O título acima desperta curiosidade, mas a informação é verdadeira. Nas raves de Berlim, na Alemanha, não é incomum ver alguém tirar um pacotinho e esticar uma carreira de um pó misterioso. Essa substância é marrom e tem um cheiro familiar: de infância e da casa da mamãe. O pó vem de uma planta da América tropical e é legal – trata-se do Theobroma cacao, ou simplesmente chocolate.
A ideia apareceu na rave Lucid, em Berlim, onde qualquer coisa que não seja o cacau, os chás herbais e os pratos vegetarianos é proibida – inclusive álcool. Lá o cacau vem em drinques. Outra rave, a Morning Gloryville, na Holanda, oferece também em forma de pílulas.
Os defensores do cacau dizem que o barato é sutil, mas perceptível. Uma sensação de paz, prazer e concentração. Mas precisa ser cacau cru ou o chocolate com o mínimo de açúcar e pelo menos 70% de cacau – o simples chocolate em pó contém manteiga e muito açúcar, o que diminui os princípios ativos para menos de 10% do puro.
A “mágica” do chocolate ainda não está bem esclarecida. Universidades ao redor do mundo têm inúmeras pesquisas sobre o doce, mas, como opiáceo o chocolate não foi investigado em humanos.
Além de teobromina, seu psicoativo mais famoso, o chocolate tem triptofano, que é relacionado à produção de um dos hormônios do bem-estar, a serotonina. Outro candidato é a feniletilamina, um composto que é liberado pelo cérebro durante o orgasmo – mas esse tem um sério problema de ser destruído no estômago antes de chegar ao cérebro, e os cientistas ainda não realizaram nenhum teste de aspiração.
A teobromina em si não é tudo isso: até onde se sabe, é uma versão mais leve da cafeína, que é quimicamente quase igual. Ela demonstra potencial para o tratamento de asma e problemas circulatórios, não de tédio.
O prazer de comer chocolate provavelmente tem mais a ver com ser delicioso: comer algo bom libera endorfina no sangue, causando uma sensação de calma e prazer.
Pelo menos, ninguém vai morrer de overdose: uma dose mortal de chocolate puro (sim, isso existe) é por volta de 30 kg para uma pessoa de 70 kg. Só não convide o cachorro para a festa: para eles, a teobromina pode ser letal em doses bem menores.
Mercado. Atento a um mercado pouco convencional, o chocolatier belga Dominique Persoone criou o “Shooter Chocolate”, algo como “atirador de chocolate”, um dispositivo que lança pequenos caroços de cacau em pó diretamente nas narinas. Ainda que os efeitos de inalar chocolate sejam basicamente desconhecidos, o dispositivo está ganhando popularidade rapidamente.
O “atirador” consiste em uma pequena catapulta com duas colheres impulsionadas por molas que arremessam cacau em pó nas narinas.
“Você o carrega como uma arma, colocando um pouco de mistura de chocolate na máquina. Então, você empurra, e puffff! O chocolate chega ao seu nariz”, explica o chocolatier em um vídeo no Youtube. Segundo ele, já foram vendidos mais de 25 mil kits desde 2007.
Como rapé
Inspiração. Dominique Persoone criou o “cheirador” para uma festa dos Rolling Stones em 2007, inspirado por um dispositivo no qual seu avô costumava inalar rapé de tabaco.
Doce age na mesma região dos vícios
Não são poucas as citações na mídia sobre os benefícios do chocolate: alguns nutricionistas afirmam que comer o amargo todo dia pode reduzir a pressão sanguínea e beneficiar o coração. Também dizem que pode evitar alguns tipos de câncer, derrames e até melhorar a memória.
Entretanto, não tem como negar que o chocolate é uma substância bastante viciante, então, cheirá-lo poderia, teoricamente, tornar-se um vício.
De acordo com Ashley Gearhardt, da Universidade de Michigan, nos EUA, o chocolate é consistentemente classificado como o alimento que as pessoas mais têm dificuldade para deixar de consumir. A pesquisadora diz que isso ocorre porque o chocolate provoca uma resposta de determinada parte do cérebro. “Essa mesma região é uma daquelas que sabemos ser realmente importante em outros vícios de drogas”, disse ela. (DR)