Fabricio Carpinejar

Poeta escreve todos os domingos no Magazine e no Portal O Tempo

As padarias da verdade

Publicado em: Sáb, 20/11/21 - 03h00
As padarias mineiras são uma perdição. 
 
Você encontra tudo o que não deve. É um free shop da gula. Ninguém se contém porque deseja aproveitar o bilhete da viagem internacional.  
 
Já que passou por ali, não pode desperdiçar a chance carregando módicos pães de sal. 
 
Fica envergonhado de estar na fila somente com um pacote de papel. O risco é se considerar pobre em excesso. Olha-se para os lados e enxerga-se a mais pura ostentação do açúcar, do queijo, do milho e do coco. 
 
É um ponto de encontro de todos os que têm restrição de glicose e glúten, para testar os limites dos últimos exames. 
 
São viciados por empadas, pastéis, rabanadas, bolo de cenoura com cobertura de chocolate, pizzas altas caseiras.
 
Não é por acaso que existem carrinhos de supermercado na entrada. Os braços não dão conta. 
 
Mas a maior atração é a sinceridade do mineiro. A franqueza afetuosa dos atendentes. 
 
Eles não mentem. Não ficam fazendo falsa propaganda. Não são possuídos pelo descarte  compulsivo dos produtos antigos. Protagonizam comerciais da verdade, da cozinha como ela é. Como se fossem amigos de longa data, como se a intimidade fosse a alma do negócio. 
 
Vou exemplificar para não restar dúvidas. 
 
Na sexta, pedi um biscoito de polvilho, a funcionária por detrás do balcão, com seu avental e touca impecáveis, me desaconselhou: “não é de agora”. 
 
Nunca vi isso em minha vida, alguém do próprio estabelecimento confessando para que não compre algo. 
 
Logo em seguida, ela completou: “mas acabou de sair a broa! Está quentinha!”
 
Óbvio que arrebatei uma bandeja de broas. Não resisti ao cheiro da novidade. Beatriz, minha esposa, pouco entendeu o motivo de trazer tantas para o lanche da tarde, até brincou diante do banquete imprevisto: “é para congelar?”
 
É que o sincerícidio me conquistou. 
 
Eu me senti valorizado. Ela queria o meu melhor a partir do melhor da loja. Ela pretendia que voltasse, que apreciasse mesmo o que estava consumindo, que jamais me arrependesse. 
 
Sua preocupação mostrou que eu poderia confiar em sua dica. Pois ela não estava apenas vendendo, porém me cuidando, colocando-se no meu lugar, fazendo com que optasse por um produto que ela também escolheria. 
 
Havia uma identificação enamorada de paladar, sem divisórias, sem segundas intenções. 
 
Aquilo foi uma inspiração para me tornar um cliente fiel e devoto. 
 
A situação se repetiu outras vezes, quando eu intencionava por um pão calabresa e decidi por um folheado, ou quando tencionava por um bom bocado e me cerquei de goiabinhas. 
 
O jeitinho daqui é sedutor: desanima-se uma opção para incentivar uma segunda mais certa. 
 
Aponta-se para aquilo que é mais recente, mais fresco, para substituir uma frustração - que nem tem tempo de virar frustração, que transforma-se soberanamente em prevenção. 
 
Agora, treinado pela gentileza, eu já chego perguntando qual a boa do dia. Nem sei mais o que vou levar para casa, deixo para descobrir na hora.

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