Fabricio Carpinejar

Poeta escreve todos os domingos no Magazine e no Portal O Tempo

Papelaria mineira

Publicado em: Dom, 26/12/21 - 03h00
Papelaria mineira | Foto: Hélvio
Não dá para dizer “mineiro da gema”, o mineiro é da clara, da luminosidade das montanhas, da clareza das ideias. 
 
Todo mineiro é caprichoso. Tem forro. 
 
Nunca papelaria e tabacaria vão desaparecer em Minas. Não conheço povo tão viciado em papel, lápis, laços, réguas e canetas. 
 
As pessoas andam com esferográficas no carro, na bolsa, na mochila. E chegam ao extremo de colocar o nome em seu canudo transparente. É tão obrigatório quanto a aspirina. Vão querer anotar algo além dos celulares. 
 
Mineiro vive de recados e bilhetinhos. É um carteiro de si mesmo, um poeta de si mesmo. 
 
Anota receitas, frases, compromissos, telefones. Gosta de se enxergar na letra. A letra é seu espelho do futuro. Do que precisa fazer amanhã. 
 
Não ter caneta é como não ter dinheiro na conta. Bate um desespero. 
 
Haverá estojos e potes espalhados pelos mais diferentes ambientes. Assim como ninguém abre mão dos clipes, dos grampeadores, dos alfinetes. Guarda, inclusive, a ancestral espátula para descerrar cartas sem rasgar o conteúdo. 
 
Talvez você não tenha reparado, mas a casa traz um estoque de escritório. Existe a dispensa da comida e a dispensa de folhas de oficio, durex, cola, tesoura, esquadro. 
 
Aqui não se larga a mentalidade escolar na vida adulta. Os trabalhos de Artes. As declarações de afeto. 
 
Minha esposa não se contenta com o pacote da loja. Quer mais. Quer uma etiqueta ou uma fita colorida. Quer um toque pessoal. Quer impressionar o outro lado com um enfeite. 
 
Eu penso que a encomenda está concluída, e ela me adverte: “calma aí!” E busca mais um adereço, a última pincelada da gentileza. 
 
As comidas também são enfeitadas com celofane ou com flores. É comum oferecer um bolo numa caixinha, numa redoma de plástico, tendo um ramalhete pendurado nas abas de cima. Jamais segue nua e crua para o familiar ou amigo, trata-se de falta de educação não vestir a oferenda. 
 
Nem o queijo ou a goiabada escapam dos adornos. Já confundi queijo com uma torta tamanho o cuidado na embalagem. 
 
O mesmo pode se falar das sacolas. Mineiro não joga fora nenhuma delas. Mantém um aglomerado de opções para repassar roupas adiante. A campanha de agasalho acontece mensalmente de modo voluntário. Se tem algo que ele odeia é passar frio, portanto divide as peças que não usa mais para ninguém sofrer desse mal. 
 
Assim como minha esposa vai ao mercado, à padaria e ao açougue, frequenta papelarias e tabacarias em busca de matéria-prima para embrulhar os seus presentes.
 
Volta surpreendentemente carregada de cadernos e blocos como se fosse começar um curso. É fascinada pelas capas e texturas. 
 
Pergunto por que comprou, ela somente responde que achou bonito. 
 
Qualquer lembrança vira um bordado, tem o seu avesso revelado. Mineiro é um suspiro. Feito de vésperas e esperanças, das claras de ovo e do açúcar refinado.

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