A situação embaraçosa não deixa dúvidas: a pergunta é capciosa. Para completar, o fato de serem pegos desprevenidos, tendo que responder de supetão, deixa os interlocutores numa saia ainda mais justa do que seria de se supor. No TikTok e no Instagram circulam vídeos de homens instados a responder quem eles amam mais, se a esposa, os filhos ou a mãe. 

As reações da internet foram ainda mais intensas e acenderam o debate sobre uma suposta gratidão eterna que os filhos deveriam dedicar aos pais, na contramão do que o escritor britânico Oscar Wilde (1854-1900) definiu com seu humor ferino, num dos aforismos mais polêmicos do autor de “O Retrato de Dorian Gray”: “Os filhos começam amando os pais; quando crescem, os julgam; às vezes, perdoam-os”. A temática é espinhosa e merece uma abordagem bem detalhada.

Psicólogo e especialista em terapia de casal, Gabriel Aguilar observa que “a gratidão saudável nasce do vínculo e  do afeto genuíno”. “É quando o filho, ao olhar para a sua história, reconhece o que foi feito por ele e sente vontade de retribuir, não por dívida, mas por amor”, conceitua. Ele diferencia essa perspectiva do senso de obrigação, “quando essa gratidão vira uma cobrança”. 

Chantagem

A famosa frase “eu fiz tudo por você, agora é a sua vez”, tenderia a criar “culpa, peso e até afastamento” entre os envolvidos. “O amor, quando vira cobrança, se torna prisão emocional. Gratidão imposta perde o valor”, sublinha Aguilar. Estabelecer esse tipo de dinâmica poderia gerar consequências negativas justamente para “a pessoa a quem se pretende levar o amor”.

“Quando o filho é ensinado que precisa sempre corresponder, retribuir ou viver em função dos pais, ele deixa de olhar para si”, salienta o psicólogo. Essa autocobrança excessiva poderia levar “ao medo de desapontar e à percepção de que pensar em si próprio seria um ato egoísta por escolher a sua própria vida”. 

“Isso trava a construção da identidade, gera insegurança, necessidade de autoafirmação, dificuldade para falar ‘não’ e se posicionar. Um filho que vive para agradar aos pais não consegue descobrir quem é de verdade. Ele pode até ter sucesso profissional, mas muitas vezes vive frustrado emocionalmente, como se estivesse devendo algo que nunca vai conseguir pagar”, alerta Aguilar, que ainda destrincha os riscos inerentes à chantagem emocional.

Responsabilidade

Segundo o especialista, esse tipo de estratégia nefasta viria disfarçada nesse contexto em frases como “depois de tudo o que eu fiz por você, é assim que você me trata?” ou “você só está onde está por minha causa”. “Isso mina a autoestima do filho. Ele se sente culpado por crescer, por discordar, por querer uma vida própria. E essa situação pode gerar efeitos colaterais como culpa crônica, dificuldade de se posicionar, crises de identidade, ansiedade e até depressão. A chantagem emocional quebra a confiança e envenena o vínculo”, resume. Na opinião de Aguilar, é preciso ter em mente que “o sacrifício dos pais é nobre, mas não deve nunca ser usado como uma moeda de troca”.

Aguilar pontua que, nesta equação, cabe aos pais a fatia mais relevante acerca dos deveres para com o outro. “Quando alguém decide ter um filho, está assumindo uma responsabilidade e não firmando um contrato de retorno emocional eterno. Ninguém pediu para nascer. Isso muda tudo. Os pais têm o papel de cuidar, amar e proteger e isso é obrigação. Mas isso não dá a eles o direito de exigir submissão, retorno ou idolatria. Gratidão eterna só é bonita quando é espontânea. Um ato de amor, quando vira exigência, se contamina”, diferencia. Ele aproveita o ensejo para avaliar especificamente a viralização de vídeos nas redes sociais em que as pessoas são estimuladas a medir esse tal amor ao próximo numa “espécie de balança”.

“Esse tipo de comportamento revela que a gente ainda está muito preso a disputas emocionais, como se o amor fosse um ranking. Como se amar um fosse desamar o outro e isso é um reflexo de relações onde o afeto virou competição. A mãe quer ser amada acima da esposa, a esposa quer prioridade em tudo, o filho precisa se sentir o centro do mundo, o problema não está na pergunta em si, mas no sentimento de posse que ela revela. O amor saudável não precisa ser hierarquizado. Ele se adapta, se organiza e se multiplica”, aponta o psicólogo, que não esconde seu descontentamento com o modo como até os sentimentos mais puros vão se convertendo em mercadorias.

Para superar essas armadilhas cada vez mais comuns no mundo contemporâneo, Aguilar receita “verdade, presença e afeto real”. “Quando o filho percebe que pode ser ele mesmo e que é amado sem ter que pagar por isso, a gratidão nasce. E o mesmo vale para os pais, quando um pai ou mãe consegue olhar para o filho como alguém livre e não como um investimento emocional que precisa de retorno, tudo flui melhor. A gratidão mútua aparece nos gestos, no cuidado, na memória afetiva. Não precisa ser dita o tempo todo. Precisa ser sentida de forma leve, sincera e viva!”, diz o especialista.

Perdoar não é esquecer

Se a gratidão envolve sentimentos profundos e muitas vezes difíceis de serem acessados, com o perdão não é diferente. E, se a questão, o problema ou o trauma envolve os dois, a superação do obstáculo demandará ainda mais delicadeza, conhecimento e sensibilidade.

O psicólogo Gabriel Aguilar deixa claro que, numa relação entre pais e filhos que diagnostica a exigência por parte dos primeiros de uma suposta e devida gratidão eterna, “o perdão é essencial, mas não no sentido de esquecer ou fingir que nada aconteceu”. 

“É preciso olhar para a dor e reconhecer o que foi feito, entender de onde aquilo veio e, muitas vezes, entender que veio de pais machucados também, para poder se libertar do ciclo. O perdão quebra a corrente da culpa e não apaga o passado, mas o ressignifica. E quando vem acompanhado de limites claros, pode reconstruir pontes onde antes havia apenas cobrança e mágoa. Perdoar é deixar de carregar o que não é seu”, arremata o psicólogo.