Há algumas décadas, o casamento e a constituição de uma família eram prioridade para a maioria das mulheres. Hoje, contudo, outros objetivos aparecem à frente dessas realizações, como os estudos, a carreira e a estabilidade financeira. Essa mudança cultural, aliada à consciência da evolução da ciência e dos tratamentos de fertilidade feminina, tem motivado um crescente número de pessoas a adiar a gravidez. É o que indica a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida e também o que se pode inferir a partir dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos do Ministério da Saúde. Segundo a entidade, nos últimos dez anos, o volume de casos de gestação após os 35 anos cresceu 84% no Brasil. E mais: partos de mulheres acima de 40 anos também vêm se ampliando e, embora ainda sejam minoria, já representam de 2% a 5% do total no país.

Embora seja um tema cada vez mais comum, a chamada”gestação tardia” tornou-se alvo de maior interesse e curiosidade a partir do anúncio de Claudia Raia, que, aos 55 anos, revelou estar grávida de seu terceiro filho – o primeiro com o seu marido, Jarbas Homem de Mello. A artista, como é direito dela, não deu muitos detalhes sobre como foi o processo de fecundação, se teria sido natural ou mediante procedimento em laboratório. Mas, como é impossível engravidar naturalmente após a menopausa, isto é, quando a mulher deixa de ovular, e Claudia já falou abertamente sobre os desafios de ter passado por essa fase, fãs especulam que ela tenha recorrido a métodos de reprodução assistida.  

Uma abordagem que possibilita a gestação tardia passa pelo congelamento de óvulos para, no futuro, a realização de uma Fertilização in Vitro (FiV) – expediente já citado como uma opção pela atriz. Neste caso, a fecundação acontece em laboratório, e, posteriormente, o embrião é inserido no corpo da mulher.

Claudia Raia está grávida do primeiro filho do casamento com o ator Jarbas Homem de Mello

“A ocorrência de gravidez espontânea nessa faixa etária é muito rara. Há uma série de fatores que contribuem para isso, como aspectos hormonais e redução progressiva da quantidade e da qualidade dos óvulos”, explica a ginecologista obstetra Mônica Nardy. A profissional detalha que os 35 anos, geralmente, são um grande marco de declínio da fertilidade, cuja taxa é de cerca de 20% nessa idade, caindo para em torno de 2% aos 40. A partir dos 42, o índice é menor que 1%.

Mas a potencial inviabilidade da fecundação natural não impede que mulheres engravidem após essa faixa etária. “Hoje, temos a possibilidade da inseminação artificial, mas, mesmo assim, é importante que a pessoa se planeje adequadamente para essa tentativa de gestação tardia. Por exemplo, sabemos que quanto mais cedo é feita a coleta dos óvulos (para congelamento), maior é a chance de sucesso do tratamento, uma vez que a qualidade e a qualidade dos óvulos são um fator determinante. Idealmente, portanto, o recomendado é que o procedimento seja feito antes dos 35 anos”, sugere a especialista, detalhando que, no caso de mulheres com mais de 45 anos, não se faz a retirada do óvulo da própria mulher. Neste caso, pode-se optar pelo uso de óvulos doados.

Riscos

Mônica Nardy ainda destaca que as pacientes que buscam esse tratamento devem ser informadas que a chance de sucesso não é garantida. “Devemos lembrar que, geralmente, a gravidez tardia implica riscos. Estatisticamente, temos 50% de chance de perda gestacional no caso da fecundação espontânea depois dos 40 anos. Outros riscos devem ser observados. Para o bebê, temos as cromossomopatias, como a síndrome de Down, e, para a mãe, doenças relacionadas ao ciclo gravídico, como o hipotiroidismo, o diabetes e a hipertensão gestacional”, adverte.

A ginecologista obstetra destaca que o histórico de vida da mulher também é um fator a ser observado. “Sabemos também que hábitos de vida saudáveis – como uma boa qualidade de sono, uma alimentação balanceada e uma rotina de atividades físicas e de controle do estresse – contribuem para a fertilidade, uma vez que beneficiam processos de ventilação celular, melhorando a qualidade dos embriões”, comenta, lembrando que, se a paciente já está no climatério, pode ser indicada reposição hormonal ou o uso de fármacos, recursos que contribuem para que a gravidez transcorra sem maiores problemas.

‘É possível, mas não é simples’

A psicóloga familiar Daniela Bittar concorda com as ponderações de Mônica Nardy. Ela lembra que, até algumas décadas, a gravidez geralmente acontecia entre os 20 e os 30 anos. “Hoje, muitas mulheres começam a querer engravidar após a terceira década. Portanto, é importante dizer que, sim, isso é possível, mas é também crucial lembrar que não estamos falando de um processo simples”, pontua. 

“Como estamos falando do desejo de ter um filho, algo que mexe muito com as pessoas, precisamos trazer para essas pessoas informações reais e honestas para que elas tenham condições de se municiar de conhecimento para tomar decisões acertadas e se planejar adequadamente”, sinaliza, lembrando não serem incomuns os relatos de mulheres que precisam de mais de uma tentativa até que a FiV leve a uma gestação que chegue até o fim.

Daniela destaca que, no caso da gravidez tardia, os exames de acompanhamento tendem a ser mais frequentes. E, para além do pré-natal fisiológico, sugere que essas gestantes busquem acompanhamento psicológico. “Essa mulher vai passar por muitos episódios de variação de humor, decorrentes de oscilações hormonais que são comuns na gravidez e que podem ter efeitos acentuados por conta de mudanças no corpo com a proximidade do climatério. É importante cuidar disso”, sinaliza.

Relato

Exceção à regra, a história da jornalista Rejane Ayres, 49, impressiona. Há três anos, ela teve a sua primeira filha, Nina, fruto de uma gravidez espontânea e sem intercorrências. “Quando comecei a namorar o André (Tavares, 50), nós dois já tínhamos mais de 40. Logo no início, ele, que já tinha um filho, disse que gostaria de ter outro e perguntou se eu também gostaria. Eu disse que sim, mas que não sabia se daria conta, por causa da idade. Decidimos que, se acontecesse, seria ótimo. Senão, ótimo também. Mas não seria uma grande questão para nós”, observa, salientando que a maternidade nunca foi, para ela, uma condição de felicidade. “Eu tinha vontade, mas não era o objetivo máximo da minha vida. Além disso, cogitava a via da adoção. Quer dizer, esse desejo de maternar era amplo”, pontua.

Rejane Ayres engravidou naturalmente aos 45 e teve sua filha, Nina, em um parto natural, dois meses após completar 46 anos.

“Engravidei rápido, mas tive duas perdas gestacionais, ambas no primeiro trimestre, que é um período mais complicado independentemente da idade da mãe”, comenta. “A partir de então, pensei que não era para ser. Por um ano, focamos a adoção. Mas, durante essas conversas, engravidei da Nina”, lembra. “Tive uma gestação muito tranquila e bonita, sem nenhuma intercorrência. O parto, natural, aconteceu na triagem! Não deu nem tempo de chegar à sala de parto. Quando o médico chegou para fazer o exame de toque, ele percebeu que o processo expulsivo já havia começado. Vieram vários enfermeiros, me colocaram em um biombo, colocaram um banquinho para o obstetra, e ela nasceu”, narra, comparando a cena com a de um filme.

“Sei que minha história é uma exceção. Sei que tive sorte, que contei com a genética, uma vez que minha menstruação veio mais tarde e alguns estudos indicam que isso pode prolongar a fertilidade, e que meus hábitos de vida, como uma alimentação leve e uma rotina ativa, também favoreceram esse acontecimento”, admite.