muito além do dinheiro

Entenda os motivos de tantas pessoas trocarem de emprego no Brasil

País vive momento de recorde de demissões voluntárias, porque muitos profissionais procuram por melhores condições de trabalho

Por Gabriel Ronan
Publicado em 12 de outubro de 2022 | 05:02
 
 
 

A cada hora, 850 pessoas pediram demissão dos seus empregos no Brasil em agosto deste ano, conforme levantamento da LCA Consultores com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. Foram 632.798 demissões voluntárias – um recorde na série histórica iniciada em janeiro de 2020. Mas por que os brasileiros estão pedindo dispensa dos seus postos de trabalho em um momento em que a economia ainda se recupera? 

Vários fatores explicam o fenômeno na avaliação do economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores, responsável pelo levantamento. Ele aponta que o mercado de trabalho começa a se normalizar após o período crítico da pandemia da Covid-19, quando muitos negócios fecharam as portas. “Novas empresas estão sendo abertas e novas vagas estão sendo ofertadas. Então, isso faz com que o trabalhador enxergue melhores oportunidades no mercado. Ele simplesmente se demite de um lugar para se admitir em outro” diz. 

Ele cita o exemplo do setor de alojamento e alimentação. Muitos hotéis e restaurantes quebraram na crise sanitária. Com a retomada, empresários que eram desse mercado voltam à ativa, enquanto outros que sonhavam em abrir um negócio no ramo encontram condições melhores hoje do que há um ano. Com isso, há uma oferta de vagas com possibilidades melhores, incentivando os pedidos de demissão. Só em agosto, 42.858 pessoas pediram dispensa nesse setor, o equivalente a 2,2% das vagas em estoque – a maior proporção entre as 21 seções classificadas pelo Caged.

Além do fator financeiro, a mestre em administração na linha do comportamento organizacional e professora da Faculdade Arnaldo, Rachel Sette, lembra que o trabalhador, após a pandemia, passou a considerar ainda mais o fator qualidade de vida na hora de definir onde vai trabalhar. Não é só o dinheiro que conta. O momento de isolamento social fez outros fatores pesarem nessa balança, como a proximidade do local de trabalho e até uma preferência pelo home office.

“Os trabalhadores buscam por uma maior realização profissional em outra atividade, querem maior flexibilidade no trabalho. Então, isso tudo influencia para determinar se a pessoa quer permanecer naquele emprego ou não. Outras questões também são pertinentes, como o profissional querer se retirar de uma cultura corporativa tóxica, onde não há reconhecimento, não há diversidade, não há inclusão, equidade... Isso tudo vai causar uma insatisfação a ponto dele achar que não vale mais a pena, porque os valores, os princípios daquela empresa, não vão de encontro ao que ele de fato entende que é legal”, diz a professora.

O engenheiro eletricista Sidney Ronald, de 26 anos, é um dos milhares de brasileiros que pediram demissão nos últimos meses. Ele deixou uma empresa de mobilidade para virar fiscal da Cemig. A mudança, segundo o profissional, não se resumiu somente aos vencimentos mensais. “Eles não pagavam hora-extra. Era (um sistema de) banco de horas, mas a folga eram eles quem escolhiam o dia. Você não tinha a liberdade de escolher uma data. Outro motivo é que, durante a pandemia, a empresa abriu um novo negócio e deixou meu setor de lado. Faltavam ferramentas para trabalhar e tínhamos que fazer serviços para essa outra empresa ainda”, diz. A falta de vagas para estacionar o carro também pesou no pedido de demissão de Sidney.

Expectativa de crescimento e equidade pesam na decisão

Diante de um mercado de trabalho concorrido, um fator fundamental na tomada de decisão é a expectativa de crescimento. Se um profissional entende que não há mais chance de alçar voos maiores dentro daquela estrutura organizacional, dificilmente permanecerá naquele emprego por um longo período de tempo.

“Há uma forte tendência em busca de um reconhecimento. O que se espera, efetivamente, é que os profissionais com um desempenho diferenciado sejam reconhecidos conforme as suas entregas. As pessoas procuram reconhecimento, qualidade de vida, justiça interna no sentido de equilíbrio salarial entre gêneros, diversidade e equidade”, diz Elaine Andrade dos Santos, professora de inovação e gestão de pessoas da Una.

A product designer Camila Gomes deixou uma instituição financeira de Belo Horizonte para migrar para uma empresa de transporte de cargas para procurar evolução na carreira. Ela ocupava um cargo de nível pleno e sonhava em se tornar sênior. “Recentemente, recebi uma proposta via LinkedIn para participar de um processo seletivo. Era uma proposta para me tornar sênior. Estou na profissão já tem um tempo, mas não tinha subido de nível no banco. Agora, meu salário vai aumentar bem mais”, diz.

Tenho uma empresa. O que fazer para segurar meus funcionários? 

Diante dos consequentes recordes de demissões voluntárias no Brasil, as empresas precisam pensar em estratégias de valorização do trabalhador que vão além do salário mensal. A professora de inovação e gestão de pessoas da Una Elaine Andrade dos Santos lembra que o respeito aos direitos trabalhistas conquistados é o primeiro passo. Com a lei da terceirização, o mercado se acostumou a precarizar a relação trabalhista com a contratação como pessoa jurídica. O título de microempreendedor individual (MEI), por exemplo, foi desvirtuado.

“A legislação permite terceirizar todos os processos da empresa. Com isso, traz uma precarização do trabalho: do reconhecimento até os direitos consolidados nas leis trabalhistas, como férias, (pagamento de) um terço (do salário) sobre férias, 13º salário, recolhimento do INSS, FGTS... Então, os profissionais que saem de determinadas empresas e passam a ser PJ, trabalhando com o mesmo processo e nas mesmas funções, tiveram perdas significativas”, diz.

A mestre em administração na linha do comportamento organizacional e professora da Faculdade Arnaldo Rachel Sette segue a mesma noção. Ela aconselha as empresas a valorizarem seus funcionários além do aspecto financeiro. A promoção de ambientes acolhedores constrói laços muito mais consolidados, segundo a docente.

“É importante que as empresas se posicionem de uma forma mais empática, trabalhem mais a escuta ativa e consigam mapear o que de fato os seus funcionários gostam. A gente tem visto muitos funcionários resistentes a lideranças imbatíveis, que dão conta de tudo. Agora, o que está sendo valorizado é uma liderança mais vulnerável. Então, as pessoas querem lidar com pessoas como elas, que têm as mesmas fragilidades que elas”, diz a especialista.

Rachel lembra, ainda, que o oferecimento de cursos, mentorias e capacitações também ajudam a assegurar um ambiente de trabalho mais acolhedor e preocupado com o desenvolvimento profissional.

Notícias exclusivas e ilimitadas

O TEMPO reforça o compromisso com o jornalismo profissional e de qualidade.

Nossa redação produz diariamente informação responsável e que você pode confiar. Fique bem informado!