações de exploração sexual infantil para a sociedade são profundas e duradouras, afetando não apenas as vítimas diretas, mas também suas famílias, comunidades e a sociedade como um todo”. Uma delas é a perpetuação da violência.
“A exploração sexual pode perpetuar um ciclo de violência, aumentando os índices de criminalidade e de violência doméstica”, afirma. “As consequências da exploração sexual podem ser transmitidas de uma geração para outra, afetando a saúde mental e o desenvolvimento das futuras gerações. Ela mina a construção de uma sociedade mais justa e igualitária”, diz.
A delegada Renata Ribeiro lembra também que “essas crianças e adolescentes nessa situação criminosa se expõem a doenças sexualmente transmissíveis, violência física, além de uso de drogas, evasão escolar e até mesmo gravidez precoce”.
Sinais de abuso
- Transformação. Segundo a psicóloga clínica Mirian Anjos, pode haver mudanças bruscas de comportamento. A criança pode ficar mais retraída, mais ansiosa, agressiva, reagindo de forma desproporcional.
- Escola. A vítima começa a ter uma queda repentina nas notas, aparentemente sem explicação.
- Hábitos. A criança pode sofrer regressão em alguns comportamentos já adquiridos, como voltar a fazer xixi na cama, usar chupeta ou chupar dedo.