Não é tão fácil de achar. Tem que entrar no Edifício Central, localizado no centro de BH, subir o elevador e encontrar o corredor correto – o que conta com varanda com vista para a avenida dos Andradas e para as empenas dos prédios coloridos pelos artistas do Circuito Urbano de Arte – o Cura. Para não ter erro, o Flor de Jambu, espaço cultural nortista de BH com restaurante típico paraense – e que só atende com reserva –, fez até vídeo nas redes sociais para ensinar como chegar até o ponto certo, sem erro.
Aberto há poucos meses, o estabelecimento – antes, a iniciativa só existia via delivery e em participações de eventos gastronômicos – chama a atenção não apenas pela excelência da comida, mas também pelo ambiente. “Comecei a ver o Edifício Central como uma grande solução para o Flor de Jambu, porque o aluguel tem um preço que eu posso pagar e o espaço fica no baixo centro de BH, que é de resistência, o que faz sentido para a gente e que também é representativo para a nossa cultura nortista”, disse a cozinheira Fernanda Souza, paraense, nascida no município de Ananindeua.
Do restaurante, saem iguarias da região, como o tacacá (uma combinação de jambu, tucupi e camarão), vatapá paraense, açaí com peixe frito e outros preparos que são feitos de acordo com a disponibilidade dos insumos típicos do Norte do país, que chegam diretamente do Pará, cerca de duas vezes ao mês, para abastecer a cozinha. E que tem agradado, cada vez mais, aos paladares mineiros. “A maioria que vem conhecer aqui nunca teve contato com a comida do Norte, então aproveita para pedir mais de uma opção do cardápio para provar e acaba gostando”, diz.
Longe das ruas e dos passeios que possibilitam o contato direto com quem esteja passando, o espaço funciona quase com um marketing orgânico. Fernanda fala sobre a curiosidade que os mineiros têm pelo espaço. “Muita gente chega pelo movimento do boca a boca. Vão espalhando a palavra e divulgando, e, por aqui, também fazemos um trabalho forte pelas redes sociais”, conta ela.
A estratégia é a mesma adotada pelo cozinheiro Ricardo Manaus, do restaurante A Casa de Angola, vizinho do Flor de Jambu, especializado em receitas elaboradas com ingredientes que não têm origem animal, como tofu frito recheado com pasta de nirá, missô e tahine e nhoque de batata-doce ao molho de tomates com shitake. Ele conta que muitas pessoas não entram no Edifício Central porque ainda requer tempo para que o endereço seja um local de destino, e não de passagem. “O entorno do prédio é uma área de trânsito, as pessoas passam por ali ou vão para eventos específicos”, pontua.
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Processos
Antes de ocupar o Edifício Central, o estabelecimento existia no bairro Padre Eustáquio, na região Noroeste de BH, e a cozinha dividia espaço com o coletivo de estudos da Capoeira Angola. “A pandemia chegou, e manter a casa ficou inviável. Fui em busca de um espaço para abrigar meu trabalho, e o Edifício Central era um destino que eu já mirava”, relembra ele. Algumas pessoas diziam que não era boa ideia, pois ele ficava no baixo centro, e isso para mim era um dos principais motivos de querer que fosse ali: queria tornar popular e acessível meu conceito de alimento”, justifica.
Foi assim que Manaus começou a impulsionar o movimento de ocupação do prédio, no meio da pandemia. Ele criou uma feira chamada No Corredor da Central, projeto que reunia feirantes de diversos segmentos, somados a iniciativas culturais e apresentações musicais e com o apoio do próprio condomínio. “Nesse momento, várias das pessoas que vinham expor na feira se interessaram em fixar um ponto no edifício, a exemplo do Flor de Jambu, que hoje traz um movimento bonito e significativo para o local”, esclarece.
Outro motivo que também impulsionou Ricardo Manaus para a abertura do Casa de Angola foi que, no mesmo Edifício Central, funcionou o primeiro restaurante vegetariano de BH, nos anos 70. “E, em um arranjo do destino, quando abri a minha cozinha, fui presenteado com alguns pratos que pertenceram a ela (dona do antigo restaurante)”, rememora. Agora, o objetivo é democratizar o acesso. “Não adianta colocar em um espaço um monte de talentos, sejam gastronômicos ou de qualquer área, e restringir seu acesso a apenas à fatia da sociedade que é privilegiada financeiramente. A ideia é ocupar esses espaços e gerar acesso popular e de qualidade. Caso contrário seremos mais do mesmo”, conclui.
Onde ir:
Flor de Jambu
Sábado: 12h às 14h30 e 18h às 21h
Reservas pelo Instagram @florde_jambu
Edifício Central: Av. dos Andradas, 367, Centro
Casa de Angola
Segunda à sábado, das 11h às 15h
Edifício Central: Av. dos Andradas, 367, Centro