Ao lado da Praça da Estação, um prédio amarelo de quatro andares ocupa um quarteirão inteiro da avenida dos Andradas. Lá, há cerca de 200 lojas de variados tipos, desde gráficas e sebos a escritórios de contabilidade.

No quarto andar, aproximadamente 70 dentistas trabalham na assistência odontológica do Ipsemg, e a construção abriga ainda unidades da Secretaria de Cultura de Belo Horizonte e a sede da Economia Solidária da capital.

À primeira vista, um prédio comercial como qualquer outro. Mas nos últimos dois anos o Edifício Central tem se tornado também point gastronômico e da boemia, especialmente entre aqueles interessados em explorar os diversos espaços que a cidade oferece.

Edifício Central tem entrada pela avenida dos Andradas e Aarão Reis. Foto: Flavio Tavares/O TEMPO

O prédio concentra 18 novos bares, cafés, restaurantes e baladinhas de diferentes estilos. Há opções para quem quer comer bem, experimentar drinks, se jogar na pista ou só tomar uma cervejinha depois do expediente.

Os que são da turma do cafezinho podem ainda passar pelo Dengo Café ou pelo Bendito Grão – este último inaugurado há cerca de três semanas, sendo um dos estabelecimentos mais recentes do prédio.

O estabelecimento que puxou esta fila foi o Flor de Jambu, aberto no edifício em 2022, no segundo andar do prédio, pela cozinheira Fernanda Souza. Paraense, ela já entregava marmitas feitas com ingredientes vindos do estado do Norte do país, e, em 2021, começou a participar de eventos culturais no prédio, onde viu potencial para abrir o primeiro negócio na varanda. 

Por lá, são vendidos pratos típicos paraenses como croquete de piracuí, frango no tucupi, maniçoba e creme de cupuaçu com raspas de camaru. “O que me motivou a abrir a Flor foi estar distante da minha cidade, da minha cultura e da minha família”, conta.

Logo quando abriu as portas, Fernanda notou que as pessoas enxergavam o edifício apenas como um local para atividades comerciais. “Havia também a visão de que o entorno era perigoso. Hoje, percebo que esse pensamento mudou: até mesmo aqueles que antes viam o espaço como arriscado passaram a dar uma chance, entenderam que há um processo de revitalização e que o comportamento externo não é tão perigoso assim”, analisa.

Entre os proprietários de bares do Edifício Central, o movimento de ocupação é comparado à revitalização do Mercado Novo, em 2018, e da Galeria São Vicente, em 2023, com a diferença de que o espaço busca se consolidar como acessível a todos, segundo Simon Bessa, proprietário d’O Boêmio, o segundo bar a se instalar no prédio.

“Acredito nessa forma de reocupar a cidade, mas com ressalvas. Há espaços que acabam ficando mais elitizados, afastam o público que frequentava ali antes e atraem pessoas que nunca tomaram uma cerveja no centro”, analisa.

Ao comprar a loja, Bessa ouviu que “era doido”, mas apostou que o empreendimento prosperaria. “Um dos grandes desafios é mostrar que essa não é uma região perigosa. Outro desafio é transformar o Edifício Central em um território gastronômico, com comidas e preços diversificados”, completa.

O Boêmio foi o segundo a chegar do Edifício Central. Foto: Flávio Central/O TEMPO

Antes de abrir O Boêmio, Bessa teve bares no Anchieta e no Cruzeiro. Como sommelier de cerveja, sempre valorizou o caráter “democrático” da bebida e quis comandar um espaço em que ela fosse acessível a todos. “Por isso, comecei a procurar um ponto onde pudesse explorar isso. O Flor de Jambu já existia, mas fui o primeiro a trazer essa proposta para o período da noite”, explica.

No cardápio do bar, destacam-se as almôndegas e a prexeca (carne empanada recheada com jiló e queijo_, que entrou recentemente como item fixo após estrear no Viradão Gastronômico da Virada Cultural.

Nucentral Comidaiada

Também no segundo andar, está o Nucentral Comidaiada, restaurante comandado por Elian Rodrigues e Erika Rodrigues, aberto em 2024. “Eu pesquiso comida afrodiaspórica em um projeto que junta culinária mineira e baiana. São duas gastronomias gostosas demais, mas que ainda enfrentam dificuldades por causa do racismo”, aponta.

Rodrigues destaca que eventos como Festa da Luz e Virada Cultural, que acontecem no hiper-centro de Belo Horizonte, são fundamentais para dar visibilidade para restaurantes, opinião compartilhada entre todos os proprietários de bares do Edifício Central. “Esses momentos são muito bons economicamente para nós, que somos pequenos empreendedores”, afirma. 


O chef explica que a escolha pelo Edifício Central tem motivação política e cultural. “Sou trans, tenho 43 anos e sempre entendi a importância dos nossos corpos ocuparem esses espaços. O prédio tem história, foi projetado para ser democrático. Quando surgiu a ideia de ocupar, percebi que era o momento de mobilizar empreendedores e mostrar que podemos estar aqui, de frente para a cidade, construindo novos caminhos”, assegura. No cardápio, o Nucentral valoriza insumos mineiros e baianos. Um dos pratos que mais faz sucesso é o Baianeiro, que une acarajé ao torresmo.


Drinks e comidinhas

De tanto ir até O Boêmio para tomar cerveja, Antônio Mello decidiu que era ali que abriria o Baixaria, bar localizado no terceiro andar do Edifício Central. “Sempre achei o prédio muito bonito. Então, falei para meu sócio que poderíamos abrir aqui, porque sempre quisemos um bar de esquina”, conta, em conversa com a reportagem, sentado na varanda do bar.

De fato, o estabelecimento fica na “esquina” do prédio, com vista privilegiada para a Praça da Estação. “Desde o início, queríamos que o Baixaria tivesse identidade própria, sem perder a essência de um boteco de esquina”,  que é dono de outro estabelecimento no edifício, a Cervejaria Bololô.   

Para consolidar essa personalidade, o bar apostou em uma carta de drinques autorais, que rapidamente se tornou destaque da casa. Entre os mais pedidos estão o Sarrada e o Menáge. Na cozinha, o cardápio também evoluiu: a proposta inicial de opções simples deu lugar a pratos quentes elaborados com ingredientes tipicamente mineiros. Hoje, o Baixaria oferece desde o clássico cupim com queijo minas até criações vegetarianas inovadoras, sempre com valorização da gastronomia local. “Nosso cardápio é mineiro na alma, mas permite brincar com nomes e combinações”, indica o proprietário.

História do Edifício Central

O Edifício Central foi projetado em 1962 e teve sua construção finalizada em 1966. A ideia inicial era que o prédio funcionasse como uma espécie de Ceasa, conforme explica o síndico Antônio Eustáquio. “O projeto era para receber grãos não perecíveis e servir como centro de distribuição. No meio do caminho, com a moda dos shoppings, mudou-se o desenho: colocaram lojas e salões para abrigar órgãos públicos.

Assim, o movimento seria garantido pelos próprios funcionários e também pelas pessoas que vinham ser atendidas por esses órgãos”, explica. Na época, funcionaram no edifício instituições como a Emater e a Cohab, além de gráficas, sebos, escritórios de contabilidade e lojas de conserto de máquinas. “Nos anos 1980, vieram a Prodabel e o Ipsemg, que chegou a ter um serviço odontológico com 200 dentistas atendendo aqui”, relembra o síndico, que está no local desde 1980 com sua empresa, o Pronto-Socorro do Livro. 

Com a pandemia, no entanto, o cenário mudou. O atendimento odontológico caiu drasticamente, e muitas lojas foram entregues pelos inquilinos. “De 2015 a 2020, o prédio já vinha esvaziando. Na pandemia, a situação se agravou. Quem não conseguiu negociar redução de aluguel saiu, e tivemos uma dificuldade muito grande. A retomada começou em 2023, quando iniciativas culturais e gastronômicas chegaram ao edifício. “As pessoas voltaram a acreditar, e a sensação é de sucesso, de um ambiente bacana e relativamente seguro”, comemora Eustáquio.