Quando subiu ao palco da praça da Glória, em junho, Augusta Barna sentiu-se em casa. A apresentação no evento Minas ao Luar, abrindo o show de Chico Chico, foi um reencontro com suas raízes e uma oportunidade de conexão com a cidade onde nasceu. A cantora, compositora e atriz não precisou de muito esforço para encantar o público com seu carisma, sua beleza e sua voz potente e delicada, que abriu sorrisos e olhares de admiração diante das canções entoadas. “Foi um dos shows mais legais que eu fiz com o meu álbum Ana Miúda. Eu me senti super querida, muitas pessoas estavam ali vendo aquilo como uma novidade e foi muito incrível”, disse.
Augusta nasceu e cresceu no Jardim Laguna, bairro de tantas histórias e talentos. “Eu descobri depois que há muitos artistas que vêm desse bairro. Tenho amigos e colegas de profissão das artes plásticas que também são de lá. É um território fértil, apesar de todos os desafios”, observa.
O acesso limitado à arte na infância não a impediu de insistir no sonho. A persistência falou mais alto e ela foi em busca daquilo que fazia o coração bater mais forte. “Eu sempre quis ser cantora, mas não tinha dinheiro nem para ter um instrumento musical. Vivia numa família sem recursos, então, aos 15 anos, procurei uma escola de arte. Entrei no Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart), mas fui para o teatro e acabei ficando quatro anos lá. Nesse processo comecei a dar andamento à minha carreira, unindo o ensino médio com o Cefart e tentando equilibrar o que eu queria: viver 100% de arte e cultura”, recorda.
A caminhada, ela reconhece, nunca foi fácil. “O maior desafio que eu enfrentei na minha trajetória foi a minha própria cabeça, lidar com minhas incertezas. E, claro, a falta de dinheiro. Essa sempre foi a grande chaga da minha vida profissional. Porque só estuda quem tem dinheiro. Eu subverti completamente as expectativas do lugar social de onde eu venho. Consegui estudar no Cefart, depois na Bituca, mas não fui aquela criança que aprendeu violão com cinco anos porque a família podia pagar. Não tive isso. Venho de outro lugar, em que o dinheiro não permite. Sempre foi a questão: como vou comer, pagar minhas contas, viver a vida? Hoje, felizmente, já alcancei certa estrutura, consigo me sustentar com meu trabalho, mas a insegurança é absurda. O dinheiro sempre foi o que me afastou de os acessos necessários para a arte existir”, revela.
Se Contagem ainda não oferecia, na infância, os espaços culturais que a jovem sonhava, Augusta lembra que agora sente a cidade se aproximando dela. “Esse ano foi a primeira vez que eu cantei em Contagem com o convite da cidade. A prefeitura me chamou, a prefeita estava lá assistindo e curtindo meu som. Isso nunca tinha acontecido antes. Belo Horizonte estava muito mais no meu radar cultural, porque aqui não havia tantos eventos. Foi simbólico. Eu esperava esse convite há muito tempo”, confessa.
O retorno do público, entretanto, não veio sem estranhamentos – ainda que de uma minoria virtual. “Sofri vários hates nos comentários da página da prefeitura. Achei superconservador, mas isso é bem típico de Minas. E eu sou uma artista mineira que subverte esse lugar do conservadorismo. Minas ainda está muito ligada à seresta, ao que se entende como cultura mineira de forma limitada. E eu mostro que não, que há muito mais. Foi lindo o show e, ao mesmo tempo, um lembrete de que a gente precisa provocar mudanças”, pondera.
Referências e conquistas
Nessa trajetória, em que se confirma a cada dia como referência em vozes femininas potentes, Augusta se inspira em Elza Soares, Maria Bethânia e Elis Regina. Ao falar de sonhos, ela, que foi uma das vencedoras do Prêmio Flávio Henrique, do BDMG Cultural, se reconhece já realizada por tudo o que a música trouxe.
“Eu nunca tinha andado de avião, e foi a música que me deu isso. Nunca tinha saído do país, e saí pela primeira vez por causa da música. Tudo que conquistei, micro ou macro, tem a ver com ela. Meu maior sonho era lançar um disco, e ele já se realizou. Mas ainda quero muito mais: quero lançar todas as minhas composições, quero segurança financeira, quero ganhar um Grammy, tocar mais no exterior. Tenho muitos sonhos, e estou caminhando para isso. Em breve vem aí tudo que falta”, acredita.
Nos próximos meses, Augusta segue rodando com o disco Ana Miúda, e prepara novidades. “Vou lançar um álbum ao vivo, que foi gravado no Festival Sensacional, em BH, e tenho vários singles, com feats muito legais, como a cantora Bruna Limonda, de Recife. Sigo em turnê até maio de 2026 e estou animada”, finaliza.